cinésie

a poesia como movimento, o movimento como cinema e o cinema como poesia.

Anna Petracca

Curitibana, cursa bacharelado em Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná. Respira arte, inspira tudo

marilyn monroe: além da beleza americana

Marilyn Monroe, atriz estadunidense que morreu prematuramente, foi e ainda é conhecida pela sua beleza estonteante. Mas será que seu talento parava por aí? Alguns fatos que a grande mídia sempre tentou esconder provam que ela era mais do que apenas um rosto bonito. Dona de um talento incrível e um passado perturbador, Marilyn nos leva a questionar até que ponto a mulher é dona de si na indústria cinematográfica.


marilyn1.png Marilyn Monroe fotografada por Milton Greene, em 1955.

A estrela de Hollywood Norma Jeane (que utilizava o nome artístico Marilyn Monroe) brilhou muito por pouco tempo, e foi muito mais do que apenas um rosto bonito. Na estante de sua casa, havia mais de 400 livros sobre arte, filosofia, poesia, psicologia, religião, além de centenas de romances. Ela era fã de James Joyce, Gustave Flaubert, Hemingway, Dostoievski e analisava Freud. Era amiga de Carl Sandburg e Truman Capote. Era tudo menos uma “loira burra” – como ficou mundialmente conhecida. A atriz norte-americana que teve seu auge na década de 50, morrendo em 1962 com apenas 36 anos, passou por altos e baixos – e lutou para que fosse reconhecida pelo seu talento, além de sua beleza.

Sabendo disso, muitos já devem ter se perguntado: se ela queria ser vista além da sua beleza, por que escolhia interpretar justamente o papel de “loira burra” nos filmes? A questão é: ela não tinha escolha. Se atualmente as atrizes de Hollywood não têm poder de escolha, imagine nos anos 50. Marilyn era, realmente, muito bonita, o que ajudava no marketing dos filmes e claro, fomentava a indústria que era (e continua sendo) o star system. No entanto, a garota do Chanel n°5 que odiava azeitonas passava a maior parte do seu tempo dedicada a melhorar o seu desempenho como atriz, que não era o foco principal de seus produtores.

marilyn3.jpg Marilyn Monroe em Don't Bother to Knock, 1952.

Em 1952, Monroe estrelava o suspense Don’t Bother to Knock, realizando o desejo de mostrar a sua real capacidade de atuação fora de uma comédia. Apesar das críticas positivas ao filme em geral, o longa-metragem não fez tanto sucesso quanto os outros nos quais a atriz havia atuado. Em 1954, Marilyn rompeu seu contrato com a 20th Century Fox, certa de que a partir dali não iria mais atuar em filmes de comédia. Ela se juntou ao seu amigo fotógrafo Milton Greene e anunciou a formação da Marilyn Monroe Productions. Assim, ela foi a terceira mulher na história a começar uma produtora. Infelizmente, seu desejo teve um prazo curto. Sua personalidade entre o público já havia sido concretizada e não tinha como Marilyn atuar em um papel que não exaltasse a sua beleza acima de qualquer outra qualidade. Assim, em 1955, The Seven Year Itch foi lançado e logo se tornou um grande sucesso. Dessa forma ela pôde voltar para a 20th Century Fox e realizar um novo contrato, mas agora com algumas vantagens: ela seria capaz de trabalhar para outros estúdios e tinha o direito de rejeitar qualquer roteiro, diretor ou cineasta que ela não aprovasse. De qualquer maneira, ela continuou fazendo filmes na linha da comédia (pois apesar da falsa liberdade citada acima, ainda sofria com a pressão de manter sua personalidade de sucesso) e seu estado psicológico – que já era conflituoso – só piorava.

Marilyn Monroe era uma pessoa muito sensível e de difícil compreensão e parte disso provavelmente era decorrente de sua infância complicada. Ela passou seus primeiros anos em lares adotivos, sua mãe biológica tinha problemas mentais e há uma grande confusão em saber quem era seu verdadeiro pai. Alguns livros afirmam que Monroe teve mais de 10 abortos espontâneos e consequentemente nunca pôde realizar o seu enorme desejo de ter um filho. Isso tudo e mais um pouco culminou em uma grave dependência alcóolica e um suicídio (embora oficialmente a causa de sua morte seja essa, há inúmeras teorias de conspiração levando até a suspeita de Marilyn ter sido assassinada).

marilyn2.jpg Marilyn Monroe fotografada por David Conover, em 1944.

Marilyn era uma mulher carente e sensível dos anos 50, querendo fama, dinheiro e reconhecimento. Apesar de ter tentado de todas as formas sair do padrão no qual se encontrava, não havia saída. O mundo todo havia se apaixonado pelos seus olhos azuis e cabelos loiros, não interessava mais se ela atuava bem, mal, nem se atuava. As pessoas queriam alimentar-se da sua beleza. Ela, no entanto, queria que vissem além da estética. A atriz foi destruída por quem a amava – seus fãs, admiradores, companheiros -, até por ela mesma. Em constante estado de aceitação, acabou morrendo prematuramente. Marilyn é só mais um exemplo da pressão que o star system de Hollywood impõe aos seus contratados - e principalmente, contratadas - ; em troca da fama e o glamour vêm a venda de seus sonhos e desejos em prol da indústria.

Assim, fica a pergunta: se a causa da morte de Marilyn foi mesmo o suicídio, estaria ela tentando matar a si mesma ou a personagem da qual passou tanto tempo tentando se livrar? Até quando veremos as atrizes como pedaços de carne expostos em uma vitrine cinematográfica e não como seres humanos? Afinal, já se passaram 53 anos desde a morte de Marilyn.

Dois dias antes da morte da atriz, A revista Life publicou a sua última entrevista. No final, Marilyn disse: Mas, por favor, não me faça parecer uma piada.

Durante a sua cerimônia de casamento com Joe DiMaggio, Marilyn prometeu “amar, honrar e cuidar” do seu marido. Ela intencionalmente não falou a palavra “obedecer”. Isso porque não queria ser controlada, ela só queria amar.


Anna Petracca

Curitibana, cursa bacharelado em Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná. Respira arte, inspira tudo.
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