cinésie

a poesia como movimento, o movimento como cinema e o cinema como poesia.

Anna Petracca

Curitibana, cursa bacharelado em Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná. Respira arte, inspira tudo

o devaneio lúcido e o realismo poético de waking life

"Dizem que o ato de sonhar está morto, ninguém mais sonha. Não está morto, foi apenas esquecido. Removido da nossa linguagem. Ninguém ensina, então ninguém sabe que existe. O sonhador é banido à obscuridade. Estou tentando mudar isso. Espero que você também esteja...sonhando todos os dias. Sonhando através das mãos e das mentes. Nosso planeta está diante dos maiores problemas que já enfrentou. Não se entedie, esta é a época mais fascinante em que poderíamos esperar viver. E está apenas começando." - Waking Life (Richard Linklater, 2001).


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“...Diante do altar, no chão, vi, voltado para mim, um iogue, na posição de lótus, profundamente recolhido. Olhando-o de mais perto, vi que ele tinha o meu rosto; fiquei estupefato e acordei pensando: ah! Eis aquele que me medita. Ele sonha e esse sonho sou eu. Eu sabia que quando ele despertasse eu não existiria mais”.

- “Memórias, Sonhos e Reflexões” de Jung.

Se a filosofia e o cinema tivéssem um filho, provavelmente nasceria Waking Life. O longa-metragem estadunidense Waking Life (2001), de Richard Linklater (que dirigiu também o premiado Boyhood em 2014), foi realizado em rotoscopia, técnica que consiste basicamente em animar o que foi previamente filmado ou usar como base os frames para referência da criação da animação. Para ficar mais claro, em Waking Life, especificamente, o diretor primeiro rodou todas as cenas com os atores reais e depois repassou-as a Bob Sabiston (que dirigiu vários curtas de animação, é diretor de arte, programador e responsável pela criação do software Rotoshop, para animação digital). Bob e sua equipe de 30 animadores, recobriram o filme com computação gráfica (usando o Rotoshop) e transformaram em um longa de animação. Pode parecer simples, mas cada minuto da edição final de Waking Life exigiu em média 250 horas de trabalho por parte dos animadores. Você pode conferir Bob Sabiston falando sobre o processo de desenvolvimento de Waking Life no vídeo "'It was all a dream: A look back at Waking Life,' by Bob Sabiston".

“It was all a dream: A look back at Waking Life,” by Bob Sabiston from Nerd Nite - Austin on Vimeo.

O filme narra a história de uma personagem (o qual não nos é apresentado um nome) que não consegue despertar de um sonho. Ironicamente, este personagem, imerso no mundo onírico, inicia um processo de despertar da consciência. O protagonista tem uma experiência de sonho lúcido (percepção consciente de um indivíduo sobre um determinado estado ou condição durante o sonho) e começa uma busca de autoconhecimento. Pouco a pouco, o garoto vai conversando com diversas pessoas que esbarra. São conversas densas, profundas e filosóficas mas ao mesmo tempo objetivas, contundentes. Esse filme é repleto de referências intrínsecas. Algumas delas estão nas entrelinhas, como é possível observar em uma cena na qual, está sendo projetado o filme "Sonhos" de Akira Kurosawa em uma sala de cinema, fazendo referência direta ao filme do diretor e ao tema do próprio longa em questão. Em outra cena, representando o grupo dos momentos que são contemplados por uma ironia crítica não tão sutil, um grupo de quatro homens discursam sobre a sociedade e a alienação. Sem alardes, o símbolo do anarquismo aparece rapidamente pintado em um muro. No final desta mesma cena, o grupo encontra um homem já idoso no alto de um poste de luz. Quando eles oferecem ajuda, o homem nega. Eles desistem de tentar ajudar e um dos quatro homens diz "nós somos só teoria, sem ação. Ele [o velho] é só ação, sem teoria."

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Mas há principalmente os temas que são discutidos abertamente como Sartre e existencialismo, criação e linguagem, evolução humana, individualidade, caos e suicídio, alienação, morte e realidade, reencarnação, livre arbítrio, física, tempo e paradoxo, o "eu", sofrimento e evolução, sonhos lúcidos, a essência e a linguagem do cinema, Bazin, Truffaut, felicidade, relações humanas, pontos de vista e perspectiva, Thoman Mann, Lorca, entre tantos outros. Para deixar a experiência ainda mais "mágica", a trilha sonora é composta por Glover Gil, executada pelo grupo texano Tosca Tango Orchestra.

A técnica usada neste filme (a rotoscopia) nos remete ao lúdico, à nossa criança interior. Pessoalmente, nunca consegui apreciar essa técnica de animação, mas com certeza é um elemento chave neste longa-metragem, que por sinal funciona muito, mas muito bem. É traçado também uma relação estreita entre o desenho e o sonho em si. Quando sonhamos, não necessariamente há 100% características usualmente consideradas "reais", mas temos certeza de que tudo o que vivenciamos ali está realmente acontecendo conosco (diferente da experiência do sonho lúcido). O filme também trata da relação do eu-corpo com o eu-mente, do ser humano como indivíduo, como cidadão, como animal, como um ser existente. A ideia de trazer a rotoscopia para tratar desse tema é particularmente genial, uma vez que, nesta técnica, a forma humana é constantemente "deformada".

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O filme traz assuntos tão polêmicos quanto profundos, como o suicídio resultante da esmagadora realidade na qual estamos inseridos, socialmente, politicamente, estruturamente. Assim, critica os valores imaginados e os reais, valores criados por humanos para que outros pensem e ajam como máquina e valores essecialmente humanos, que vão além da filosofia teórica, transcendendo a prática e até a vida em si.

Passados pouco mais de dez minutos de filme, o personagem principal e uma garota discutem a linguagem e a relação humana. Ela diz "a criação vem da imperfeição. Parece ter vindo de um anseio e de uma frustração. É daí, eu acho, que veio a linguagem. Quero dizer, veio do nosso desejo de transcender o nosso isolamento e de estabelecer ligações uns com os outros. Devia ser fácil quando era só uma questão de mera sobrevivência. Você sabe, 'água': nós criamos um som para isso. Ou 'tem um tigre atrás de você!' criamos um som para isso também. Mas quando fica realmente interessante, eu acho, é quando usamos esse mesmo sistema de símbolos para comunicar tudo de abstrato e intangível que vivenciamos. O que é 'frustração'? Ou o que é 'raiva'? Ou 'amor'? Quando eu digo 'amor' o som sai da minha boca, atinge o ouvido de outra pessoa, viaja através de um canal labiríntico em seu cérebro através das memórias de amor, ou falta de amor e o outro diz que compreende. Mas como sei disso? Porque as palavras são inertes. São apenas símbolos. Estão mortas, sabe? E muito da nossa experiência é intangível. Muito do que nós percebemos não pode ser expressado, é inexplicável. E, ainda assim, quando nos comunicamos uns com os outros e sentimos ter feito uma ligação e termos sido compreendidos acho que temos uma sensação quase como uma comunhão espiritual. E essa sensação pode ser transitória, mas eu acho que é para isso que vivemos." Este é apenas um exemplo das discussões que são trazidas no filme. A cada minuto, o espectador é cativado e supreendido pelo nível da abstração e quase compreensão dos diálogos que são trazidos à tona.

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Em outro momento do filme, o protagonista esbarra em uma garota ruiva. Ele continua seu caminho mas ela volta e o chama. Assim, ela dá um discurso sobre as relações humanas: "[...] eu sei que nós não nos conhecemos, mas eu não quero ser uma formiga. Passamos pela vida esbarrando uns nos outros sempre no piloto automático como formigas, não sendo solicitados a fazer nada de verdadeiramente humano. 'Pare.' 'Siga.' 'Ande aqui.' 'Dirija ali.' Toda ação apenas servindo à sobrevivência. Toda comunicação servindo para manter ativa a colonia de formigas de um modo eficiente e civilizado. 'Aqui está o seu troco.' 'Papel ou plástico?' 'Crédito ou débito?' 'Aceita ketchup?' Eu não quero um canudo! Eu quero momentos humanos verdadeiros. Quero ver você. Quero que você me veja. Não quero abrir mão disso. Não quero ser uma formiga, entende?". É o grito que todo indíviuo minimamente crítico, inserido nesse meio/realidade social-virtual, quer dar. O que a garota ruiva neste longa-metragem de 2001 disse, é o que queremos (digo pela perspectiva de quem vos escreve) gritar a todo momento em 2015. Aonde foram parar as relações humanas? Estamos cada vez mais deixando de lado a nossa essência, a nossa capacidade de viver e se relacionar com os outros. Estamos sobrevivendo. Em tempos de realidade virtual programada, muito antes de "Ela" (Spike Jonze, 2013) esta cena nos serve como um "tapa na cara".

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Além da filosofia, o filme trata sobre o cinema em si. Citando nomes como Truffaut e Bazin, o filme vai além ao tratar do que é o cinema, do que é a experiência e forma cinematográfica a qual estamos tão acostumados. Através dessa metalinguagem, é traçado uma linha com o momento sagrado que é cada segundo da vida.­­­ A quarta parede cinematográfica não é realmente quebrada, pois é o personagem principal que vivencia tudo o que nos é mostrado. No entanto, podemos dizer que esta mesma "quarta parede" é transparente pois é através do protagonista que desfrutamos de pseudo-experiências (e eu, particularmente diria que cinematograficamente transcendentais) ou experiências intelectuais, espirituais e filosóficas. O protagonista serve como um meio entre o texto que os outros personagens estão dizendo para nós mesmos. Chega em um ponto no filme no qual o personagem principal deixa de ser um "sonhador passivo" para virar um "sonhador ativo e crítico" e é dessa evolução que participamos ao decorrer dos minutos.

Cada assunto que é abordado, cada aspecto cinematográfico, poderia ser tema de uma longa discussão. No final, a mais valiosa observação que pode ser feita sobre este longa-metragem incrível é que todos, pelo menos uma vez na vida, deveriam assistir à Waking Life. Faço minhas as palavras de uma das personagens do filme: "quando acabou, eu só conseguia pensar em como toda essa noção de 'eu', do que somos, é apenas uma estrutura lógica. Um lugar para abrigar momentaneamente todas as abstrações. Era tempo de adquirir consciência, de dar forma e coerência ao mistério."


Anna Petracca

Curitibana, cursa bacharelado em Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná. Respira arte, inspira tudo.
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