cinésie

a poesia como movimento, o movimento como cinema e o cinema como poesia.

Anna Petracca

Cursa Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná e Filosofia na UNINTER. Inconstância, liquidez e abstração em forma humana (ou quase). Adora cinema, fotografia, e longas conversas sobre existir.

ana cristina cesar: tão mulher quanto poesia

Ana formou-se em letras pela PUC-Rio e foi mestre em comunicação pela UFRJ. Além de jornalista e crítica literária, traduziu obras de escritoras consagradas como Katherine Mansfield, Emily Dickinson e Sylvia Plath. No entanto, foi a sua poesia intensa, radical, sedutora e subversiva que conquistou os olhos e corações de seus leitores.


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"Ana C.: decifro-te, ou me devoras. Te devoro, te adoro."

Carioca, Ana Cristina nasceu em 1952 e vivia no mundo do baixo Leblon, da literatura, próxima da geração marginal (apesar de não ser realmente considerada parte da geração em si). Aos seis anos de idade ditava poemas para que sua professora ou sua mãe os escrevessem, pois ainda não havia sido alfabetizada. Aos sete, teve seus primeiros poemas publicados e aos dez anos fez uma memória da sua vida de poeta.

Ana respirava literatura, poesia, arte. Lutava ativamente contra a ditadura. Sua obra, entretanto, não é composta apenas de poesia, mas também texto escrito em prosa e cartas. Sua escrita tende a criar um mundo de intimidade entre o leitor e a autora, muitas vezes adotando um tom confessional. Há também uma forte influência da escrita de James Joyce - mais especificamente em Ulysses - em relação à escrita fragmentada, seguindo o fluxo do pensamento.

ana c 4.jpg Cacaso, Charles Peixoto, Armando Freitas Filho e Ana Cristina Cesar

Ana C. – como também ficou conhecida – possuía uma grande consciência criativa, e ao mesmo tempo um grande julgamento crítico, e andava sobre a linha tênue que separa a ficção da autobiografia. A sua vivência como mulher e poetisa era um tema recorrente em suas poesias. O tom intimista também era recorrente e apesar de aparentar improviso, ela mesma afirmou que sua poesia era “muito construída, muito penosa”.

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Ana era classificada por seus amigos mais próximos como existencial e emocional. Ao final de sua vida, entra em uma forte crise e tenta suicídio duas vezes, sendo que aos trinta e um anos de idade, se joga da janela do apartamento de seus pais. Ela foi homenageada na Flip 2016 e talvez esse tenha sido um dos maiores motivos pelo qual a escritora está sendo mais reconhecida hoje. Ana Cristina Cesar é o tipo de autora que não se apresenta, não se conhece, mas se sente. Não há quantidade de palavras possíveis para descrever o que ela nos deixou, ou quem ela foi. Só abrindo um livro seu (e eu sugiro para começar Poética, lançado pela Companhia das Letras em 2013) e sentindo cada verso, cada letra, cada suspiro, cada entrelinha.

"E sobre tudo atento repousa

meu intento esqueleto mudo

Do túmulo quem ousa erguer-se

Do píncaro estrebucha: FETO

E em nada ausente levanta

minha mente caverna armada

Da ânfora quem vai virar-se

Do cúmulo despenca: ERMO"

nó; dezembro/68 Ana Cristina Cesar em "Poética", p.158


Anna Petracca

Cursa Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná e Filosofia na UNINTER. Inconstância, liquidez e abstração em forma humana (ou quase). Adora cinema, fotografia, e longas conversas sobre existir. .
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