cinésie

a poesia como movimento, o movimento como cinema e o cinema como poesia.

Anna Petracca

Cursa Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná e Filosofia na UNINTER. Inconstância, liquidez e abstração em forma humana (ou quase). Adora cinema, fotografia, e longas conversas sobre existir.

estabilidade é uma ilusão: a felicidade como forma de controle

Pra ser feliz, você precisa desacreditar na estabilidade. Ou melhor, antes de tudo desacredite na felicidade. Alegria, talvez. Algo momentâneo, fluido, mas nada permanente. Não existe felicidade plena e contínua, quem afirma o oposto vive na infelicidade velada e ilusão. A tristeza é necessária e pertinente. Claro, o excesso faz mal; não faria sentido acreditar em uma tristeza permanente e felicidade ilusória. No mundo globalizado, onde tudo é de fácil alcance, na era dos aplicativos, todo mundo tem a obrigação de ser feliz.


paloma wool.jpg Foto de Paloma Wool

Mas não é bem assim. Ninguém te obriga a ser feliz.

Há, obviamente, uma pressão social - e funcional, segundo alguns pontos de vista, mas que no fim servem ao capital(ismo) – para que todo indivíduo atinja esta felicidade. Mas a grande chave da questão é que esta pressão social é apenas uma forma de controle do indivíduo, que se obriga a acreditar na ilusão de que a felicidade é uma meta para ser atingida. É uma forma de controle velada, mas nem tanto. Esta forma de controle exercida através da pressão social com o objetivo de atingir as prioridades e crenças universais de um indivíduo isolado é vendida de várias formas; na Coca-Cola e a fábrica da felicidade, na família margarina, no dízimo...

A felicidade é o limite, o objetivo, o ápice. Não há nada além da felicidade, pois ela é a meta. Não há nada para se questionar. Sobre a felicidade paira apenas a conformação e aceitação do estado. A tristeza questiona e é aí que mora o perigo (e é por isso que a sociedade se consolidou em cima da venda da felicidade e não da tristeza). Perigo para quem controla e via de libertação para quem vive. Não há nada pior para o dominador do que ter seu poder questionado.

A partir do momento no qual o indivíduo, como ser consciente e questionador, se permite ser controlado, é ele quem escolhe comprar a mentira da felicidade. A preguiça de questionar o torna escravo da vontade do outro, que abusa do poder (que é dado para o dominador tanto por ele mesmo quanto pelo dominado) em função de suas próprias vontades. E por isso, o dominado nunca está feliz. A busca é pela estabilidade financeira, amorosa, social, mas quando – e se – atingida não reflete da maneira como deveria, ou pelo menos como foi propagandeada.

Se todo indivíduo se tornasse autoconsciente de sua condição, aconteceria uma revolução em massa; relacionamentos não seriam destruídos pela crença e tentativa frustrada de serem eternos (pois seriam apenas vivenciados sem uma meta quantitativa e qualitativa para cumprir ), a burocratização da vida seria desconstruída aos poucos e o Estado teria menos poder sobre o indivíduo (ou melhor: o indivíduo perceberia que o Estado não exerce tanto poder sobre sua vida). Obviamente, todo este contexto no qual o indivíduo está inserido serve à uma estrutura social e burocrática com uma finalidade principal: controle. Enquanto somente uma minoria tomar consciência de sua condição, a infelicidade transmuta de libertadora para opressora, pois não há espaço para questionar em um mar de felicidades ilusórias.


Anna Petracca

Cursa Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná e Filosofia na UNINTER. Inconstância, liquidez e abstração em forma humana (ou quase). Adora cinema, fotografia, e longas conversas sobre existir. .
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