cinésie

a poesia como movimento, o movimento como cinema e o cinema como poesia.

Anna Petracca

Curitibana, cursa bacharelado em Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná. Respira arte, inspira tudo

oito aspectos a se considerar em os oito odiados

8 ou 80? “É o melhor filme de Tarantino?” Deveria ser? Este pode ser o filme da sua vida, tanto para melhor quanto pior. Aqui não são elencadas oito razões para se assistir à “Os Oito Odiados” pois uma vez visto, surgirão mil questões para se refletir e pensar até mesmo sobre o próprio cinema (o que já é por si só um bom motivo para assistir ao filme).


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Que Tarantino adora western todos já sabem, mas um western na neve é no mínimo pretensioso. Talvez tanto quanto os créditos iniciais que, além de deixar claro que este é o oitavo filme do diretor, uma lista de ótimos atores, um gênio responsável pela trilha sonora, mostra ainda que foi filmado em 70mm. Assim, nos vemos diante de algumas questões que não podem ser passadas em branco. 8 destes elementos estão aqui, em uma lista, só pra dar o impulso: depois é com você.

Note que os elementos não estão em uma ordem específica*

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1. A direção de fotografia

Talvez o aspecto mais falado sobre o filme até então: a direção de fotografia dá um toque de que até quem não é apaixonado por cinema (ou fotografia!) irá se arrepiar. Filmado em 70mm puramente por questões estéticas, Os Oito Odiados é recheado de longas cenas de paisagens, remetendo ao faroeste “clássico” (opa!) do qual Tarantino tanto se inspira.

2. Os cenários

Nesse sentido, o plural é quase uma piada. Isso porque quase não foram usados muitos cenários no filme. São várias paisagens de tirar o fôlego, um casebre e é isso. Mas assim como todo o filme, Tarantino preza pela qualidade e não pela quantidade. São poucos, mas têm grande importância para a narrativa e são minuciosamente pensados.

3. A maquiagem

Ainda sobre a direção de arte do filme, a maquiagem também é algo a se pensar. Quem tira do contexto e analisa o olho roxo de Daisy (Jennifer Jason Leigh) diz com toda a razão que é o pior trabalho de maquiagem já realizado em um filme. A questão é que o realismo que nós vivemos quando vemos alguém com o olho roxo na nossa frente é diferente do realismo de Tarantino. Aqui a cabeça explode e os miolos voam, um braço é arrancado sem maiores dificuldades e o olho roxo é sim, caricato e teatral (o que não é um ponto negativo, muito pelo contrário).

4. A direção de atores (e eles próprios!)

Falando em teatralidade, há quem diga que a direção de atores em Os Oito Odiados é digna de tese de mestrado. Desde o trabalho de corpo dos atores quando dois deles tentam andar em uma nevasca até o momento no qual um chega na casa quase morrendo congelado e dramatiza a cena ao ápice. Vale ressaltar aqui a presença de atores já conhecidos pelos fãs de Tarantino, como Samuel L. Jackson (Pulp Fiction, Django Unchained, Jackie Brown, Inglorious Basterds), Kurt Russell (Death Proof), Tim Roth (Reservoir Dogs, Pulp Fiction) e Michael Madsen (Kill Bill, Reservoir Dogs).

5. A trilha sonora

Menos quantidade e mais qualidade, certo? Essa é Ennio Morricone que responde. A trilha sonora foi composta por ninguém menos do que o autor dos maiores westerns “clássicos”: The Good, the Bad and the Ugly (1966), Once Upon a Time in the West (1968), A Fistful of Dollars (1964), For a Few Dollars More (1965), Once Upon a Time in America (1984) entre muitos outros, pra não dizer outros “clássicos” (mas não westerns) como Cinema Paradiso. Mas não se engane: a parceria é mais antiga que Os Oito Odiados: Morricone já havia trabalhado com Tarantino em Django.

6. O roteiro

Óbvio, mas não poderia ser deixado de lado: o roteiro (escrito pelo próprio Quentin Tarantino como de costume) é o que vai lhe prender na cadeira do cinema durante as três horas de filme, até que suas costas doam. Bem analisado, é dividido em três atos (o primeiro no qual nos é apresentado os personagens, mas não é dito muito sobre eles – pelo menos não mais a fundo como no segundo ato, no qual descobrimos que ninguém ali é inocente, e o terceiro-mas-não-menos-importante, aonde a trama se desenrola). Dentro desses três atos, Tarantino literalmente dividiu (como em Kill Bill) o filme em capítulos, o que deixa tudo por um lado mais divertido e por outro, óbvio. No geral, há muito para se comparar o roteiro de Os Oito Odiados com Cães de Aluguel, com a (grande) diferença de que um é um e outro é outro. Para o grito da torcida, o roteiro é indiscutivelmente tarantinesco, desde as frases mais bizarramente humoradas até aos apelos críticos.

7. A marca do autor

Gostando ou não do estilo de Tarantino, uma coisa há que se considerar: ele assina seus filmes; tem um estilo próprio e isso é muito positivo. Em uma época onde qualquer um pode fazer um filme (dando margem à muitas coisas boas e o triplo de coisas ruins), ter a marca do autor em uma produção cinematográfica é algo muito valioso. Tarantino mantém uma marca, uma assinatura, um estilo, seja lá do que você chamar, muito específico. Ele tem suas referências e deixa isso muito claro, tem também muitos fãs e muitos haters, mas no mínimo já colocou muita gente - que sequer tinha parado para pensar que não é o protagonista que faz o filme sozinho - para discutir sobre cinema. E isso, de certa forma, em maior ou menor grau, é muito bom, não é mesmo? Fora que manter um estilo é algo muito difícil para quem o faz e muito prazeroso para quem assiste. Afinal, ninguém precisa avisar quando é um filme do Hitchcock que está passando na televisão. Ou do Buñuel. Ou Wes Anderson. Ou David Fincher. Ou Win Wenders. Não é mesmo?

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8. Apelo crítico?

Vi muitos artigos dizendo que Tarantino era misógino ao tratar de Daisy como um objeto, uma moeda de troca e muitas vezes expondo-a a vários tipos de humilhação. Será? Vale lembrar que Tarantino foi quem dirigiu Kill Bill, e então não precisamos dizer mais nada. Assim como a crítica que ele faz ao racismo (através de várias humilhações que são feitas ao personagem de Samuel L. Jackson) ele também faz ao próprio papel da mulher. Tarantino é didático, mas ao seu modo (como, por exemplo, na cena em que, dos seis cavalos que levam uma charrete, apenas um é branco). No final, Tarantino é Tarantino.


Anna Petracca

Curitibana, cursa bacharelado em Cinema e Vídeo na Faculdade de Artes do Paraná. Respira arte, inspira tudo.
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