claraboia

Nada é mais bonito que o real

Átila Paraguassú

De tanto pensar, me desvario - mas o que seria do homem sem um delírio ou outro?

Um sonho de igualdade

Até que ponto nossa sociedade é realmente conservadora? Será que ultrapassa os limites do que significa ser humano? Ser humano significa realmente alguma coisa? Sartre diz que a existência precede a essência. Se isso é verdade, quem educa os indivíduos que agem de maneira tão limitada acerca do convívio igualitário em comunidade? Ainda que essa discussão possa parecer batida, é conveniente voltar à ela de vez em quando.


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Imagino quando o politicamente correto virou o chato. Desde quando deixar de olhar só pro seu umbigo e passar a se importar (e até mesmo se identificar) com a realidade dos outros é tão fortemente condenável e facilmente julgável por alguns segmentos da sociedade? Espero não estar sozinho, mas já reparou como hoje não se pode mais ser feminista porque "feminazi é sinônimo de chata"? ou compactuar das políticas de inclusão racial que, misturadas com o fervor de eleição, viraram "coisa de esquerdopata maníaco". Pra completar, as informações (assim como os insultos) são mais compartilhados na rede, aumentando o número de pessoas que ultrapassam o limite entre a liberdade de expressão e o discurso de ódio.

Já faz um tempo que se confunde esses dois termos e o caso que primeiro vem à mente é o próprio ataque ao Charlie Hebdo. Não condeno a liberdade que eles têm pra publicar os cartoons, mas eu certamente usaria desse meu privilégio para algo de maior abrangência e menos agressivo. Se nem para os cientistas políticos e para as autoridades a diferença entre os dois conceitos citados é clara, imagine pra mim, simples colaborador da obvious.

Fig-2-Sartre-speaking-out1.jpg O discurso de ódio é escolha nossa

Impossível falar de liberdade sem mencionar Sartre que, quando diz que somos livres e capazes de escolher como moldamos o mundo e a nós mesmos, deixa mais claro esse conflito. Se existe discurso de ódio é porque alguém vê nele um ideal a ser seguido. Não acho justo e nem louvável, no entanto, alguém defender, e até moldar, uma sociedade em que não existe igualdade entre gêneros, cor e orientação sexual, por exemplo. É tudo uma questão de valor.

Esses valores, no entanto, são formados pela escola e pela família. A primeira ainda não encontra um suporte efetivo advindo do Estado que, por sua vez, é comandado por parlamentares cujo cunho humanitário é altamente duvidoso - vide Feliciano e Bolsonaro. Já a família, como instituição, recebe uma educação advinda de fora. É aí que entra a religião.

Nesse contexto, o fator religioso, que deve ser discutido SIM, se mostra determinante nas ideias fixas de certos segmentos sociais, como cristãos, hindus e muçulmanos, que representam uma maioria considerável no mundo. É difícil defender os direitos das minorias quando a maioria prega uma exclusão desumana sobre elas. Essas instituições, caso não se adaptem aos novos tempos, sairão dessa batalha desfalcadas de fiéis, uma vez que os jovens presenciam diariamente as mudanças no âmbito social e passam a defender valores realmente humanitários - não apenas os que estão documentados em livros sagrados.

image006.jpg As pessoas estão sendo educadas a defender apenas seus interesses em detrimento do respeito ao próximo

Então nem tudo está perdido. Não podemos esquecer que a sociedade, dinâmica como é e pouco estática como muitos querem, evolui a partir de revoluções, ou melhor, de renascimentos. Mil anos atrás, praticar a medicina era heresia passível de morte. No Renascimento Artístico e Cultural, Leonardo Da Vinci evoluiu o estudo da anatomia a parâmetros estudados até hoje. Ademais, o que seria da magnitude de pintores modernos, como Picasso ou Dalí, se não tivessem rompido com os padrões da época?

Proponho, então, um novo Renascimento Cultural - um reRenacimento. Depois desse processo, viveremos em um novo mundo, onde ser "politicamente correto" não é assunto de piadas de Danilo Gentili e companhia; um lugar em que defender a igualdade de direito entre homens e mulheres não seja dever apenas dos feministas, mas de toda sociedade; onde não vai fazer diferença ser negro, branco, asiático, índio, gay ou hétero, a única coisa que realmente vai importar é o seu caráter e a sua índole. Vamos renascer juntos?


Átila Paraguassú

De tanto pensar, me desvario - mas o que seria do homem sem um delírio ou outro?.
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