coisas bárbaras

Coisas que penso, gosto ou apenas reparo

Bárbara Valsézia dos Santos

Por ora, jornalista especialista em Comunicação Empresarial e Conteúdo. Mas, nada além de uma alma inquieta.

GENTILEZA: UMA PEQUENA E DELICADA FLOR QUE NASCE NO MEIO DO CONCRETO

Ser gentil é abrir mão, muitas vezes, do seu conforto, para realizar um ato favorável ao outro. Mas, e quando você nem tem conforto? Do que você abriria mão?


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Receber um ato de gentileza em um local como o metrô de São Paulo, linha azul, às 8 da manhã, é como ganhar um copo d’água no deserto. A gentileza é algo que não condiz com um cenário no qual uma multidão de pessoas apressadas, cansadas e mal-humoradas (incluo-me), tenta entrar em um local apertado e move-se como gado para fora e dentro dos trens, acima e abaixo de escadas. Ou seja, todos estão com muita sede, mas ainda assim, já vi alguns “oferecendo frescos copos d’água”.

A quem nunca andou de metrô ou de transporte público em grandes centros, aviso: é algo descomunal. Assista a qualquer filme sobre o holocausto, que você entenderá um pouco da cena. Não estou exagerando (e sei que a realidade do holocausto é extremamente cruel e lamentável). Estou apenas comparando o jeito de entrar nos trens. No caso dos paulistanos, vive-se esta cena todos os dias para trabalhar, apenas.

Ser gentil é ser sensível. Não é apenas uma questão de educação ou obrigação legal (os assentos prioritários, por exemplo, são, por lei, destinados a determinado público – idosos, gestantes, deficientes físicos etc.). É também uma questão de sensibilidade na observação do outro. É ter disponibilidade para sair um pouco dos seus próprios devaneios e atividades (sim, alguns chegam a jogar cruzadinhas) e observar.

Muitas vezes, alguém está precisando de sua ajuda do seu lado e você não percebe. Seja uma brecha para entrar na fila (no meio do gado) ou uma senhora que ficou sem um lugar para segurar dentro do trem. Então, você, que já está em pé, amassado, ferrado, não percebe a oportunidade para ser gentil.

Eis que surge alguém que te dá lugar pra passar, amassando-se ainda mais contra os outros. Alguém que te dá um sorriso. Alguém que faz uma brincadeira pra quebrar o gelo. Alguém que quer te dar o lugar mesmo que você esteja com uma criança já grande ou, simplesmente, com uma mala. Estas pessoas saem do senso de “já estou ferrado. Não tenho o que oferecer”. A gentileza toma esforço, energia, tempo. Às vezes muito pouco, mas, apenas pelo fato de o “ser gentil” não trazer nada concreto em troca (de vez em quando ele recebe um “você é bobo?”), é custoso.

Por isso, acredito que a mais bela e pura gentileza é aquela que, então, surge em meio a situações adversas. É aquela que surge daquele que não tem muito a oferecer no momento, a não ser, parar por 2 segundos na fila do gado e sorrir, como quem diz: “tudo bem. Entre na minha frente”.

Este raciocínio segue a mesma lógica da fraternidade. Diz-se que “ninguém é tão pobre que não possa doar algo”. Neste caso, “ninguém está em situação tão desfavorável que não possa ser gentil”.


Bárbara Valsézia dos Santos

Por ora, jornalista especialista em Comunicação Empresarial e Conteúdo. Mas, nada além de uma alma inquieta..
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