coisas bárbaras

Coisas que penso, gosto ou apenas reparo

Bárbara Valsézia dos Santos

Por ora, jornalista especialista em Comunicação Empresarial e Conteúdo. Mas, nada além de uma alma inquieta.

NADA É BOM O SUFICIENTE PARA A INTERNET

Seja uma pessoa popular na web. Em seguida, escreva em seu perfil que você dá esmolas. Você será sanguinariamente criticado. Escreva que você não dá e seja massacrado também. Na verdade, nada está bom para a internet, desde opiniões políticas até a foto de um inocente bebê dormindo entre almofadas.


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Vi esta frase em algum lugar e concordo plenamente. Aliás, para ser mais exata, a frase seria “nada é bom o suficiente para os internautas”. Meu Deus, como as pessoas reclamam e enchem a boca (ou os dedos) para discordar e mostrar o quanto são intolerantes!

Às vezes caio na besteira de ler comentários de blogs. Quanto mais famoso e massivo for o público do blog, mais bobagem e intolerância. As pessoas, de repente, começam a brigar entre si criando um verdadeiro artigo à parte. Não à toa, o jornalista blogueiro Sakamoto baniu os comentários de seu blog. Segundo ele, definindo muito bem porque a caixa de comentários seria um recurso prejudicial, no mundo de hoje: “(‘...) se por um lado, ela é um instrumento para a troca de ideias e a construção coletiva do conhecimento, por outro, também se tornou um ambiente para a desinformação, onde trolls e comentaristas profissionais atuam de forma sistemática para atacar – não raro de forma violenta – em nome de suas posições. Tornando-a, assim, uma trincheira sangrenta no rodapé dos textos”.

Eu sempre pensei na abertura aos comentários como algo alinhado com o conceito de democracia. Alguém escreve, vários opinam e juntos, todos constroem novo conteúdo – algo colaborativo e rico em pontos de vista. Porém, tudo o que enxergamos é a extrema pobreza: de argumentos, de informação, de sensatez, de respeito e de humanidade. Outrossim, tive a infelicidade de checar um episódio no perfil do Facebook do jornalista Boechat. Ele, despretensiosamente, compartilhou a foto de uma pequena lista feita à mão sobre coisas que são muito importantes para ele. Ele teria elaborado esta lista durante uma palestra, onde o facilitador solicitou que os participantes rascunhassem as 6 coisas mais fundamentais em suas vidas.

Boechat, muito simpático e bem-humorado que é, escreveu:

• Filhos;

• Amor/ Veruska (sua mulher);

• Trabalho;

• Lazer;

• Paz;

• Vinho.

Como todos os seus posts, este foi extremamente comentado. Então, chega um leitor dizendo que ele não deveria se esquecer do “provedor” de tudo isso, que é Deus. Até aí nada demais. Trata-se de um ponto de vista. Uma pessoa respondeu: “A lista dele está correta visto que ele é ateu”. Também não vi problema, afinal, trata-se de outro ponto de vista e nada mais, nada menos, que uma informação a respeito da escolha religiosa do jornalista.

Porém, logo abaixo, novos comentários e uma verdadeira “pancadaria digital” é instalada. Ateus tirando sarro da “cegueira” trazida pelas religiões e atestando que trocariam Deus por mais vinho. Cristãos unindo-se em oração pela alma daqueles infelizes que queimariam na fogueira das almas. Está armado um circo de desrespeito, mau-gosto e desinformação. Em ocorrência um pouco menos recente, o alvo foi a Bela Gil (sempre um alvo da “zoeira never ends” da internet). Ela teria a infelicidade de, simplesmente, informar em um post as propriedades da cúrcuma em limpar os dentes e dar sua opinião sobre o uso excessivo de flúor e aditivos químicos em pastas dentais.

Foi o suficiente para começarem os comentários contra e para a coisa tomar proporções imensas, gerando manifestação massiva dos profissionais de odontologia de todo o país. E, se algum deles ler este post, tenho certeza de que já haverá exemplo de comentários similares por aqui também.

Outra matéria (besta) que foi alvo de discussões do tipo “bola-de-neve” foi a informação de que a boneca Barbie começaria a ser fabricada com outras características, começando com a Barbie negra de cabelos enrolados. Foi um leitor dizer que isso não bastava - eles tinham é que fabricar bonecas também mais cheinhas – para choverem críticas e ensaios ideológicos extremamente avessos e malucos. Gente! Já estão mudando a boneca. Calma!

A verdade é que as pessoas gostam de ter razão. Ninguém gosta de ser contrariado. Por isso, uma vez escrita minha opinião lá, caso alguém vá contradizer, eu irei defender meu ponto de vista com unhas e dentes. Quando eu encontrar pessoas que tenham a mesma opinião que eu, elas me ajudarão com seus argumentos que, por mais que sejam um pouco infundados, se estiverem na mesma linha dos meus, ok, aceito! Caso não, preciso de mais fundamentos, por favor. É algo como “discordo, logo existo”.

Na verdade, nas redes sociais, as pessoas são o que são na vida real. Só que potencializadas pela companhia de outros que têm as mesmas características, em alguns casos, mais acentuadas. O mais recente festival de comentários toscos e inúteis que vi foi o caso da atriz Fernanda Machado. Ela postou no Instagram uma foto de seu bebê dormindo com algumas almofadinhas em volta e com o cãozinho da família olhando.

Foi o suficiente para que as pessoas começarem a palpitar e a criticar a atriz como mãe. Uma hora por causa das almofadinhas, que poderiam causar sufocamento, outra hora por causa do cão. Logo depois, vieram os defensores e até os preocupados demais (de que marca é esta almofada? Ela simula um útero?). O mesmo acontece na vida real e eu, como mãe, já vivi esta enxurrada de “preocupações” que, em muitos momentos, soa-me como “esta pessoa poderia cuidar mais da sua própria vida”.

Enfim, a internet é uma extensão de nossa sociedade. A diferença é que os diálogos cotidianos ficam em nossa comunidade e desaparecem ao sabor dos ventos. Já o fiasco que escrevemos na web vai para o mundo e fica lá para outros lerem (e concordarem).


Bárbara Valsézia dos Santos

Por ora, jornalista especialista em Comunicação Empresarial e Conteúdo. Mas, nada além de uma alma inquieta..
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