coisas bárbaras

Coisas que penso, gosto ou apenas reparo

Bárbara Valsézia dos Santos

Por ora, jornalista especialista em Comunicação Empresarial e Conteúdo. Mas, nada além de uma alma inquieta.

A OVELHA, O RODRIGO E NOSSA RELAÇÃO MAL RESOLVIDA COM A CARNE

Se Rodrigo tivesse pegado da geladeira um corte de carneiro embalado a vácuo pela grande indústria, a mesma comoção teria ocorrido? Saiba que aquele pedaço de carne do supermercado, da sua geladeira, causou muito mais sofrimento animal e impacto ambiental do que a ovelhinha do Hilbert?


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Há alguns dias, a comoção tomou conta das redes sociais (principalmente do Twitter) por causa de um episódio do programa Tempero de Família, do GNT, protagonizado por Rodrigo Hilbert, no qual ele mesmo mata um carneirinho ainda em época de amamentação para preparar um prato.

As cenas foram editadas para não mostrar o ato em si, mesmo assim foram consideradas fortes por grande parte dos telespectadores.

Logo depois, o apresentador soltou uma carta aos contrariados com um pedido de desculpas e dizendo que “ao mostrar o abate do animal em uma pequena fazenda, eu acreditava estar chamando a atenção para se conhecer a procedência dos alimentos, para se entender como é a cadeia produtiva do que consumimos”. E também que “venho de uma família grande, igual a muitas outras nesse Brasil, que tem como tradição plantar e criar o próprio alimento que consome”.

Ao ler esta frase, lembrei-me de um documentário que assisti, chamado “Food Inc.”, o qual abordava a cultura de fast-food, produção em massa e desperdício, que faz com que o corporativismo tome conta do mercado de alimentos em detrimento da agricultura familiar.

Em certa cena, mostravam um pequeno produtor, limpando seus porquinhos e contando como é seu negócio e como os grandes estão engolindo-o. Ele mostrou um porco vivo e falou algo parecido com isto: “eu trato este porco como um animal. A grande indústria trata-o como um aglomerado de moléculas, uma commodity”. Ele também falou algo sobre o respeito pela vida.

O documentário tratava, além desta visão mais conceitual, das questões de sustentabilidade da indústria alimentícia. Vamos a alguns fatos:

• O maior problema ambiental do planeta não está na tomada das áreas verdes pelas cidades ou na fumaça dos carros (apesar de serem um grande problema). O que mais toma área verde (matas) são as terras usadas para produção alimentar em massa como a criação de gado para abate e o plantio de grãos (para estes animais comerem) e cereais. Além disso, os gases (o peido) destes animais também são grandes contribuintes para o efeito estufa;

• Os animais destinados à indústria da carne são criados especialmente para o abate. Dependendo do tipo de produto a que será destinado, o animal passa por confinamento, engorda excessiva, uso de hormônios e antibióticos, ingestão de grãos geneticamente modificados etc.;

• Isso sem falar no desperdício que este ciclo gera: na produção, no transporte, nos produtos vencidos na prateleira do supermercado, nas redes de fast food (já imaginou quantos hambúrgueres são jogados no lixo?), nas churrascarias (já parou pra pensar quanto de carne vai para o lixo?).

Voltando ao Rodrigo. Se ele tivesse pego da geladeira um corte de carneiro embalado a vácuo pela grande indústria, a mesma comoção teria ocorrido? Sabemos que não.

Há certa utilidade culto-educacional em ter conhecimento sobre a caça que será comida, como ela viveu, como morreu etc. Sem falar nas questões relacionadas à saúde. Como disse uma amiga minha no Facebook: será que alguém achou que as carnes que comem vêm de animais suicidas?

A questão de respeito pelo animal e pela vida parece-me estar bem mais ligada ao cozinheiro que faz o serviço “sujo” do começo ao fim do que ao “assador de carnes da churrascaria” que pega sua matéria-prima de um caminhão cheio de animais mortos (sem acusar o “assador” de crueldade ou desrespeito – é o trabalho dele).

E, ainda, parece-me que aquela ovelhinha morta pelo Hilbert causou menos sofrimento e impacto ambiental do que os nuggets aí da geladeira (você já ouviu falar na forma como os pintinhos são mortos?).

Não estou debatendo a questão estética do programa. Cada um tem seu gosto particular. Eu, por exemplo, não topo assistir à morte de animais e tive dó até no episódio dos caranguejos. Em tempo: não uso e sou contra o abate de animais para uso em roupas e acessórios de moda. “Ahhhh, mas e aquela picanha?”. Como e adoro!

Dou minhas pequenas contribuições pregando o fim do desperdício, a preferência por produtos mais naturais (caipiras) e o consumo de carne mais saudável. Com minhas escapadelas nos churrascos regados a picanhas, alcatras, costelinhas e cervejas (cheias de trigo cujas plantações nada ambientais permeiam mundo afora). E, sempre, com dó dos animais e do nosso planeta. Nada além de uma cidadã padrão.

Aproveito para indicar um texto da colega colunista da Obvious, Eli Boscato, com algumas indicações de documentários importantes sobre o assunto. Não assisti a todos mas posso recomendar o "Muito além do peso" (principalmente para quem tem filhos) e o Ilha das Flores (beeeem antigo). Além disso, recomendo o já citado no texto "Food Inc.", concorrente no Oscar de 2010.


Bárbara Valsézia dos Santos

Por ora, jornalista especialista em Comunicação Empresarial e Conteúdo. Mas, nada além de uma alma inquieta..
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