coisas bárbaras

Coisas que penso, gosto ou apenas reparo

Bárbara Valsézia dos Santos

Por ora, jornalista especialista em Comunicação Empresarial e Conteúdo. Mas, nada além de uma alma inquieta.

ANIQUILAR O MENOR RECLAMANTE É FÁCIL, MAS NÃO RESOLVE

A morte do gorila chocou o mundo. A execução do menino de 10 anos em perseguição policial em São Paulo chocou alguns. A demissão da recepcionista chocou apenas seus próprios conhecidos. Em comum: para quem eles poderiam reclamar?


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Há poucas semanas uma tragédia causou comoção na mídia e nas redes sociais. A morte do gorila executado pelo zoológico onde estava confinado, após uma criança cair jaula adentro, chocou muitas pessoas e dividiu opiniões.

Não me convém neste texto discutir o que era certo ou errado na hora H. Fora muito discutido por aí porque o zoológico não usou um tranquilizante forte no lugar da execução. Muitos influenciadores e técnicos entrevistados pela imprensa atestaram que o tranquilizante representaria um grande risco pois, nos primeiros momentos de efeito, haveria a chance de irritar o animal, que não cairia imediatamente e poderia ainda causar graves ferimentos ou a morte da criança.

“E se fosse seu filho”? Perguntam os favoráveis à execução. “Que culpa o animal tem”? Perguntam os que são contra. Por fim, todos têm lá sua razão.

Outro fato, que surpreendentemente causou menos revolta, é a execução de um menino de 10 anos que fugia em um carro roubado. Segundo divulgado em vários canais da imprensa, o menino estava armado. O posicionamento da polícia é que o tiro fora efetuado de acordo com o procedimento legal numa operação como esta: a polícia dá um tiro em um carro onde há pessoas armadas ameaçando outras pessoas.

Poderíamos dizer em defesa dos policiais que: como eles poderiam saber quantos anos têm as pessoas dentro do carro? E, mesmo que soubessem, o que deveriam fazer para parar indivíduos que têm a pretensão de abrir fogo contra qualquer um que cruzar seus caminhos? Contra a execução, poderíamos dizer: “caramba, meu! Uma criança”! Mas, aqui também não vem ao caso a defesa ou não dos policiais.

O que ambos os casos têm a ver? Que é praxe em nossa sociedade aniquilar o menor reclamante. No primeiro caso, o animal. No segundo caso, uma criança marginalizada.

O amigo de 12 anos do menino morto disse em entrevista: (com uma voz de criança de dar dó) “estávamos indo roubar uma casa para dormir”. Estes são reclamantes tão insignificantes quanto o gorila em nossa sociedade. Afinal, que futuro teriam? Seriam bandidos: é a resposta. Resposta, infelizmente, usada levianamente por alguns para justificar posição favorável a tal aniquilação e para respirar mais tranquilo com um bandido a menos no futuro.

Trago um terceiro caso, bem menos trágico, de punição do menor reclamante. Num desses prédios corporativos de São Paulo, uma recepcionista do condomínio liberou a entrada de um funcionário recém demitido. Parece-me que ele alegou ter esquecido o crachá e ela, sem saber que não era mais funcionário, deu-lhe acesso. O dito cujo armou um escândalo na empresa. Resultado? A recepcionista foi demitida.

“Mas que culpa teve a recepcionista”? Ela teve a mesma culpa do gorila e do menino. Sua voz não teve relevância na sociedade. Para quem ela iria reclamar da medida pouco proporcional ao erro, afinal? E, dentro do raciocínio ilógico de nossa sociedade, seguimos aniquilando os menores reclamantes todos os dias, como se estivéssemos eliminando os problemas.

Tristes histórias como estas só têm utilidade em um caso: fazer com que todos os responsáveis por estes erros antecipem-se e tomem medidas preventivas inteligentes e exemplares. No caso do gorila: zoológicos com estruturas e instrumentos adequados, além de profissionais capacitados (uma boa também seria abolir os zoológicos). Para a história da recepcionista: um procedimento mais ágil de fluxo de informações da empresa para a recepção do condomínio. No caso do menino: redescobrir o Brasil.


Bárbara Valsézia dos Santos

Por ora, jornalista especialista em Comunicação Empresarial e Conteúdo. Mas, nada além de uma alma inquieta..
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