coisas de dri...

Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Inquietações Artísticas na pintura brasileira do século XIX – Parte I

Breve abordagem sobre as transformações artísticas no Brasil do século XIX, suas influências e contexto histórico. Primeira parte.


paco_imperial_1830-1.jpgJean-Baptiste Debret. Vista do Largo do Paço,1830

No final do século XVIII, no campo das artes plásticas, surgiu um movimento contrário ao Barroco e o Rococó, o Neoclassicismo ou Academicismo. Predominante nas criações dos artistas europeus, essa nova tendência estética expressava os valores da forte burguesia que estava nos domínios da sociedade européia pós Revolução Francesa.

Devido às mudanças filosóficas e sociais, ocorridas com o Iluminismo, a arte deveria tornar-se eco dos novos ideais da época: subjetivismo, liberalismo, ateísmo e democracia. O melhor seria recorrer à “equilibrada” e “democrática” Antiguidade greco-romana, onde os artistas deveriam buscar a “perfeição” das artes da Antiguidade Clássica, como fora feito pelos renascentistas italianos do século XV, tornando-as conceitos básicos para o ensino das artes nas Academias mantidas pelos governos europeus. Caracterizando-se pelo convencionalismo, sendo uma arte dirigida por ordem estética devido à mentalidade racional e científica de seu tempo, o Neoclassicismo, tem seu predomínio por volta de 1750 a 1830 e um de seus inspiradores foi Johann Joachim Winckelmann (1717-1768), o autor da obra História da Arte na Antiguidade (1764). Entusiasta da Grécia, vê na monumentalidade e na pompa do Barroco uma deformação da arte grega, cuja característica para ele é a da “nobre simplicidade e calma grandeza”.

Na França, o Neoclassicismo ganhou condição de arte oficial a partir de Napoleão Bonaparte (1769-1821) que utilizou a arquitetura e pintura desse movimento, encomendando aos pintores quadros que registrassem seus feitos guerreiros e políticos.

No Brasil, essa tendência se concretizou com a presença de D. João VI e sua Corte, porém no período colonial já havia indícios deste estilo em 1800, com pintores como Manuel Dias de Oliveira (1764- 1837).

2004-06-05-01.jpgManuel Dias de Oliveira. Retrato de Dom João VI e Dona Carlota Joaquina, 1815. Acervo Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro - RJ)

Após a vinda da Família Real para o Brasil e a instalação da Corte no Rio de Janeiro, em 1808, muitas modificações de caráter socioeconômico ocorreram nesta cidade, a fim de dar condições de sediar o Império. Dedicando o segundo decênio do século XIX à transformação da antiga colônia em reino, o Regente D. João tomou certo número de medidas que permitiram ao Brasil reduzir sua dependência de Portugal. Ordenando a abertura dos portos e a criação do Banco do Brasil, ele liberou o comercio; a fundação da Imprensa Régia possibilitou a criação dos primeiros jornais nacionais. Além disso, foram criadas algumas Instituições como a Biblioteca Real e o Museu Real, tornando o Rio de Janeiro o centro das atenções e dos acontecimentos políticos e culturais. Paralelamente, a lenta emancipação econômica amplificou um sentimento nacionalista lancinante e despertou a demanda cultural.

Em 1815, D. João decidiu, por sugestão de Antônio Araújo de Azevedo (Conde da Barca, ministro da Marinha e Domínios Ultramarinos), contratar professores franceses para promoverem o ensino artístico no Brasil e criar, no Rio de Janeiro, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, com a finalidade de estabelecer na nova sede do reino, o padrão de civilização européia.

Assim, em Março de 1816, chefiado por Joachin Lebreton , a chamada “Missão Artística Francesa” desembarcou no Rio de Janeiro com diversos artistas, artífices e técnicos. Entre os artistas estavam: Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830), Jean-Baptiste Debret (1768-1848), Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny (1776-1850), Auguste Marie Taunay (1768-1824), entre outros. Em Agosto, desse mesmo ano, oficializando o caráter da Missão, D. João publicou o decreto que ordenava a fundação da Escola, consolidando, dentro dos padrões do Neoclassicismo, o ensino superior artístico no país. Porém, a Escola não começou a funcionar, apenas valeu-se o titulo. Em Setembro de 1820, outro decreto real reorganizou a Escola de Ciências, Artes e Ofícios, criando, sem aludir ao decreto de 1816, a Academia Real de Desenho, Pintura, Escultura e Arquitetura Civil, sendo seguida de outro decreto, em Novembro de 1820, aludindo apenas a Academia de Artes, o qual determinava que as aulas entrassem em efetivo exercício. Pode-se dizer que a Missão Artística Francesa foi um marco artístico, que merece toda atenção, pois a partir da presença desses artistas surgiram às origens do sentimento nacional, o Neoclassicismo serve à ideologia de Independência.

“A mudança de estilo caracterizada no século XIX veio duplamente servir à Independência do país. O neoclassicismo indicava a vigência de uma nova organização do mundo, decorrente dos ideais democráticos da Revolução Francesa e ao mesmo tempo configurava-se como a imagem de um novo Brasil, politicamente em vias de separar-se ou já destacado da antiga Metrópole”. (BARATA, 1997, pg.409)

Somente em Novembro de 1826 instalou-se, finalmente, a Academia Imperial de Belas-Artes, tendo como quadro de professores os artistas vindos com a Missão. Porém, estes professores eram divididos em duas correntes estéticas que surgiam na França. De um lado estavam os partidários do Neoclassicismo na arquitetura e na pintura; de outro estavam os entusiastas de uma arte contrária aos rigores neoclássicos, dando indícios à sensibilidade romântica, que estava se fortalecendo na época.

“Se a criação foi demorada, muito mais tempo ainda seria necessário para a instalação e funcionamento de algumas aulas, contribuindo para isso muitas desavenças e intrigas, além da campanha sistemática empreendida contra os franceses pelo cônsul-geral Maler, agente diplomático da França no Rio de Janeiro, pelo fato de serem bonapartistas”. (VIEIRA, 1981, pg.21)

Contudo, a instituição da Academia, composta por artistas e intelectuais parisienses, deixou o Brasil em situação de igualdade em relação à arte internacional.

O desejo de uma arte nacional surgiu a partir da segunda metade do século XIX, fazendo com que o estilo acadêmico do Neoclassicismo começasse a declinar. Querendo buscar as raízes da nacionalidade, voltando ao passado histórico e enaltecendo a natureza tropical, os artistas brasileiros sentiram a necessidade de retratar suas obras com mais expressão, emoção e paixão. O equilíbrio e a simplicidade deixam de serem os objetivos do artista.

As manifestações notáveis dessa fase foram as Exposições Gerais de Belas Artes e os Prêmios de Viagem. O artista mais destacado recebia como prêmio uma viagem para a Europa, a fim de aprimorar seus conhecimentos no exterior. Um fato que merece atenção é que neste período, mesmo com a busca por uma identidade nacional, o campo das artes não admitia renovações, sendo esta voltada à Corte, todos os demais trabalhos não possuíam a mesma importância que os de ordem acadêmico-neoclassicista.

“O desenvolvimento dos cursos da Academia e a promissora oportunidade de um aperfeiçoamento no estrangeiro, provocam a curiosidade de todo país” (CAMPOFIORITO, 1983, pg.17), o que gerou uma grande afluência ao Rio de Janeiro de jovens de várias cidades.

Foi após as Exposições Gerais que se deu a relativa evolução da pintura brasileira, precedendo a eclosão de artistas como Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905), Vítor Meireles de Lima (1832-1903), Zeferino da Costa (1840-1915) e, temos ainda em destaque, José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899). Vale ressaltar que, nesta época, D. Pedro II tornou-se grande patrocinador dos artistas, e, que nunca soube distanciar-se da mentalidade elitista da Corte, sem dar atenção necessária aos traços populares, nativistas e paisagísticos. Mostrando que a pintura brasileira ainda não havia rompido totalmente com o estilo acadêmico-neoclassicista, não produzindo assim a verdadeira arte brasileira.

Independência_ou_Morte.jpgPedro Américo de Figueiredo e Melo. Independência ou Morte, 1888. Acervo Museu Paulista (São Paulo-SP)

primeira_missa_1-7 - R.pngVítor Meireles de Lima. Primeira Missa no Brasil, 1860. Acervo Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro - RJ)

2012_07_24_22_31_350.jpgJosé Ferraz de Almeida Júnior. Leitura, 1892. Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo-SP)

Somente a partir dos anos setenta do século XIX, quando chegou ao Rio de Janeiro o pintor alemão Johann Georg Grimm (1846-1887), rompeu-se o preconceito contra o gênero da paisagem na pintura brasileira, este gênero era considerado inferior e só admitido como elemento de complementação de telas ou de fundo.

jg_1883_ps01.jpgJohann Georg Grimm. Paisagem,1883. Acervo Museu Antônio Parreiras (Niterói - RJ)

Com o estilo de Grimm, a pintura acadêmica foi se tornando mais flexível e aceitou temas que não fossem de ordem histórica, heroica ou nobre. O gênero paisagístico tomou seu lugar na pintura brasileira. Sendo o país dotado de uma bela natureza, o ateliê acabou sendo substituído pela pintura ao ar livre, aberto aos fenômenos de cor, luz e de atmosfera. A representação do ser humano poderia assim, ser apresentada no contexto de seu cotidiano. O sentido de uma arte brasileira voltou à tona após a Exposição de 1879: “Porém, o início do debate sobre a constituição de uma arte brasileira só iria se instaurar em definitivo no Rio de Janeiro a partir de 1879, quando a Academia se posicionou publicamente sobre o problema montando, em paralelo à Exposição geral daquele ano, uma mostra especial intitulada“ Coleção de quadros nacionais formando a Escola Brasileira (na Pinacoteca)”. Ali a direção da instituição reunia obras que, em seu entender, representavam a “escola brasileira”: produções artísticas realizadas por mestres e/ou alunos da Academia, em grande parte versando sobre temas nacionais” (ESTRADA, 1995, pg.18) Assim, novamente, muitos começaram a refletir sobre a arte brasileira e suas possíveis especificidades.

As manifestações artísticas se popularizaram e alcançaram grande prestígio da sociedade. A partir dai, as pessoas começaram a frequentar os espetáculos teatrais musicais e as exposições.

Referências bibliográficas:

BARATA, Mário. “As artes plásticas de 1808 a 1889”. In: IGLÉSIAS, Francisco [et al.] O Brasil monárquico: reações e transações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997

CAMPOFIORITO, Quirino. História da Arte Brasileira no Século XIX – 4. Rio de Janeiro: Edições Pinakotheke, 1983

ESTRADA, Luiz Gonzaga Duque. A Arte Brasileira. Campinas: Mercado das Letras,1995.

VIEIRA, João Guimarães. “Taunay, Debret e Grandjean de Montigny”. In: Aspectos da Arte Brasileira. Rio de Janeiro:Funarte, 1981


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Adriana Caló