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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Inquietações Artísticas na pintura brasileira do século XIX – Parte II

Breve abordagem sobre as transformações artísticas no Brasil do século XIX, suas influências e contexto histórico. Segunda parte.


Confira a primeira parte aqui.

000332.jpgGeorgina de Albuquerque. Canto do Rio,1920. Acervo Museu Antônio Parreiras (Niterói - RJ)

No final do século XIX, o plano político do Brasil foi marcado pela força das ideias republicanas e abolicionistas, que resultaram no fim da escravidão (1888) e da Monarquia (1889). A filosofia positivista do filósofo francês Auguste Comte (1798-1857) chegou ao país e ocupou grande lugar na mentalidade da época, servindo como fundamento teórico para a realidade.

Essas transformações políticas trouxeram modificações estéticas e culturais para o país. “Culturalmente, o período se caracteriza por um clima ostensivamente infenso a qualquer resquício do velho protecionismo dirigista da corte” (CAMPOFIORITO, 1983, pg.17) , dando espaço aos primeiros sinais do Modernismo. No que diz respeito às artes plásticas, em particular à pintura, percebe-se as modificações sensíveis do ensino, ao incremento novas possibilidades artísticas em âmbito nacional, e, principalmente ao surgimento de outros centros de formação artística.

O ensino artístico propôs novas reformas e reanimaram a antiga Academia, agora chamada de Escola Nacional de Belas Artes. Percebe-se então que o rumo artístico brasileiro sofreu resultados positivos, no que diz respeito às condições liberais incentivadas nos demais centros distantes e principalmente pela abolição da doutrina metódica do academicismo. Deixando autorizados os cursos livres, onde qualquer opinião e método poderiam ser adotados e ministrados por qualquer pessoa capaz de atingir os conhecimentos semelhantes aos que a Escola Nacional de Belas Artes oferecia, os artistas buscavam meios de transformar a arte já existente até então, como não era “possível evitar o estabelecimento de novas formas de academização, era salutar a intenção de quebrar o prosseguimento da disciplina que tão fortemente identificava as artes no Império” (CAMPOFIORITO, 1983, pg.19).

Porém, essas modificações geraram duas correntes diferentes em defesa do ensino artístico no país. De um lado os modernos, formado por um grupo de pessoas que se rebelaram contra as normas do ensino, chegando a defender a extinção da Academia, exigindo uma reforma ampla da mesma, os membros dessa posição que mais se destacaram eram: Rafael Frederico (1865-1934) e Eliseu D’Angelo Visconti (1866-1944), apoiados por Rodolfo Bernardelli (1852-1931), Henrique Bernardelli (1858-1936), Rodolfo Amoedo (1857-1941) e João Zeferino da Costa (1840-1915). Do outro estavam os positivistas, Décio Rodrigues Vilares (1851-1931) e Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo (1854-1916), que não estavam contra o ensino acadêmico, queriam propagá-lo por outros meios, pondo à alcance dos que não eram ricos nem protegidos.

Por conta dessa discussão, os modernos deixaram a Academia e montaram um ateliê livre em um barraco erguido no largo São Francisco, depois de dois meses se transferiram para a rua do Ouvidor, tendo como professores Amoedo, Zeferino da Costa e os irmãos Bernardelli. Este fato resultou na vitória dos modernos, que conseguiram, em 8 de novembro de 1890, a reforma, assinada pelo então ministro do Interior Benjamin Constant, criando a Escola Nacional de Belas-Artes. Dois mestres, Henrique Bernadelli e Rodolfo Amoedo, que ganharam a confiança do governo, devido sua simpatia política e contribuição aos movimentos estudantis de arte, juntamente com Zeferino da Costa, que também aparentava ser republicano, serão os mentores do ensino artístico e orientadores das novas gerações de artistas, por mais ou menos três décadas.

Vejamos agora as principais obras destes mentores que apontam as modificações na corrente artística brasileira:

zc_sjbatista.jpgJoão Zeferino da Costa, São João Batista, 1873. Acervo Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro - RJ)

129_1145-repouso.jpgRodolfo Amoedo. Estudo da Mulher,1884. Acervo Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro - RJ)

maternidade-b.jpgHenrique Bernardelli. Maternidade,1885. Acervo Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro - RJ)

Muitos pintores brasileiros, formados pelos ensinamentos da Academia, não se adaptaram ao novo ambiente artístico. A exemplo disso temos: José Ferraz de Almeida Júnior, já citado na primeira parte, que ao retornar de Paris, dirigiu-se para o interior paulista e passou a desenvolver suas obras inspiradas na vida local.

426px-Caipira_picando_fumo.jpgJosé Ferraz de Almeida Júnior. Caipira picando fumo,1893. Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo-SP)

As Exposições Gerais de Belas Artes foram substituídas pelo Salão Nacional de Belas Artes e após dois anos foi então restabelecido o Prêmio de Viagem, que agora possibilitava a permanência dos artistas na Europa por dois anos. Muitos dos artistas brasileiros foram estudar na França, trazendo muitas novidades no campo da pintura, pois entraram em contato direto com os movimentos Impressionista e Pontilhista.

Não se pode afirmar a data correta em relação ao movimento Impressionista, o que se sabe é que logo após a Guerra Franco-Prussiana (1870), um grupo de artistas, que haviam sido recusados nos salões moldados pela oligarquia acadêmica, apresentaram em suas telas uma mensagem otimista e vibrante de luminosidade. Deram-se o título de Société Anonyme des Artistes Peintres, Sculpteus et Graveurs e organizaram sua própria exposição. Édouard Manet (1832-1883), na realidade é o percussor desta tendência. Os artistas deste grupo, que era composto por: Claude Monet (1840-1926), August Renoir (1841-1919), Alfred Sisley (1839-1899), Edgar Degas (1834-1917) e Camile Pissarro (1830-1903), não pretendiam ser reformadores, simplesmente queriam subverter o ideal de beleza característica da estética acadêmica. Os impressionistas eliminaram os menores detalhes e sugeriram formas menos definidas. Preferiam cores primárias como o vermelho, amarelo e o azul e complementares - verde, púrpura e laranja. Para realçar a qualidade de cada uma das cores, usavam a justaposição das cores primarias, que quando vistas a uma certa distância e contrastavam com uma cor complementar.

O Impressionismo foi o marco da arte moderna porque caracterizou o início do caminho rumo à abstração. Embora mantenha temas do realismo, não se propõe a fazer denúncia social. Retrata paisagens urbanas e suburbanas, como o naturalismo. A diferença está na abordagem estética: os impressionistas parecem apreender o instante em que a ação está acontecendo, criando novas maneiras de captar a luz e as cores.

Em suma, o Impressionismo era caracterizado pela luz e movimento das pinceladas. Esse estilo não se interessava por temáticas nobres ou retratos da realidade, mas sim em ver o quadro como obra em si mesmo.

“O Impressionismo é essencialmente pictórico. Com o Impressionismo o que resgata é o contato com a natureza (cada vez mais necessário num mundo tecnológico, poluído fabril, urbano), é o reencontro com os elementos naturais, sobretudo os mais instáveis – ar e água – e com os valores da simplicidade, com a alegria de viver”.(MORAIS, 1981, pg.91)

O primeiro concurso vencido foi por Eliseu D’Angelo Visconti em 1892, no ano seguinte viaja à Paris. Ao voltar ao Rio de Janeiro, em 1901, realizou uma exposição individual na Escola Nacional de Belas-Artes, suas obras extensas e variadas causou grande impacto nas pessoas, pois durante o período em que esteve na França, entrou em contato com a obra dos impressionistas. A influência que recebeu foi tão marcante que ele é considerado, pela crítica, como um inovador desta tendência na pintura brasileira. Suas obras abriram o caminho definitivo, da modernidade à arte brasileira.

1t0rtpvcb8qot50xi0hm4b5re.jpgEliseu D’Angelo Visconti. Maternidade, 1906. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo - SP)

Neste mesmo período, num ambiente dominado por homens, surgiu uma mulher que ultrapassou as barreias de seu tempo, pois nesta época existia o conceito de que as mulheres consideravam as atividades artísticas como mera diversão. Trata-se de Georgina de Albuquerque, ver artigo Resgate de Memória: Quem foi Georgina de Albuquerque, seguidora dos moldes Impressionistas, foi a primeira mulher a se destacar no campo das artes plásticas brasileira.

Concluo assim, estes dois artigos sucintos sobre as Inquietações artísticas na pintura brasileira do século XIX. Porém, vale ressaltar que as discussões sobre o modernismo nas artes brasileiras encontram-se nos primórdios do século XX, onde Eliseu Visconti, Carlos Oswald (1882-1971), Teodoro Braga (1872-1953) e Belmiro de Almeida (1858-1935), uniram arte à indústria (cerâmica, decoração, mobiliário e artes gráficas), contribuindo assim para a explosão da Modernidade. Em contrapartida, temos o modernismo paulista que é bem diferente do carioca.

Referências Bibliográficas:

CAMPOFIORITO, Quirino. História da Arte Brasileira no Século XIX – 5. Rio de Janeiro: Edições Pinakotheke, 1983

MORAIS, Frederico. Eliseu Visconti e a Crítica de Arte no Brasil. In: Aspectos da Arte Brasileira. Rio de Janeiro: Funarte, 1981


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
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