coisas de dri...

Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Ouvindo o silêncio: uma análise sobre o silêncio emocional através do filme “E seu nome é Jonas”

Precisamos do silêncio, pois é neste momento que buscamos nos encontrar, direcionar. Mas nem todos possuem os mecanismos de defesa que nosso interior necessita e então o sujeito deixa-se levar pelas emoções retraídas, pelas dores sucumbidas e, geralmente, começa a cavar um buraco interior que do dia para noite pode se transformar em um abismo.


and-your-name-is-jonah1.jpg

“A coincidência da mudança das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como práxis revolucionária.” (MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998, pag. 100)

“E seu nome é Jonas” conta a história de um garoto que após um diagnóstico incorreto, deficiência intelectual, ficou internado por três anos em uma escola específica para deficientes mentais, quando na verdade o mesmo era surdo.

Após a “reparação” do erro médico, seus pais ouvintes o levam para casa e assim o filme discorre sobre a adaptação às novidades tanto dos pais, sobre a condição de Jonas, como do garoto. Um processo complexo e perturbado onde fica claro os sentimentos de culpa, medo e remorso. A insatisfação por julgar que a criança não é como planejada e a falta de conhecimento sobre surdez são as peças centrais para encaixar o filme como um retrato da dura realidade vivida pelos surdos. Além de suas limitações percebe-se que a cada dia uma nova barreira deve ser quebrada na sociedade onde preconceitos, principalmente entre os familiares, olhares de curiosidade e repúdio são constantes.

Quero enfatizar que a linguagem é o primeiro passo do indivíduo para se socializar. Esta é a responsável por fazer com que criança conheça as regras de convívio na sociedade a partir de sua instituição familiar.

No entanto, não irei focar no preconceito, nem tampouco na questão do diagnostico incorreto e o agravamento da condição de Jonas devido a isso, mas sim quero trazer outra reflexão que o filme proporciona – o silêncio emocional.

No filme Jonas não sabia como se comunicar, não sabia como pensar e agir convencionalmente, pois além da surdez permaneceu muito tempo internado com os deficientes intelectuais. Na cena da refeição em que o mesmo, sem saber como se expressar, descarta as cenouras retrata o isolamento e a tristeza por ser incompreendido. Os sentimentos afetivos eram novos para ele. Quando perdeu seu melhor amigo, seu bisavô, não compreendeu o que havia ocorrido. Simplesmente observou e guardou em si uma angústia inexprimível. Percebemos que depois deste ocorrido, o garoto sai pela primeira vez de casa, sozinho arrisca enfrentar inúmeras dificuldades para ver se o reencontra. A frustração o deixa transtornado. A partir daí o menino enxerga-se em um mundo triste, não entende o que está acontecendo e não sabe como expressar suas angústias, afinal ninguém o compreende.

Quantas vezes você já passou por momento de desespero no qual não sabia qual atitude tomar, pois uma situação nova surgiu e modificou sua vida grandemente?

Normalmente o ser humano é condicionado a aceitar com passividade pequenas modificações, seja uma mudança de emprego, uma crise financeira, uma discussão familiar, entre outras. Porém enfrentar uma perda não é fácil. Quando algo sai de sua vida, seja pela morte de um ente querido ou enfrentar um desemprego quando mais necessita, o indivíduo sente-se como um viciado em abstinência forçada. Porém, na maioria das vezes o mesmo retrai esses sentimentos e mantém a aparência da melhor forma possível, por àqueles que amam.

Precisamos do silêncio, pois é neste momento que buscamos nos encontrar, direcionar. Mas nem todos possuem os mecanismos de defesa que nosso interior necessita e então o sujeito deixa-se levar pelas emoções retraídas, pelas dores sucumbidas e, geralmente, começa a cavar um buraco interior que do dia para noite pode se tornar um abismo.

Trazendo a reflexão para os dias atuais, não é por acaso que crescem os números de pessoas com transtornos emocionais onde os mesmos geram doenças físicas.

O grande mal do indivíduo na atualidade é acreditar neste vazio interior e não enxergar sentidos em sua vida, os múltiplos caminhos que este abismo pode abrir. Ele não sabe o que almeja, o que deseja, mas constantemente reclama de tudo. Ser pessimista não é o problema, afinal é preciso se autoconhecer, pensar o mundo por todos os vieses, pois a realidade não é doce como a maioria gostaria. É necessário sonhar, sim! Mas é preciso compreender que quando acordamos nem tudo se realiza e aceitar as privações. Assim esse pessimismo muitas vezes é útil e direciona às modificações, mas aceitá-lo e conformar-se à ele não é saudável.

Quando o sujeito resigna-se e não busca alternativas para novas oportunidades enquanto ser existente, torna-se como um hamster na gaiola que segue diariamente a mesma rotina. Não pensa em nada enquanto gira a roda, faz porque tem que fazer. Observa com entusiasmo a pomba no fio de eletricidade, mas como não tem asas se conforma em não voar, esquecendo-se que tem ligeiras patas para correr por onde desejar.

Na sociedade o indivíduo que se sujeita ao pessimismo exacerbado enxerga somente no outro a forma correta e feliz de existência. Jonas gostaria de compreender, como o irmão, as palavras que estavam nos quadrinhos do Homem Aranha, mas ele não podia. Assim, como ele desconhecia o herói, seu inconsciente o transformou em um monstro e a figura desse personagem lhe causava medo.

A mãe de Jonas não aceitava com conformismo a situação que seu filho vivia, mas também não possuía conhecimentos sobre a surdez, imaginava que não seria possível viver, desenvolver e crescer daquele modo, até que um dia viu um casal de surdos mudos conversando. Assim, percebeu que a escola para oralização, em que Jonas estava, não dava o retorno esperado e optou por outro meio de aprendizado, a linguagem dos sinais.

A partir disso a vida e visão de mundo de Jonas modifica-se totalmente. Ele sente-se feliz por entender o que significam os objetos, as sensações e constrói sua consciência sobre as perdas. O desconhecido sempre causará aflições, após enxergar a possibilidade de mudança, a mãe do garoto traçou objetivos e buscou o sucesso. E assim o indivíduo deve agir mediante os receios, encarar e tentar modificar.

12348256_872952939467533_958957642_n.jpg

Espero que essa reflexão sirva para que escutem seus gritos interiores, o silêncio emocional não se resolverá com trocas de sinais. É preciso ação! Os desejos devem ser constantes, metas devem ser construídas e a busca pela realização contínua. O ser humano precisa aprender a canalizar suas emoções e expor de alguma forma. Os caminhos da arte são bem indicados para tal liberdade de expressão. “Observador, flâneur, filósofo, chamem-no como quiserem, mas para caracterizar esse artista, certamente seremos levados a agraciá-lo como um epíteto que não poderíamos aplicar ao pintor das coisas eternas, ou pelo menos mais duradouras, coisas heroicas ou religiosas. Às vezes ele é um poeta; mais frequentemente aproxima-se do romancista ou do moralista; é o pintor do circunstancial e de que tudo o que este sugere de eterno. Todos os países, para seu prazer e glória, possuíram alguns desses homens.” (BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, pag. 13)

Portanto, assim como um pintor da vida moderna, citado acima por Baudelaire, faz-se necessário o sujeito utilizar suas experiências, reaprender a viver a vida com paixão e liberdade, calando-se quando necessário entendimento e expondo os seus sentimentos. Ficha técnica: Título: “E seu nome é Jonas” (“And your name is Jonah”). País: Estados Unidos. Ano: 1979. Diretor: Richard Michaels.


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Adriana Caló
Site Meter