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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Reflexões sobre o filme: “Minha vida sem mim”

Dificilmente saberemos a hora de nossa morte e de fato é algo impróprio para se pensar. Devemos viver o presente, crescer com nossas experiências e projetar constantemente o futuro para novas odisseias.
Se soubesses que a morte está próxima quais as marcas que gostarias de deixar na memória dos que ainda seguirão?


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Filme: My Life Without Me, 2003

País: Canadá/Espanha

Direção e roteiro: Isabel Coixet

“A apresentação cinematográfica da realidade possui um significado incomparavelmente maior para o homem atual, pois fornece o aspecto livre de aparelho da realidade, que ele tem o direito de exigir da obra de arte, baseada justamente na penetração mais intensa da realidade com o aparato.” (BENJAMIN, 2012, pg.89)

A vida é feita de escolhas, quem dera ter o prenúncio de nossa partida...

O filme “Minha vida sem mim” relata o drama de Ann (Sarah Polley) , uma jovem com 23 anos, mãe de duas meninas e casada com Don (Scott Speedman), que devido à antecipação de sua maturidade, largou os estudos para se dedicar ao trabalho e sustentar sua família. Moram em um trailer no quintal da casa de sua mãe. Segue a rotina de sua vida normalmente até que um dia sentiu-se mal e foi ao médico. A partir daí o filme segura em seu enredo, Ann descobre que tem câncer no estômago e o mesmo já está em fase terminal, devido seu metabolismo acelerado. Ao descobrir que lhe resta pouco tempo de vida, não diz nada aos seus familiares e faz uma lista com desejos e sonhos que almeja realizar antes de partir, mas em todo tempo imagina como será a vida dos seus sem sua presença.

A morte é o lado mais obscuro de nossa existência, é a palavra a qual muitos tentam desmitificar. São tantas questões: O que virá depois? Como será que se dará?

Apesar de dolorido, acredito que muitos gostariam de saber quando este dia chegaria, para fazer o mesmo de Ann. Retirar os desejos da cripta e trazer à luz da realidade novas oportunidades de enfrentar a partida. Ela resolveu quebrar a ampulheta e não vira-la novamente!

E por que foi preciso chegar a esse ponto para Ann descobrir que deveria aproveitar melhor a vida? O grande vilão das novas conquistas e descobertas sempre será o medo. E este é o que empurra o sujeito para seu abrigo, sua zona de conforto. Pequenas mudanças como um novo corte de cabelo e unhas postiças não estão avulsas na lista de Ann, estes itens representam que o temor ao diferente não precisa ser algo distante, difícil de conquistar. Às vezes uma pequena situação, como mudar a cor de um esmalte, gera receio. Receio do que os outros pensarão. Poderia ficar o dia todo escrevendo sobre o medo, pois pior do que o medo de arriscar algo novo é o medo de enfrentar a realidade como diz Lenine “Medo, que dá medo do medo que dá”.

Entre os desejos da protagonista alguns itens são tão lógicos que no primeiro julgamento alguns a condena, “como assim dizer às filhas que as ama! Que mãe não diz isso às filhas!”, “Não dizer que ama a quem se ama é falta de amor!”, mas se pensarmos bem realmente não é todo dia, e momento, que dizemos aos que amamos a intensidade deste sentimento.

Podemos perceber a maior prova deste amor, quando dos dez itens da lista três são ligados às meninas, os demais são desejos isolados.

Preocupado com os afazeres, com o trabalho que ocupa 50% (ou até mais) do dia, com as contas que virão, com a adaptação constante à sociedade capitalista e sugadora de energias e tempo em que vive, o indivíduo não presta a atenção nos pequenos detalhes, nos simples prazeres. Karl Marx já previa que no futuro o capitalismo não só exploraria o proletariado, mas também criaria condições para a eliminação do mesmo.

Viajar, passear, desenhar, pintar, plantar, cantar, dançar, arriscar entre outros verbos além da compreensão para fazer jus é preciso ação.

Ann e seu marido Don amavam-se mutuamente, mas entre seus desejos gostaria que alguém se apaixonasse por ela. Outro julgamento em vão “Por que? Se ela já é casada!”. O significado da paixão para Ann é que ela gostaria de, mesmo sabendo do pouco tempo que lhe restava, sentir-se viva. Já dizia Carlos Drummond de Andrade “Além do amor, não há nada, amar é o sumo da vida.”

O amor é outro sentimento que faltariam palavras para definir, afinal ele não se define, se sente. Existem tantas formas de amar que se prender a um conceito só causa desilusões. E o amor não é sofrimento. É luz, vida, alento. Ideias retrógradas conduz à enxergar o amor como uma prisão, onde deve ser dado somente aos familiares. Mas o amor é liberdade! Deve ser compartilhado e pode surgir a qualquer momento. Inusitado, demorado ou veloz, mas deve existir dentro de nós!

Mais uma prova do amor de Ann é querer encontrar para Don uma nova mulher, a qual as filhas se dariam bem. Há quem pense que prova de amor é, na fase terminal, pedir para que o parceiro, ou parceira, não se case novamente e que viva em luto eterno. Não julgo quem pensa assim, afinal é fato que em alguns países existe essa cultura, mas no que tange à alma de quem fica é um abismo que se amplifica.

Um ponto característico do filme é que no momento em que decide fazer a lista, Ann percebe que perdeu a prática de pensar, pois acostumada com o estilo de vida que levava e com todas as condições que passava, não tinha tempo para tal. Quando o sujeito perde as inquietações, as utopias, quando se entrega aos marasmos, a mente fica estagnada e esta pode ser uma das razões de seu conformismo e ao enxergar o novo, o diferente, verá sempre como algo impróprio.

“O homem que lê, que pensa, que espera, que se dedica à flânerie, pertence, do mesmo modo que o fumador de ópio, o sonhador e o ébrio, à galeria dos iluminados. E são iluminados mais profanos.” (BENJAMIN, 1987, pg,33)

Até mesmo a questão das drogas lícitas, como cigarros e bebidas, surge como algo profano e necessário nesta lista.

Os demais personagens deste filme também merecem uma análise, porém mais objetiva cada qual sobrevive arrastando suas frustrações e desilusões.

Um filme profundo que vai além das pieguices dos que retratam a chegada da morte. Ele faz o espectador refletir sobre a vida, sobre como está usufruindo a mesma enquanto a possui. Mostrando o quão importante é gostar de olhar para lua, passar horas contemplando as ondas ou o pôr do sol.

Dificilmente saberemos a hora de nossa morte e de fato é algo impróprio para se pensar. Devemos viver o presente, crescer com nossas experiências e projetar constantemente o futuro para novas odisseias. Gostaria de deixar uma última reflexão, se soubesses que a morte está próxima quais as marcas que gostarias de deixar na memória dos que ainda seguirão?

Lembrando sempre que a semente que foi plantada ontem, germinará e brotará no amanhã.

Referências Bibliográficas: BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica. Porto Alegre: Zouk, 2012. BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas, Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
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