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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Resgate de Memória: Quem foi Georgina de Albuquerque?

Personagem esquecida no panorama das artes plásticas brasileira, ao passo que pioneira neste mesmo campo, Georgina de Albuquerque com seu estilo impressionista rompeu com os ideais neoclássicos e revelou em suas figuras, paisagens e naturezas-mortas, sua preocupação constante com a cor e os efeitos de transparência e luz, dando os primeiros passos da pintura modernista no Brasil.


Retrato de Georgina.jpgLucílio de Albuquerque,Retrato de Georgina de Albuquerque, 1920. Acervo Museu do Ingá, MHAERJ, Niterói.

A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens” (Jacques Le Goff)

As Artes no Brasil sofreram grandes transformações no século XIX, período esse marcado pela transferência da família real portuguesa. Dom João VI ao instalar-se no Brasil iniciou uma série de reformas que contribuíram para a criação das primeiras fábricas e fundação de algumas instituições como a Biblioteca Real, o Banco do Brasil, o Museu Real e a Imprensa Régia. Essas transformações, influentes da cultura europeia, se fazem marcantes com a contratação de uma missão de artistas franceses responsáveis pela pintura dos acontecimentos da Corte e de promoverem o ensino artístico no país, com moldes nos ideais clássicos.

A Missão Artística Francesa chegou carregada de doutrinas estéticas da recente revolução burguesa, quebrando com a tradição colonial de raízes religiosas e, por consequência, com o estilo Barroco, dando lugar a uma pintura mais nacional, histórica, servindo hoje como documentos daquela época. Em Agosto de 1816, oficializando a Missão Artística, o Regente publica o decreto que ordena a fundação da Academia Real de Ciências, Artes e Ofícios no Rio de Janeiro, passando posteriormente a se chamar Escola Nacional de Belas Artes. A partir daí ocorre uma grande evolução na pintura oitocentista do país, surgindo grandes nomes como: José Ferraz de Almeida Junior (1850-1899), Vitor Meirelles (1832- 1903), Pedro Américo (1842-1905), entre outros.

A participação das mulheres no campo das artes plásticas, mais precisamente sob os ensinamentos da Escola Nacional de Belas Artes, demorou a surgir oficialmente, pois continuaram, por algum tempo, com a formação em ateliês particulares de professores que eram vinculados à academia ou partiam para Paris, a fim de concluir seus estudos na Académie Julien.

Georgina de Moura Andrade nasceu no ano de 1885 em Taubaté, cidade seiscentista do interior paulista localizada no Vale do Paraíba, núcleo do desenvolvimento da região e parada obrigatória, pela linha férrea, para quem viajava entre São Paulo e Rio de Janeiro. Temos a região como núcleo dinâmico da economia agrário-exportadora, enclave nos termos da divisão internacional do trabalho, ou seja, exportação de produtos primários e importação de manufaturados. Neste local a economia cafeeira prosperou e, a partir de meados do século rumou para o oeste paulista.

Em fins do século XIX, o pintor italiano Rosalvino Santoro (1858-?), radicado em São Paulo e professor do Liceu de Artes e Ofícios, instalou-se em Taubaté. Nos meses em que permaneceu na cidade, o pintor retratou uma série de paisagens e deu aulas particulares de pintura, uma de suas alunas foi Georgina, que ainda menina, já despertava seu interesse pelas artes plásticas. Como a mesma declarou: “Era ainda uma creança quando surgiu por alli, procurando no seio carinhoso da terra moça refugio a achaques que lhe combaliam a saude, um pintor italiano, Rosalvino Santoro. Guardo impressão amavel desse primeiro desbravador da minha tendencia pictorica”. (COSTA, Angyone. A Inquietação das abelhas. Rio de Janeiro: Pimenta e Mello & Cia, 1927 p-91)

Em uma viagem a São Paulo Georgina teve a oportunidade de visitar uma exposição de Antonio Parreiras (1860-1937), na qual aflorou o desejo de seguir a mesma profissão, fazendo com que ela tomasse a decisão de ir para o Rio de Janeiro. Assim em 1904, com dezenove anos, ingressou na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA) do Rio de Janeiro, praticamente no início do movimento renovador, que, sob a direção de Rodolfo Bernardelli, permitiu a introdução de novos padrões estéticos, dando maior liberdade de criação dos alunos. Na Escola Nacional de Belas Artes, Georgina teve seu caminho guiado por grandes mestres, foi aluna de Henrique Bernardelli, porém teve sua ruptura nos estudos ao conhecer um veterano estudante, Lucílio de Albuquerque, com quem iniciou namoro e casou-se após um ano, em março de 1906, mudando seu nome para Georgina de Albuquerque.

Esse relacionamento não ocasionou prejuízo algum aos estudos desta artista, pelo contrário, no mesmo ano de seu casamento, Lucílio, que estava no último ano do curso, ao expor no Salão Nacional de Belas Artes seu quadro Anchieta e Poema da Virgem, ganhou o Prêmio de Viagem à Europa, com estadia por dois anos. Georgina trancou sua matrícula e acompanhou o marido, ambos permaneceram em Paris não por dois, mas por cinco anos, estudaram na École des Beaux-Arts, frequentando as aulas de Paul Gervais e depois na Académie Julien com Henry Royer. Essa passagem por Paris resultou numa ampla formação em técnicas diversas, dentre elas está o aprimoramento na representação do modelo vivo.

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Em 1911, o casal volta ao Brasil já formados artisticamente e prontos para o mercado de trabalho.

Figuras, paisagens e retratos fazem parte da personalidade de Georgina de Albuquerque, pois a riqueza de luminosidade, auxiliados pelo acerto das cores complementares, definiu-a como uma pintora impressionista, voltada para o espetáculo do ar livre.

Até mesmo as cenas de interior são coloridas por efeitos de raios solares, como por exemplo, Vaso de Cristal:

Vaso de cristal.jpgGeorgina de Albuquerque. Vaso de Cristal, s.d

Em Dia de Verão, uma jovem afastada e a leve cortina da varanda ensolarada, proporciona um admirável espetáculo de luminosidade, deixando claro o despojamento do desenho com pinceladas soltas, enriquecidas pela transparência e feminilidade.

49593bf7b889d5b18fb036cb0c5bf740.jpgGeorgina de Albuquerque. Dia de Verão, 1926. Acervo Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro - RJ)

Por um longo tempo a pintura de cunho histórico foi concebida como o mais importante gênero e era voltada somente à dedicação de artistas do sexo masculino, porém este fato é revertido em 1922, que por ocasião das comemorações do centenário da Independência, o Governo encomendou quadros alusivos a este acontecimento, e a Georgina de Albuquerque coube desenvolver um quadro intitulado Sessão do Conselho de Estado que decidiu a Independência. Este seu trabalho, muito embora apresente características impressionistas, prende-se ao formalismo rigoroso dos temas históricos que caracterizavam a produção acadêmica nacional.

georgina4.jpgGeorgina de Albuquerque. Sessão do Conselho de Estado que decidiu a Independência , 1922. Acervo Museu Histórico Nacional (Rio de Janeiro - RJ)

Diferentemente das obras dos pintores históricos brasileiros, Georgina em sua tela, no lugar de abordar um evento histórico triunfal, como cenas de batalhas, apresentou uma cena muito importante tendo como a figura heróica uma mulher. A personagem central destacada é a Princesa Leopoldina, em meio a uma reunião de Conselho de Estado, presidida por José Bonifácio, discutindo a necessidade do Brasil tornar-se independente de Portugal.

A partir de 1930, ocorreu uma modificação em suas técnicas, sua visão sugeriu novos cuidados em suas obras. O colorido se desfez, as transparências luminosas tornaram-se mais sóbrias e opacas, correlacionando, de certa forma, com o pós-impressionismo.

Em fins da década de vinte, a artista passou a integrar o corpo docente da ENBA, primeiro como livre-docente, depois catedrática-interina e, finalmente em 1939, ocupando como titular, a cátedra de Desenho.

Por ocasião da morte de Lucílio, Georgina organizou em sua casa, em 1943, e dedicou em memória do marido, o Museu Lucílio de Albuquerque, ao qual incorporou todo acervo familiar, cujo foi adquirido pelo governo do antigo Estado da Guanabara, figurando atualmente em museus do Rio de Janeiro.

No seu ateliê em Niterói manteve sempre o ensino da pintura, e na residência em Laranjeiras, em 1945, iniciou cursos infantis de desenho e pintura. No ano de 1952 pela primeira vez na história, com honras e inegável mérito, uma mulher, Georgina, assumiu o cargo de Diretoria da ENBA.

Algumas obras desta artista:

1441.jpgGeorgina de Albuquerque. No Cafezal, s.d. Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo-SP)

5050.jpgGeorgina de Albuquerque.Lição de Piano, 1928. Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo (São Paulo-SP)

Lady, Georgina de Albuquerque - 1906, Pinacoteca do Estado de São Paulo.jpg Georgina de Albuquerque. Dama, 1906. Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo

Georgina de Albuquerque faleceu no dia 29 de Agosto de 1962, no Rio de Janeiro, tendo obtido muito carinho e respeito no meio artístico. Suas obras, muitas foram leiloadas, estão espalhadas pelos museus do Rio de Janeiro e na Pinacoteca do Estado de São Paulo

É devido ressaltar a importância desta artista no panorama pictórico brasileiro, pois sua história e carreira são magníficas e não podem ser deixadas para trás, esquecidas pelo tempo.


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
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