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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Cientistas Viajantes no Brasil do século XIX

Quem foi Karl Friedrich Philipp von Martius?


martius2.jpg Retrato de Von Martius por Leo Schöninger

Em 1808 a família Real Portuguesa desembarca no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, e a partir daí ocorre uma reviravolta nas relações entre a Colônia e a Metrópole. Muitas transformações de caráter socioeconômico ocorreram nesta cidade, a fim de dar condições de sediar o Império, bem como modificações culturais marcando ainda mais a feição de reino, onde verificamos que a Metrópole virou Colônia e a Colônia virou Metrópole.

Como já dito no artigo a Missão Austríaca: Influências e Descobertas,o Novo Mundo era o alvo de curiosidade e despertava o interesse de artistas e pesquisadores europeus do século XIX. Nesta expedição vieram cientistas, artistas e estudiosos de diversas áreas e estes foram responsáveis por grandes e valiosos documentos sobre o século XIX, bem como fontes de estudos históricos e científicos até os dias atuais.

Vejamos agora um dos principais representantes desta Missão: Martius.

Karl Friedrich Philipp von Martius nasceu em 17 de abril de 1794, na cidade de Erlangen, região da Baviera, na Alemanha. Filho de Ernst Wilhelm Martius, farmacêutico e professor honorário da Friedrich Alexander Universität.

Em sua juventude Martius já manifestava sua preferência aos estudos clássicos. Segundo seus biógrafos, Martius lia e estudava profundamente os textos das Culturas da Antiguidade Clássica, tendo aprendido e praticado o grego e o latim, enquanto se interessava, sobretudo, por História Natural.

Em 1810 iniciou o curso de medicina na Universidade de Erlangen, onde teve contanto com disciplinas do campo de botânica. Graduou-se em 1814 e logo começou atuar como pesquisador assistente do botânico Franz von Paula Schranck, na Academia Real de Ciências de Munique. Neste período, inicia uma série de pesquisas que lhe rende as primeiras publicações acadêmicas sobre o tema da botânica.

No ano de 1817, seguiu para o Brasil como integrante da comitiva da Arquiduquesa austríaca Leopoldina.

Ao chegar ao Brasil em 15 de julho de 1817, juntamente com Johann Christof Mikan (botânico e entomólogo), Thomas Ender (pintor), Johann Baptist von Spix (zoólogo), começou suas primeiras observações na cidade do Rio de Janeiro. Após todos os outros navios chegarem, os expedicionários reuniram-se e decidiram por fazerem viagens isoladas, cada qual com sua preferência.

Martius iniciou a viagem pelo Brasil, com Spix e Ender, partindo do Rio de Janeiro, em fins de 1817, rumo à cidade de São Paulo. Após, Ender retornou ao Rio de Janeiro e Spix e Martius foram explorar o interior de São Paulo em direção à província das Minas Gerais. E seguiram roteiros diversos atravessando Goiás, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Amazonas e Pará. Ao chegar a Belém, terminaram a expedição e retornaram à Europa em meados de 1820.

Durante quase quatro anos exploraram grande parte do Brasil. A pesquisa de Martius na Botânica e de Spix na Zoologia são elementos fundamentais, até hoje, para os estudos nessas áreas.

Os relatos desses viajantes, com suas minuciosas descrições, também se transformaram em uma documentação importante para o conhecimento histórico com os detalhes da vida cotidiana de diversas partes do Brasil.

Um dos resultados dessa expedição foi o livro Reise in Brasilien (Viagem pelo Brasil (1817-1821)), publicado em três volumes, entre 1823 e 1831. Spix faleceu neste intervalo , em 13 de maio de 1826.

Ainda neste livro há um anexo musical, Brasilianische Volkslieder und indianische Melodien (Cantigas Populares Brasileiras e Melodias Indígenas), que se tornou referência para a história da música brasileira. "O arranjo, muito simples, pode ter sido executado pelo próprio Martius, hábil músico e excelente violinista amador." (KIEFFER,1996:138) Partituras em PDF.

Martius ocupou-se o resto da vida com a função de professor na Universidade da Academia Real de Ciências e Letras de Munique e como diretor do Jardim Botânico, após nomeação do rei da Baviera. Publicou inúmeros trabalhos, resultado de todas as suas observações pelo Brasil, sendo o principal o Flora Brasiliensis. Produzida entre 1840 e 1906 por Martius, August Wilhelm Eichler e Ignatz Urban, com a participação de mais de 60 especialistas de vários países adiantados no ramo. Contém 15 volumes e 40 tomos publicados, ilustrados com tratamentos taxonômicos de 22.767 espécies, a maioria de angiospermas brasileiras, com um total de 10.367 páginas.

Há um excelente projeto o qual foram digitalizadas, em alta resolução, as pranchas de famílias descritas na Flora brasiliensis. “A digitalização das imagens está sob a responsabilidade do Jardim Botânico de Missouri . Os trabalhos referentes à atualização dos nomes estão sendo coordenados por pesquisadores do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Unicamp. O CRIA é responsável pelo desenvolvimento do sistema on-line.” Para conhecer este projeto acesse: Flora Brasiliensis: a obra.

No Brasil, antes da Independência em 1822, só existiam crônicas e narrativas sobre a História do país. As obras que trouxeram uma análise profunda sobre o assunto surgiram, concretamente, a partir da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

O IHGB foi criado em outubro de 1838, no Rio de Janeiro, como proposta de Cônego Januário da Cunha Barbosa e do Marechal Raimundo José da Cunha Mattos. Esta criação ocasionou o nascimento de um núcleo poderoso da sociedade brasileira que viram no meio intelectual a extensão dos seus privilégios e poder. Foi, de fato, uma inciativa gloriosa, pois a nação recém-independente precisava de um passado do qual pudesse se identificar, orgulhar e que lhe permitisse avançar com confiança para o futuro. Além disso, o jovem imperador Pedro II, precisava da História e de historiadores.

Assim, em 1840 o IHGB estabeleceu um concurso de monografias com o título “Como escrever a História do Brasil?” E o vencedor foi Martius. Nesta monografia Martius identifica o Brasil como uma mescla de raças, enfatizando a dos indígenas, fala pouco sobre os negros e considera que o historiador do Brasil deva escrever a História centralizada no imperador, mas como o país é muito extenso, deveriam ser feitas histórias regionais que, segundo ele, sejam direcionadas à centralização.

“Eis a história de que o Brasil recém-independente precisava, ou seja, de que as elites brasileiras precisavam para levar adiante a nova nação, nos anos de 1840-60. Uma história que realizasse um elogio do Brasil, dos seus heróis portugueses do passado distante e recente, que expressasse uma confiança incondicional em seus descendentes. Uma história que não falasse de tensões, separações, contradições, exclusões, conflitos, rebeliões, insatisfações, pois uma história assim levaria o Brasil à guerra civil e à fragmentação; isto é, abortaria o Brasil que lutava para se constituir como poderosa nação.” (REIS, 2006:28)

Martius não elaborou tal estudo. Contudo, devo salientar que foi a partir da criação do IHGB, que se iniciou a construção oficial da Historiografia Brasileira tendo como precursor Francisco Adolfo de Varnhagen.

Foi extensa a obra de Martius, principalmente sobre a botânica e a antropologia do Brasil. Entre os livros publicados temos: Plantarum horti academici Erlangensi enumeratio (1814), Nova genera et species plantarum (1824-1829), Ícones plantarum cryptogranicarum (1828-1834), Von dem Rechetszustande unter den Ureinwhnrn brasiliens (1832), Flora brasiliensis (1840-1906), Systema materie medica vegetalibus brasiliens (1834), Palmetum Orbignyanum (1847), Glossaria linguarum brasilensis (1863), Beitrage zur Ethnographie und Sprachenkunde América zumal brasilens (1861). Com Spix escreveu Reisen in brasilien (1823). Necrológio publicado na revista do IHGB, T. 32, 1869.(Fonte IHGB)

Karl Friedrich Philipp von Martius faleceu em 1868 em Munique.

Referências Bibliográficas

FLORA BRASILIENSIS, o projeto. Disponível em: http://florabrasiliensis.cria.org.br/project

HOLLANDA, Sérgio Buarque (direção).“História Geral da Civilização Brasileira Tomo II- Volume 5- O Brasil Monárquico, Reações e Transações”. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil: 1997

KALTNER, Leonardo F. Anotações sobre a biografia do naturalista Carl Friedrich PhilippvonMartius. Disponível em: http://www.revista.brasil-europa.eu/139/Kaltner-Von-Martius

KIEFFER, Anna Maria. Apontamentos Musicais dos Viajantes. Revista USP, v.30, p. 134-141, 1996.

REIS, José Carlos. As Identidades do Brasil, de Varnhagen a FHC. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

SPIX, Johann B. V.; MARTIUS, Carl F. P. V. Viagem pelo Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1976.


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
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