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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Missão Austríaca: Influências e Descobertas

O que foi a Missão Austríaca no Brasil do século XIX?


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Jean-Baptiste Debret. Desembarque da Princesa Leopoldina, 1817. Acervo do Museu da Chácara do Céu - Santa Tereza – RJ

O século XIX na Europa iniciou-se de forma violenta. Após a Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte ao assumir o cônsul da França, através do golpe do 18 Brumário, buscou diversas formas de demonstrar estabilidade política e crescimento econômico para o país, até que em 1804 assumiu o título de Imperador da França. Neste mesmo ano, foi fundado o Império Austríaco como reação à criação do Império Primeiro Francês. Através de vitórias militares a França conseguiu certa estabilidade com os países vizinhos, porém com a Inglaterra disputava a liderança do continente europeu. Assim, estrategicamente, Napoleão impôs o Bloqueio Continental onde proibia o comércio da Inglaterra com a Europa. Este fato acarretava em grandes consequências para Portugal, pois mantinha efetivas relações comerciais com este país.

“Portugal representava uma brecha no bloqueio e era preciso fechá-la. Em novembro de 1807, tropas francesas cruzaram a fronteira de Portugal com a Espanha e avançaram em direção a Lisboa. O Príncipe Dom João, que regia o reino desde 1792, quando sua mãe Dona Maria fora declarada louca, decidiu-se, em poucos dias, pela transferência da Corte para o Brasil.”(FAUSTO, 1995, p.120)

Sob a proteção da tropa inglesa a Corte e todo seu aparato burocrático, cerca de 10 à 15 mil pessoas, embarcaram em navios portugueses rumo ao Brasil.

Assim, fugindo das tropas napoleônicas, a Família Real deixou Lisboa e refugiou-se no Brasil, instalando-se no Rio de Janeiro em 1808. Após esta instalação muitas modificações de caráter socioeconômico ocorreram nesta cidade, a fim de dar condições de sediar o Império, bem como modificações culturais marcando ainda mais a feição de reino.

As Artes no Brasil sofreram grandes transformações no século XIX, como já descritas no artigo Inquietações Artísticas na Pintura Brasileira, período esse marcado pela transferência da família real portuguesa, em 1808, e todas as mudanças que vieram com a Corte, para maior esclarecimento ler o artigo acima destacado.

Como sabido, em 1815 D. João contratou professores franceses, com a finalidade de estabelecer na nova sede do reino, o padrão de civilização europeia. Assim em 1816 desembarcou no país a Missão Artística Francesa, com diversos artistas para promoverem o ensino artístico no Brasil e criar, no Rio de Janeiro, a Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios.

O que poucos tem conhecimento é sobre a Missão Austríaca que veio para o Brasil em 1817, com cientistas, artistas e estudiosos, e que também é a responsável, assim como todos artistas viajantes que por essas terras passaram, por grandes documentos históricos e científicos, sejam em pinturas, estudos ou crônicas, daquela época.

O Novo Mundo era o alvo para os artistas e pesquisadores europeus, um lugar que despertava interesse e curiosidade até para simples os aventureiros.

Os ideais libertários pós Revolução Francesa espalharam-se e modificaram todo o padrão europeu. Os absolutistas ainda dominavam a maioria dos países e estes receosos com os revolucionários, instituíram o Congresso de Viena (1814-1815), liderado pelas principais potências monárquicas do período (Inglaterra, Prússia, Rússia e Áustria), visando restabelecer à ordem monárquica do Antigo Regime.

Em meio as negociações de paz com a Europa e busca pela restauração dos tronos às famílias reais derrotadas por Napoleão, foi firmado o casamento entre os Bragança e Habsburgo, onde o herdeiro do trono do Brasil D. Pedro teria Leopoldina, Arquiduquesa da Áustria, como sua esposa. A intenção deste casamento era a aliança com a Áustria a fim de diminuir o poder da Inglaterra sobre Portugal. Para a Áustria também haviam interesses, além do comercial pelo império português, sabiam que a aliança com Bragança fortaleceria o poder monárquico na Europa e consolidaria a monarquia no Novo Mundo, visando enfraquecer o poder inglês nesta parte da América.

Leopoldina Josefa Carolina Francisca Fernanda Beatriz de Habsburgo-Lorena, ou simplesmente Maria Leopoldina, filha de Francisco I da Áustria (último imperador do Sacro Império Romano-Germânico o qual em 1804 fundou o Império Austríaco, tornando-se o primeiro imperador da Áustria, governando entre 1804-1835), como mulher e pertencente à nobreza, teve que aceitar o acordo de ser utilizada como moeda de troca, afinal sabia que esse era seu destino. Justamente devido a este fim, foi preparada desde a infância, sendo instruída nas artes e ciências, além do conhecimento de línguas estrangeiras.

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Josef Kreutzinger. Retrato de Maria Leopoldina, 1815

Ainda no ano de 1815 o rei da Baviera, Maximiliano José, já projetava uma grande expedição científica pela América do Sul, mas alguns contratempos ocorreram e a expedição não foi realizada. Assim quando em 1817 a Arquiduquesa Leopoldina embarcou rumo ao Brasil, para seu casamento com D. Pedro, Maximiliano José aproveitou a oportunidade e enviou seus súditos Carl Friedrich Phillip Von Martius, médico e botânico, e Johann Baptist von Spix, zoólogo, com o séquito da arquiduquesa.

Além destes, Karl von Schreibers, diretor do Museu de História Natural em Viena, por ordens do Chanceler Metternich, preparou uma missão com notáveis cientistas que acompanhariam a comitiva da Arquiduquesa. Entre os cientistas estavam: Johann Christof Mikan, botânico e entomólogo; Johann Emanuel Pohl, médico, mineralogista e botânico; Johann Buchberger, pintor de flora; Johann Natterer, zoólogo; Thomas Ender, pintor; Heinrich Schott, jardineiro; e o naturalista italiano Guiseppe Raddi, este grupo tinha por objetivo colecionar espécimes e fazer ilustrações de pessoas e paisagens para um museu que seria fundado em Viena.

O maior interesse era rastrear o Novo Mundo pesquisando plantas animais e índios. Todo esse fascínio era devido a publicação do primeiro volume do livro do geógrafo alemão Alexander von Humboldt (1769-1859), Voyage aux régions équinoxiales du Nouveau Continent: fait en 1799, 1800, 1801, 1803 et 1804( Viagem às regiões equinociais do novo continente, feita de 1799 a 1804) e Aimé Bonpland (1773–1858). Humboldt influenciou diversos artistas, por exemplo Rugendas, e a característica marcante de suas pesquisas, bem como dos artistas humboldtianos, era representar tudo o que via de maneira enciclopédica, ou seja, explicando detalhadamente tudo o que viam.

Entre os livros, diários de viagens, tratados de Zoologia e Botânica, “podemos afirmar não só se revelou a maior parte da natureza brasileira, até então desconhecida como, a partir desse momento, foram introduzidos os modernos estudos de Sistemática e Taxionomia” (LEONTSINIS,1997. p.57-78.)

Portanto, neste artigo meu interesse é salientar a importância e contribuição da Missão Austríaca, que não é muito retratada nos livros didáticos, bem como da Imperatriz Leopoldina, pois a própria já carregava pessoalmente grande interesse pelas ciências naturais e pelas artes, na introdução da cultura e educação científica no início do século XIX no Brasil.

Em breve mais artigos relacionados ao tema.

Referências Bibliográficas:

FAUSTO, Boris. História do Brasil. São Paulo: EDUSP, 1995

LEONTSINIS, S. “A Imperatriz Leopoldina e a História Natural do Brasil”. In: 200 anos. Imperatriz Leopoldina. Simpósio Comemorativo do Bicentenário de Nascimento da Imperatriz Leopoldina. Rio de Janeiro: IHGB, 1997

SPIX, Johann B. V.; MARTIUS, Carl F. P. V. Viagem pelo Brasil. São Paulo: Melhoramentos, 1976


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
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