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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Primórdios da Literatura de Escrita Feminina no Brasil

Durante muitos anos a mulher foi obrigada aceitar sua condição de inferioridade. E, por mais que fosse algo “normal” para o período, nem todas aceitavam essa condição de submissa.


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A presença feminina na vida pública começa efetivamente no início do século XX, mas anteriormente algumas mulheres já haviam dado passos para a conquista desta posição.

No período colonial, somente os meninos estudavam e até o final da colônia o sistema patriarcal enclausurava as meninas, e as mulheres, impedindo que frequentassem os espaços públicos. Não irei me estender na época colonial, mas preciso citar um curioso fato deste período: Madalena Caramuru é considerada a primeira mulher letrada do Brasil. Filha do português Diogo Alvarez Correia (Caramuru) com a índia Catarina Paraguaçu, Madalena viveu entre índios e portugueses. Casou-se em 1534, com o português Afonso Rodrigues. Esse contato com os europeus foi fundamental para que a mesma se alfabetizasse, pois ambos a incentivavam.

Segundo Arilda Ines Miranda Ribeiro (2007): “A prova de que ela seria a primeira pessoa a ser alfabetizada no Brasil é uma carta escrita e enviada no dia 26 de março de 1561 ao bispo de Salvador (alguns dizem ao Padre Manoel de Nóbrega). Portanto essa missiva seria o primeiro documento escrito por um brasileiro, no caso do gênero feminino.”

2001-38-selo.jpg Em homenagem à Madalena, em 14 de novembro de 2001, os Correios lançaram um selo que simboliza a luta pela alfabetização da mulher no Brasil.

Em meados século XIX e início do XX, os intelectuais brasileiros foram fortemente influenciados pelo positivismo. A filosofia positivista do francês Auguste Comte (1798-1857), que chegou ao Brasil por volta de 1850, valorizava a observação e buscava o avanço técnico-científico (empirismo), servindo como reação contrária ao idealismo.

Vemos claramente essa influencia durante a segunda metade século XIX, onde o plano político foi marcado pela força das ideias republicanas e abolicionistas, que resultaram no fim da escravidão (1888) e da Monarquia (1889). A inscrição "Ordem e Progresso" na bandeira brasileira, criada após a Proclamação da República, traz o lema político do positivismo.

A transição do século XIX para o XX foi marcada por transformações políticas, econômicas e socioculturais, dentre as quais: o trabalho escravo foi substituído pelo assalariado; com a mudança na forma de governo, elaborou-se a Constituição de 1891; as fazendas e lavouras modificaram suas estruturas; com o crescimento das cidades, as primeiras indústrias se instalaram no país. A expansão da doutrina positivista, ainda servindo como fundamento teórico para a realidade do período, gerou um clima de entusiasmo pelo seu conteúdo otimista em relação ao futuro, surgindo assim, novas discussões educacionais.

No século XIX a mulher tinha um lugar inferior na sociedade brasileira sendo representada como uma propriedade. Primeiramente do pai, que era o responsável pelos arranjos matrimoniais, e depois do marido, onde para este último a mulher deveria ser além de um objeto para procriação, uma esmerada dona de casa, recatada e manter a “moral e os bons costumes” da família. Para piorar a situação, existia o conceito de que para exercer este papel, não necessitaria de estudos. Por isso, muitas mulheres eram semianalfabetas.

“A herança moura trazida nas caravelas resistia e impunha uma vida de reclusão, ignorância e submissão. Urgia levantar a primeira bandeira, que não podia ser outra senão o direito à educação: aprender a ler, a escrever e ter noções de aritmética. A maioria das pessoas achava que bastava à menina saber bordar, cozinhar, tocar piano.”(DUARTE, 2001)

Em meio às transformações deste período, o acesso a socialização, o comportamento feminino também se transformou e aos poucos ganhou notabilidade em meio a sociedade conservadora. A primeira legislação autorizando a abertura de escolas públicas femininas foi em 1827, assegurando os estudos elementares. Já a formação acadêmica das mulheres no Brasil foi mais demorada, a lei que permitia o ingresso destas nos cursos superiores foi promulgada somente em 1879, o que não atingiu a todos, pois obviamente sua classe social favorecia para ser incluída neste meio. Antes disso, as mulheres eram impossibilitadas de qualquer profissionalização, com exceção ao professorado, que exigia somente Escola Normal. Nas escolas também aprendiam como cuidar de suas crianças, pois isso era anteriormente feito por escravas. Eram raras as mulheres brasileiras que seguiam os estudos e em menor número ainda as escritoras. As que se aventuravam na escrita eram consideradas feministas, pois a ruptura do paradigma doméstico, a ânsia por liberdade, principalmente de expressão, a magia do pensamento e questionamento sobre essas obrigações, caracterizavam-nas como subversivas e obscenas.

O nome que se destaca nesse momento, a se erguer contra os preconceitos da sociedade patriarcal em relação a mulher, é o de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-1885), primeira voz feminista no Brasil.

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Segundo Constância Lima Duarte (2003), “seu primeiro livro, intitulado Direitos das mulheres e injustiça dos homens, de 1832, é também o primeiro no Brasil a tratar do direito das mulheres à instrução e ao trabalho, e a exigir que elas fossem consideradas inteligentes e merecedoras de respeito. Este livro, inspirado principalmente em Mary Wollstonecraft (Nísia declarou ter feito uma "tradução livre" de Vindications of the Rights of Woman), mas também nos escritos de Poulain de la Barre, de Sophie, e nos famosos artigos da "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã", de Olympe de Gouges, deve, ainda assim, ser considerado o texto fundante do feminismo brasileiro, pois se trata de uma nova escritura ainda que inspirado na leitura de outros.”

Vale ressaltar que, grande parte das mulheres que seguiram para o caminho literário pertencia a famílias abastadas e letradas, dispunham de uma vasta biblioteca de seus pais e irmãos ou maridos e, geralmente, tinha um salão em casa onde ocorriam encontros de intelectuais, poetas e músicos. Como ainda não ocupavam espaços públicos, restringiam-se aos círculos familiares e amigos, portanto essas reuniões literárias as estimulavam muito.

Essas mulheres frequentavam constantemente suas bibliotecas residenciais para praticarem suas leituras e até transcrever os versos de seus irmãos e criarem seus próprios versos. Porém, nunca declamavam versos de própria autoria, geralmente decoravam mais de trezentos poemas de algum outro autor.

Segundo Eleutério (2005, p.25) “mesmo tendo o meio que lhe dá condições de saber escrever e até rimar, a mulher terá impedimentos de ordem vária: internalizará a inferioridade que a sociedade patriarcal forjou para ela, não se achando apta a competir com seus irmãos, ou se submeterá completamente aos desígnios da família que a tolhe ou lhe faz o primeiro reconhecimento.”

Nem todas mulheres acatavam essa condição de submissa e silenciada que a sociedade lhe impunha, e com o avanço da imprensa em 1897 Presciliana Duarte de Almeida (Pouso Alegre MG, 1867 - São Paulo SP, 1944), lançou em São Paulo a revista A Mensageira, que circulou até 1900.

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A Mensageira não era uma revista como as outras que havia em circulação no período, onde o universo feminino era de artesanato, culinária, puericultura, esta era uma revista literária dedicada na qual a mulher participava com seus artigos. Os temas decorriam sobre os preconceitos que enfrentavam, questões para a emancipação da mulher e era um espaço no qual podiam mostrar suas produções literárias. A revista está digitalizada e encontra-se no site da Biblioteca Nacional Digital.

Este artigo faz uma breve explanação sobre os primórdios da literatura de escrita feminina e servirá como base para os demais, onde buscarei resgatar algumas mulheres brasileiras ofuscadas ou desconhecidas no meio literário entre os séculos XIX e XX.

Referências Bibligráficas:

ELEUTÉRIO, Maria de Lourdes. Vidas de Romance: as mulheres e o exercício de ler e escrever no entresséculos (1890-1930). Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.

DUARTE, Constância Lima. Mulher e Escritura: Produção letrada e emancipação feminina no Brasil. A invasão da cultura nos estudos de língua e literatura, UNEB. Bahia, v. 1, n. 1. 2011. Disponível em:http://www.revistas.uneb.br/index.php/pontosdeint/article/view/1431

DUARTE, Constância Lima.Feminismo e literatura no Brasil. Estud. av. [online]. 2003, vol.17, n.49, pp.151-172.ISSN 0103-4014. http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142003000300010.

RIBEIRO, Arilda Ines Miranda. Mulheres e educação no Brasil-colônia: histórias entrecruzadas. 2007. Disponível em: http://www.histedbr.fe.unicamp.br/navegando/artigos_frames/artigo_021.html


Adriana Caló

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