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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

RESGATE DE MEMÓRIA: Quem foi Aracy Moebius de Carvalho?

Mesmo realizando grandes feitos muitos fatores contribuem para uma pessoa ser desconhecida, principalmente no que tange à classe social do indivíduo. Se a pessoa que realizou estes feitos for uma mulher o reconhecimento é ainda mais prejudicado, haja vista o período em que esta viveu. Com isso, neste artigo quero retirar das sombras uma grande e corajosa mulher a brasileira Dona Aracy.


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Sabemos que até hoje no Brasil a mulher é vista em algumas situações, e por algumas mentalidades conservadoras, como um ser inferior, objeto de procriação e deve ser recatada mantendo a “moral e os bons costumes”. Porém, felizmente, gradativamente esse quadro tem se modificado através de inúmeras lutas diárias por respeito e igualdade. De fato, precisamos destacar que séculos atrás mesmo com muitas barreiras sempre houveram mulheres guerreiras que defendiam seus objetivos e ideais!

Com isso, pretendo nesse artigo retirar das sombras uma grande e corajosa mulher que talvez tenha tido seu mérito equivocadamente ilustrado pela figura de seu marido, mas nunca é tarde para tirar da escuridão e nos iluminarmos com o conhecimento dos feitos dessas personagens esquecidas ou ofuscadas no contexto histórico-social do Brasil. Afinal segundo o filósofo Walter Benjamin “o cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu, pode ser considerado perdido para a história.” (BENJAMIN, 1987. p.223)

Nascida no dia 05 de dezembro de 1908 na cidade Rio Negro, no Paraná, Aracy Moebius de Carvalho, ainda criança mudou-se com os pais para São Paulo. Em 1930 casou-se com o alemão Johan von Tess, com quem teve o filho Eduardo Carvalho Tess. Após cinco anos de união separou-se e foi morar com sua tia na Alemanha.

A crise na Alemanha nazista estava afetando as condições financeiras de sua tia e Aracy para contribuir, e até mesmo sobreviver com seu filho, saiu em busca de emprego. Como era poliglota conseguiu um emprego no consulado brasileiro em Hamburgo, onde passou a ser chefe da Seção de Passaportes, prestando serviços ao Itamaraty. Segundo a historiadora Mônica Raisa Schpun este fato se traduz como “o espaço do acaso na História”, pois com esse cargo Aracy salvou a vida de centenas de judeus, que já sofriam perseguições às vésperas da Segunda Guerra Mundial.

Em 1938, período do Estado Novo, regime político brasileiro fundado por Getúlio Vargas em 1937, para impedir a imigração de judeus refugiados do nazismo e dos sobreviventes dos campos de concentração, entrou em vigor a Circular Secreta 1.127, onde o governo brasileiro adotou uma política imigratória seletiva e restritiva.

Aracy, envolvida por uma imensa empatia e compaixão, ignorou essa circular e arriscou sua vida inúmeras vezes. Além de não identificar quem era judeu (onde devia se colocar a letra J no passaporte), sua coragem foi descomunal, pois usou do subterfúgio de “enganar” o Cônsul Geral. Ela colocava os vistos entre a papelada para as assinaturas e o mesmo assinava sem perceber. Neste mesmo período conheceu João Guimarães Rosa, Cônsul Adjunto em Hamburgo, que após um tempo tornou-se seu segundo marido.

Guimarães Rosa sabia do que Aracy fazia, apoiava sua atitude e por muitas vezes a auxiliava. Com essas e outras facetas Aracy livrou centenas de judeus da prisão e morte, assim ficou conhecida como Anjo de Hamburgo.

Porém sua coragem não se restringiu ao período em que viveu na Alemanha, já no período em que residia novamente no Brasil, segundo o neto de Aracy, Eduardo, sua avó também ajudou outras pessoas tempos depois. Ainda diz que a avó foi contra “os nazistas na Alemanha e os fascistas no Brasil.”

Há um episódio em que ela escondeu em seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro, o cantor Geraldo Vandré, perseguido na ditadura militar. “Minha mãe mais uma vez assumiu a defesa de alguém que estava precisando”, diz Eduardo Tess.

Segundo sua nora, Beatriz Tess, um dia em uma reunião na casa do Cônsul de Israel quando perguntada porque ajudou os judeus ela disse:“Porque somos todos irmãos”.

Essa foi a filosofia de vida de Aracy, auxiliar quem precisava independente de sua nacionalidade, religião ou posição, buscando sempre ser justa.

Essas informações pessoais podem ser vistas no maravilho documentário Esse Viver Ninguém Me Tira (2014) com a direção e pesquisa do ator-diretor Caco Ciocler.

Talvez a maioria das pessoas já conhecesse Aracy Guimarães Rosa, mas de outro modo. Sim, ela foi a musa inspiradora de Guimarães Rosa e é sabido que é dedicado à ela um dos livros fundamentais da moderna literatura brasileira - "Grande Sertão: Veredas".

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"Serás tudo para mim: mulher, amante, amiga e companheira. Sim, querida, hás de ajudar-me, a escrever os nossos livros. Não só passarás à máquina que eu escrever, como poderás auxiliar-me muito. Tu mesma não sabes o que vales. Eu sei, e sempre disse, que tens extraordinário gosto, para julgar coisas escritas. Muito bom gosto e bom senso crítico. Serás, além de inspiradora, uma colaboradora valiosa, apesar ou talvez mesmo por não teres pretensões de ‘literata pedante'. E estaremos sempre juntos, leremos juntos, passearemos juntos, nos divertiremos juntos, envelheceremos juntos, morreremos juntos." - Guimarães Rosa (06/11/1946)

Em 1967 Guimarães Rosa faleceu e Aracy não se casou novamente.

Em 1982 foi reconhecida como “Justa entre as Nações” com a nomenclatura inscrita no Museu do Holocausto (Yad Vashem) em Jerusalém. Trata-se de uma homenagem e reconhecimento que o Estado de Israel presta aos não judeus que ajudaram salvar judeus do genocídio nazista.

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Com o passar dos anos foi traída pela memória, sofria de Mal de Alzheimer, faleceu em 3 de março de 2011 aos 102 anos. Mas, como dizia Guimarães Rosa: "As pessoas não morrem, ficam encantadas".

Quero ressaltar a atitude heróica e ousadia desta mulher que ultrapassou diversas barreiras e, no meio da Alemanha de Hitler podendo ter um fim trágico, guardou todos seus medos em favor do próximo por simples empatia. Dona Aracy foi uma mulher incrível e por méritos próprios merece nossa atenção e reconhecimento.

Referência Bibliográfica: BENJAMIN, Walter. "Magia e Técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura." São Paulo: Brasiliense, 1987.


Adriana Caló

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