coisas de dri...

Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

3 filmes poéticos de Oswaldo Montenegro

“Que as palavras que falo não sejam ouvidas como prece, nem repetidas com fervor; Apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos...”


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“A imagem é um modo da presença que tende a suprir o contato direto e a manter, juntas, a realidade do objeto em si e a sua existência em nós.” (Alfredo Bosi)

Breve biografia:

Oswaldo Viveiros Montenegro nasceu em 15 de março de 1956, no Grajaú, Rio de Janeiro. Aos 13 anos venceu seu primeiro festival, com a "Canção Pra Ninar Irmã Pequena", música que mais tarde gravaria na trilha do vídeo "O Vale Encantado", com o título "Canção Pra Ninar Gente Pequena”. Em 1971, mudou-se com a família para Brasília. Lá participava com frequência dos festivais da cidade. Com isso conheceu, então, amigos e parceiros que o acompanham pela vida a fora como José Alexandre, Raimundo Marques, Ulysses Machado e Madalena Salles.

com Madalena Salles - 1989_.jpg com Madalena Salles - 1989. Via site oficial

O início da carreira:

Em 1972 teve a música "Automóvel" classificada no último Festival Internacional da Canção, da Globo. Em 1974, em parceira com o amigo de infância Mongol, escreveu sua primeira peça musical, "João sem Nome", encenada em 1975, no Teatro Martins Pena, de Brasília.

Em 1975, assinou seu 1º contrato com uma gravadora - a Som Livre - lançando seu primeiro compacto, "Sem Mandamentos". Neste mesmo ano conhece a talentosíssima Madalena Salles, flautista e sua ex-mulher, a qual o acompanha até hoje. Muitas músicas compostas por Oswaldo foi inspirada na linda relação de amor e amizade do casal, relacionamento puro e verdadeiro que até hoje perdura na amizade e na arte.

Em 1977, lançou seu primeiro LP, "Trilhas", independente, a convite e produzido por Frank Justo Acker.

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Em 1979, convidado pela WEA, lança seu 1º LP por uma gravadora - "Poeta Maldito, Moleque Vadio".

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Em 1979, estourou no festival da extinta TV Tupi, com a música "Bandolins", em 3º lugar.

No ano seguinte, ganhou o 1º lugar no festival da Globo MPB-80 com "Agonia", de Mongol.

Em 1980, lança seu 2º disco pela WEA - "Oswaldo Montenegro", alcançando, com este, seu primeiro disco de ouro.

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A partir daí, faz excursões nacionais, toca em grandes teatros e entra na mídia. Em 1982, estreou no teatro Villa-Lobos a peça "Veja Você, Brasília". Nesse elenco, estavam as ainda desconhecidas Cássia Eller e Zélia Duncan.

cass e zel.jpg Cenas da websérie "Nossas Histórias" cap. 09

Para maiores detalhes sobre a biografia do cantor, Madalena Salles conta através da websérie "Nossas Histórias" (28 curtos capítulos) diversos e interessantíssimos momentos de sua trajetória, há mais de 40 anos, em parceria com Oswaldo Montenegro.

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Que Oswaldo Montenegro é um consagrado cantor, compositor e poeta, todos sabemos, mas de uns tempos para cá ele se revelou um grande diretor, roteirista e produtor de longas-metragens.

Com muita sensibilidade, trilhas sonoras incríveis e fotografias lindíssimas, esses três filmes, cada qual com enredos reflexivos, transbordam poesias e cutucam com sutileza feridas delicadas. Nos fazendo engolir a seco as fragilidades de nossa humanidade, em especial com o filme "Solidões", embebedando nosso ser com muitos questionamentos.

Já dizia Charles Baudelaire: " É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!”

Então...

Embriaga-te!

Filme: LÉO E BIA, 2010

“Ficção com base autobiográfica, a produção foi rodada no Rio de Janeiro ao longo de dez dias, após uma jornada de cinco meses de ensaios com o elenco e um mês de experimentação com movimentos de câmera. Tudo feito com recursos próprios e sem qualquer patrocínio. O filme se passa em um cenário único: a sala de ensaios de um grupo de jovens atores.” (Via: site oficial)

Primeiro trabalho de Oswaldo Montenegro como roteirista, diretor e produtor de cinema. Este longa é uma adaptação para as tela de seu famoso musical, de mesmo nome, dos anos 80. Recebeu dois prêmios em sua primeira exibição no Festival de Cinema Cine PE 2010: melhor atriz (Paloma Duarte), personagem que narra toda a história e inspirado na flautista Madalena Salles, e melhor trilha sonora (Oswaldo Montenegro). O filme “Léo e Bia” é lindo! Retrata o amor à arte, a determinação do desbravamento pelo novo ao seguirem seus sonhos. Dos desejos ilimitados que a juventude e a coragem podem proporcionar.

Seu recorte histórico é o ano de 1973, auge da ditadura militar com Emílio Garrastazu Médici no governo, que ficou no poder de 1969 a 1974, considerado o mais repressivo e agressivo do regime militar, conhecido como "anos de chumbo".

Em meio à forte censura e repressão do momento em que viviam, onde sonhar era subversão, o filme retrata a história de sete jovens que decidem viver de arte. Em meio a isso, o filme enfatiza um outro tipo de repressão, a obsessão da mãe (Françoise Forton) por Bia (Fernanda Nobre) em um misto de superproteção e frustação, a mãe quer o melhor para a filha, o que não teve em sua juventude ou que não conseguiu o devido destaque. Levanta a dúvida entre a preocupação e a inveja. O clima opressor entre mãe e filha nos envolve a compreender melhor os sete jovens sonhadores, sete vidas com seus problemas cotidianos e seus amores, que buscam nas aulas de teatro, nos diálogos entre amigos, o sentido da vida através da arte.

“Leo e Bia” é uma canção que Oswaldo Montenegro compôs para seus amigos reais, como um presente de casamento. Porém a história do musical, que depois gerou o filme homônimo, não tem nenhuma relação ao casal que inspirou a canção.

Filme: SOLIDÕES, 2013

“Realizado com recursos próprios e a Coprodução do Canal Brasil, “Solidões” vai do riso ao drama, do musical ao documentário, da comédia romântica à sátira cruel, em várias histórias que se ligam, se encontram.” (Via: site oficial)

Este filme é FANTÁSTICO!! Sensível e ao mesmo tempo impactante, o longa aflora o pensamento sobre o que é a solidão, ou melhor sobre os tipos de solidões na qual o ser humano vive e encontra-se só na multidão, onde cada um guarda em si a sua solidão. Vanessa Giacomo, a qual narra toda a trama e ao mesmo tempo interpreta uma personagem que se considera livre após perder a memória, inicia o filme com um poema lindo e reflexivo de Oswaldo Montenegro:

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A partir daí respire fundo, o longa retrata vários tipos de solidões, com vários personagens, vários momentos vividos e várias frustações. Oswaldo Montenegro interpreta o solitário e saudosista demônio do filme. Passa pelos caminhos do amor, do ódio, da religião, da fama, do fracasso, dos amigos, da morte, da vida...

O filme foi rodado nas dunas de Arraial do Cabo (RJ), no cerrado de Brasília, no agreste de Pernambuco, no Rio de Janeiro e em Piraí (RJ), tem uma fotografia incrível e trilha sonora de emocionar.

“88% das atividades humanas existem para tornar a solidão suportável: festas, guerras, religiões, computadores, revistas, pílulas, novelas, sex shops, filmes, afetos, bingos, etc. Até hoje só o afeto conseguiu algum resultado.” (trecho do filme)

Depois de assistir esse filme, nunca mais verá seus pés como antes...

Filme: O PERFUME DA MEMÓRIA, 2016

“Realizado sem patrocínio (com recursos do próprio diretor), o filme foi rodado em 5K (câmera Red Epic) em algumas locações do Rio de Janeiro, como Arpoador, Lagoa Rodrigo de Freitas e uma casa no Alto da Boa Vista.” (Via: site oficial)

Recebeu os prêmios de Melhor Som e Música no “Open World Toronto Film Festival”, Melhor Filme Estrangeiro no "California Film Awards" e foi classificado para o “Richmond International Film Festival.”

No meu ponto de vista, este é o filme mais sensível e poético, e também o mais surpreendente. A trilha sonora também é maravilhosa!

O filme, narrador por Oswaldo Montenegro, conta a história de duas mulheres diferentes, Ana (Kamila Pistori) e Laura (Amandha Monteiro), que se conhecem pessoalmente, após uma visita inesperada de Ana à casa de Laura, que estava em um momento complicado. Apesar de Ana guardar um segredo, uma linda amizade começa e desenrola pelos caminhos do coração até o confronto entre a emoção e a razão.

Ai estão os três lindos filmes. Espero que gostem ;-)

Referências:

Site Oficial de Oswaldo Montenegro

BAUDELAIRE, Charles. “Pequenos Poemas em prosa”.

BOSI, Alfredo. “O ser e o tempo da poesia”.


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
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