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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Resgate de Memória: Quem foi Gilka Machado?

Neste artigo trago à luz uma grande poeta, infelizmente pouco conhecida, onde sua poesia, segundo Drummond, combinava “elementos simbolistas em sua formação, tinha também algo de misticismo, e às vezes acusava preocupações de ordem social, chegando a uma espécie de anarquismo romântico”, que merece sair das sombras da literatura brasileira. Afinal, viveu uma época na qual as mulheres eram confinadas à uma vida doméstica e recatada e rompeu com as barreiras do decoro público, chocou a sociedade ao escrever e publicar sobre as paixões e desejos proibidos à mulher.


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Vimos no artigo Primórdios da Literatura de Escrita Feminina, que em fins do século XIX a maioria das mulheres que seguiram para o caminho literário pertenciam às famílias da elite. Assim, pouco a pouco essas mulheres, frequentadoras de reuniões literárias, começaram a escrever seus poemas, contos, crônicas e romances. Ainda quero ressaltar que esses registros, mesmo que em diários guardados em gavetas, já demonstravam a conscientização e crítica à ordem social em que essas mulheres estavam inseridas.

Se publicar um livro era algo distante para as mulheres da República, escrever sobre os desejos femininos era algo ainda mais complicado, pois estas pertenciam a uma sociedade patriarcal, onde a mulher era a responsável pela “moral e os bons costumes” da família.

“No Brasil de início do século XX, a manifestação do desejo feminino se amoldava, quase incondicionalmente, à supervisão masculina: os livros escritos por mulheres não deveriam ultrapassar o cerco do lirismo cheiroso e bem-comportado. Melancolia, tristeza e languidez eram as qualidades preferencialmente esperadas, devendo a alegria e o viço serem canalizadas para o lar e a família.” (ARAÚJO, 2014, p.115)

Neste contexto quero trazer à luz a poeta Gilka Machado.

Gilka2.jpg Foto: Revista O Malho,nº 1578, de março de 1933. Fonte: Biblioteca Nacional Digital / Hemeroteca Digital

Gilka da Costa Melo Machado nasceu em 12 de março de 1893, no Rio de Janeiro, faleceu na mesma cidade em 1980 aos 87 anos.

Desde criança manifestava sua tendência poética, aos 13 anos de idade venceu o concurso do jornal A Imprensa, ocupando os três primeiros lugares com poemas assinados em seu nome e com pseudônimos. Porém, essa inclinação artística já era uma tradição familiar. Seu pai, Hortêncio da Gama Souza Melo, era poeta. Sua mãe, Thereza Christina Moniz da Costa, era atriz de teatro e radioteatro, assim como suas tias. Tinha o avô materno, que era poeta repentista, Francisco Moniz Barreto (patrono da cadeira nº13 da Academia de Letras da Bahia), militar que lutou na Guerra Cisplatina, autor do livro “Clássicos e Românticos, apelidado de Bocage brasileiro.

Em 1910 Gilka Machado casou-se com o poeta, jornalista e crítico de arte Rodolfo Machado, com o qual teve dois filhos, Hélios e Heros.

18155534_1278569102239246_939235530_n.jpg In: Estados da Alma, 1917 (ortografia original)

Preciso destacar que sua filha Heros Volúsia Machado (1914 – 2004), conhecida como Eros Volúsia, dançarina e atriz, se projetou internacionalmente ao desenvolver coreografias próprias e de vanguarda, inspiradas na cultura popular brasileira, unindo balé clássico e ritmos brasileiros. Eros é mais um nome expressivo do papel da mulher na História, e no caso da Dança, Brasileira.

Alguns fatos curiosos sobre Eros: ela foi a única sul-americana a ser capa da revista norte-americana Life, em setembro de 1941; participou do filme "Rio, Rita" (de 1942 cujo os direitos pertenciam a MGM ); Carmem Miranda se inspirou em seus movimentos de mãos; foi a primeira a dançar samba na ponta dos pés; criou o primeiro curso de dança a aceitar negros.

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Ainda em 1910, Gilka participou da fundação do Partido Republicano Feminino, criado por Leolinda de Figueiredo Daltro (1959-1935), no qual era a uma das secretárias. O PRF foi um Partido político, fundado no Rio de Janeiro, que tinha como objetivo representar e integrar as mulheres na sociedade política.

prf.jpg Foto: Revista da Semana, Rio de Janeiro, ano XII, 30 de setembro de 1911, p.10. Fonte: Biblioteca Nacional Digital / Hemeroteca Digital

Em 1915 publicou seu primeiro livro, Cristais Partidos. E em 1916, proferiu uma conferência, A Revelação dos Perfumes, que gerou grande interesse e foi publicada em 1932.

“Ser mulher é um dos poemas mais conhecidos de Gilka Machado e nele, o eu lírico feminino retrata a difícil missão de ser mulher, numa sociedade que, movida pelas convenções, nega-lhe a liberdade e o amor pleno.” (GONÇALVES, 2012,p.10)

18136749_1278568862239270_146063563_n.jpg In: Crystaes Partidos, 1915, p. 110 (ortografia original)

No início do século XX a poesia feminina era convencionalmente parnasiana ou simbolista, com rimas essencialmente da alma. No entanto, Gilka Machado produzia versos considerados escandalosos para este mesmo período. “Ao insulto contra dogmas sociais, prefere a valorização ostensiva do corpo feminino, concebido como terreno radicalmente sensível ao mundo externo, seja ele representado por um pêssego, um homem ou o Sol. A revolução ocorre, portanto, dentro da mulher.” (ARAÚJO, 2014, p.117)

particu.jpg In: Poesias, 1918, p.176-177

Gilka Machado foi umas das pioneiras no Brasil a escrever poesias de cunho erótico. “Costuma-se lembrar de Gilka Machado quando se fala do erotismo tratado poeticamente pela mulher, porém, sabe-se, é claro que existiram precursoras.” (ELEUTÉRIO, 2005, p.149). Uma delas foi Ibrantina Cardona. Já para Drummond (1980): “Seria falso dizer que a poesia de Gilka era puro sensualismo. Com elementos simbolistas em sua formação, tinha também algo de misticismo, e às vezes acusava preocupações de ordem social, chegando a uma espécie de anarquismo romântico.”

O que de fato quero destacar é que Gilka foi uma mulher à frente de seu tempo, em uma época na qual as mulheres eram confinadas à uma vida doméstica e recatada, Gilka rompeu com as barreiras do decoro público, chocou a sociedade ao escrever e publicar sobre as paixões e desejos proibidos à mulher. Como a mesma escreveu para a Gazeta de Notícias em 1924:

“Quando publiquei meu primeiro livro, cujos versos haviam sido escritos dos treze aos dezessete anos, o rumor de escândalo que então me chegou aos ouvidos atônitos de surpresa a pouco e pouco foi ecoando na minha alma, nela despertando uma dúvida terrível, respectivamente à minha própria personalidade... Houve dentre os meus juízes opiniões inteiramente contraditórias: dos que, desconhecendo por completo minha pessoa, acusavam-se de andar pelo club dos Diários, ostentando a minha nudez, e a daqueles que, informados de minha pobreza, atribuíram a suposta brutalidade das expressões da minha arte à minha vida plebéia.”

De fato, “a ousadia de sua lírica não foi aceita, principalmente porque pregava a libertação dos instintos femininos sem reservas, numa linguagem direta e franca, diferente daquela praticada por poetas da época, que ainda se ressentiam das influências parnasianas, com suas metáforas arrojadas e suas inversões sintáticas.” (GONÇALVES, 2012,p.9)

amantes.jpg In: Meu glorioso Pecado, 1928. p.10-11

Gilka buscava ser autentica e fiel a seus sentimentos e sobre as críticas que recebia, principalmente vista como imoral a mesma disse:

“Estreei nas letras, vencendo um concurso literário num jornal, A Imprensa, dirigido por José do Patrocínio Filho. Logo depois, um crítico famoso escrevia que aqueles poemas deveriam ter sido laborados por uma matrona imoral. Quase criança, comunicativa, indiscreta e falaz, saindo de mim mesma, contando meus prazeres e tristezas, expondo os meus defeitos e qualidades, eu pensava apenas em dar novas expressões à poesia. Aquela primeira crítica (por que negar) surpreendeu-me, machucou-me e manchou o meu destino. Em compensação, imunizou-me contra a malícia dos adjetivos. Havia no meu ser uma torrente que era impossível represar: os versos fluíam, as estrofes cascateavam... e continuei, ritmando minha verdade, então com mais veemência.” (MACHADO, 1978, p.10)

Em 1923, Rodolfo faleceu e deixou sua inédita produção “Divino Inferno” que, organizada por Gilka, foi publicada em 1924. Após a morte do marido Gilka passou por dificuldades financeiras. Criou sozinha seus dois filhos e, após um período, abriu uma pensão que era frequentada por intelectuais e artistas, o que propiciou a sua filha Eros uma boa convivência com personalidades da política e da intelectualidade brasileira, desde a infância.

Em 1933, foi considerada, com grande margem de votos, a maior poeta do século XX, em um concurso promovido pela revista O Malho, revista de grande importância política criada em 1902.

ggg.jpg Foto 1: Resultado da eleição , realizada pela Revista O Malho,para saber qual era a maior poetisa brasileira. Foto 2: Medalhão de ouro que a Revista O Malho ofereceu a Gilka Fonte: Biblioteca Nacional Digital / Hemeroteca Digital

Em 1976, Jorge Amado convidou Gilka Machado para ingressar na Academia Brasileira de Letras, pois neste ano a Instituição havia modificado seus estatutos permitindo o ingresso de mulheres. Gilka poderia ter sido a primeira mulher a fazer parte da ABL, mas recusou. Vale ressaltar que, em 04 de novembro de 1977, Raquel de Queiroz foi eleita para a cadeira 5 da Academia, tornando-se a primeira mulher a ingressar na ABL. Neste mesmo ano perdeu seu filho Hélios e encerrou sua carreira com um poema chamado “Meu Menino” em homenagem ao filho.

Em 1979, recebeu o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pela publicação do volume de suas Poesias Completas.

Segundo Carlos Drummond de Andrade, “Gilka foi a primeira mulher nua da poesia brasileira”, escreveu em sua coluna no Jornal do Brasil, do dia 18 de dezembro de 1980, quando faleceu a poeta.

17888241_1263161910446632_2041924101_n.png Foto: Jornal do Brasil, 18 de dezembro de 1980, p.7.Fonte: Biblioteca Nacional Digital / Hemeroteca Digital

Para finalizar deixo a minha observação, a poeta Gilka Machado não era da elite, não foi criada em salões literários, mas sim no meio artístico. Sua condição social, inferior à de outras escritoras do mesmo período, contribuiu para ser rebaixada, mal vista e mal compreendida pela crítica da época, que julgava seus versos como pornográficos e pouco eruditos. Que teve a liberdade poética condicionada erroneamente como vivência e não pelo seu eu-lírico. Uma grande poeta que enfrentou o machismo, se fortaleceu com as críticas e merece, a cada dia, ser mais lida e valorizada em nossa poesia brasileira!

“E relembro todo o meu fatal passado, / de saudade enorme sinto-me possuída, / por um gozo estranho, nunca, pois gozado! / Que saudade enorme! – não do meu passado, / mas de uma outra vida, não por mim, vivida.” (Gilka Machado. Trecho do poema “Ao som de um sino”. In: Crystaes Partidos, 1915, p.90)

Livros publicados: Cristais Partidos (1915); A Revelação dos Perfumes (1916); Estados de Alma (1917); Poesias: 1915 - 1917 (1918); Mulher Nua (1922); Meu Glorioso Pecado (1928). Seus poemas foram publicados em outras obras como Carne e Alma (1931); Sublimação (1938); Meu Rosto (1947); Velha Poesia (1965) e Poesias Completas (1978 e em 1991).

Referências Bibliográficas:

ARAÚJO, Gilberto. A Literatura de autoria feminina – “Gilka Machado: corpo, verso e prosa”. Conferência proferida na ABL, em 10 de junho de 2014.

ELEUTÉRIO, Maria de Lourdes. Vidas de Romance: as mulheres e o exercício de ler e escrever no entresséculos (1890-1930). Rio de Janeiro: Topbooks, 2005.

COELHO, Nelly Novaes (2002). Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras 1711-2001. São Paulo: Escrituras Editora e Distribuidora de Livros.

GONÇALVES, Rosana. FLORBELA ESPANCA E GILKA MACHADO: LILITHS DA MODERNIDADE. FronteiraZ. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária. ISSN 1983-4373, [S.l.], n. 5, out. 2012. ISSN 1983-4373. Disponível em:

MACHADO, Gilka. Crystaes Partidos. Rio de Janeiro: Revista dos Tribunaes, 1915.

MACHADO, Gilka. Meu Glorioso Pecado: Amores que mentiram, que passaram. Rio de Janeiro: Almeida Torres & C., 1928.

MACHADO, Gilka. Mulher Nua. Rio de Janeiro: Jacintho Ribeiro dos Santos, 1922

MACHADO, Gilka. Poesias 1915-1917. Rio de Janeiro: Jacintho Ribeiro dos Santos, 1918

MACHADO, Gilka. Poesias Completas. Rio de Janeiro: Cátedra; Brasília: INL, 1978.

MAIA, Andréa C. N.; SANTIAGO, Ana Paula. Imagem, Memória e Sensibilidade: o corpo brasileiro na dança de Eros Volusia e nos desenhos de Rugendas e Debret. XXVI Simpósio Nacional de História da ANPUH, 2011, São Paulo. Anais do XXVI Simpósio Nacional – ANPUH. São Paulo: USP, 2011.


Adriana Caló

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