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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Sophia de Mello Breyner Andresen: entre o Jardim e o Mar

"Quando eu morrer voltarei para buscar, os instantes que não vivi junto do mar."

Em 06 de novembro de 1919 nascia uma das mais importantes poetas de Portugal e primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões de literatura.


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Sophia de Mello Breyner nasceu em 6 de novembro de 1919, na cidade do Porto, Portugal. Filha de João Herique Andresen e Maria Amélia de Mello Breyner, membros da aristocracia portuguesa. Sua mãe era filha de Tomás de Mello Breyner, conde de Mafra, e neta de Henrique Burnay, de uma família belga radicada em Portugal, e futuro conde de Burnay. Já a família paterna era de origem dinamarquesa. O seu avô, Jan Eenrik Andresen, desembarcou um dia no Porto e não mais saiu dessa região.

23336115_1449230341839787_1568423206_o.jpg Disponível no site da Biblioteca Nacional de Portugal

Sophia passou sua infância entre o Porto e a praia da Granja. Em 1895, seu pai, João Henrique Andresen adquiriu a Quinta do Campo Alegre, que continuou a construção da casa e do jardim, local de grande refúgio e inspiração para Sophia, não é por acaso que seus primeiros versos são voltados à natureza, e permaneceu na posse da sua família até 1949, data em que se verificou a venda ao Estado Português e hoje é o Jardim Botânico do Porto.

rosas.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In: Dia do Mar, 1947 Iniciou os estudos em Filosofia Clássica na Universidade de Lisboa, entre 1936 e 1939, mas não concluiu.

“Era uma pessoa extremamente rebelde e muito independente. Gostava de ter sua própria cultura, de ser autodidata e sempre a ouvir dizer que as pessoas com quem ela aprendeu mais foi a mãe e foi o avô.” (depoimento da filha, Maria Andresen de Sousa Tavares, no documentário “O Nome das Coisas”)

deser.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In:Livro Sexto, 1962

Em 1944 publicou seu primeiro livro, “Poesia”.

mar.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In: Poesia, 1944

Em 27 de novembro de 1946 casou-se com Francisco de Sousa Tavares. E mudaram-se para Lisboa e desse casamento, nasceram cinco filhos, Maria, Isabel, Miguel, Sofia e Xavier.

areia.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In:No Tempo Dividido, 1954

Sua poesia no início remetia à natureza, Sophia gostava de se inspirar em coisas concretas. “A inspiração dela vinha da observação sobretudo, de ver as coisas, de ver a realidade. A ideia para ela era uma coisa muito concreta, que estava provada. Que se podia provar, como o cheiro." (trechos de depoimentos no documentário "O nome das Coisas")

mapa.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In: Navegações, 1983 Começou a escrever livros infantis por causa dos filhos, por não gostar muito das histórias que já haviam. “E a fábula é a forma mais eficaz de escrever, de mostrar a realidade às crianças” (palavras de Sophia no arquivo RTP presentes documentário “O nome das coisas”)

Em sua casa sempre haviam muitos convidados, familiares e intelectuais, discutia-se entre tantos assuntos sobre política. Segundo Sophia: “É a poesia que desaliena, que funda a desalienação, que estabelece a relação inteira do homem consigo próprio, com os outros, e com a vida, com o mundo e com as coisas”

Mesmo vivendo em um sociedade patriarcal, Sophia possuíam a visão à frente de seu tempo sobre as condições retrógradas que lhes eram impostas. Nesta época a mulher não podia se firmar politicamente, mesmo assim Sophia defendia seus ideais de liberdade e justiça. Em oposição ao Estado Novo, comemorou a Revolução de 25 de Abril de 1974, Revolução dos Cravos.

23435456_1449075795188575_1505099345_n.jpg Manuscrito da poesias 25 de Abril e Revolução. Disponível no site da Biblioteca Nacional de Portugal

25.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In: “O Nome das Coisas”, 1977

Pertenceu à equipe de fundadores da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e, em 1975, foi eleita deputada pelo Partido Socialista à Assembleia Constituinte, pelo círculo do Porto.

Poema “Esta Gente”,

esta gente.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In: "Geografia", 1967

Mas, com o passar do tempo a decepção com a política foi maior e se afastou desse cenário.

23335919_1449195178509970_1005877769_o.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In:Correspondência Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena. Imagem do documentário "O Nome das Coisas"

Quando questionada em entrevista, por Miguel Serras Pereira, sobre sua retirada da política Sophia responde:

“Devo dizer que, logo a seguir ao 25 de Abril e mesmo antes, eu falei muito do lugar do poeta na cidade do homem e pensei que tinha uma certa obrigação de participação. Hoje em dia o meu desejo profundo é um desejo de marginalização para poder fazer o que posso fazer. Aliás, quando estava na Assembleia Constituinte tive uma experiência importante. Saí um dia mais cedo e atravessei o Bairro Alto a pé. Na rua havia um pequeno grupo de crianças a brincar na soleira de uma porta. E chamaram-me e perguntaram se eu era a Sophia de Mello Breyner Andresen. Eu disse que sim, mas como é que elas sabiam? Elas responderam que a professora estava a ler uma história minha na aula e tinham visto um retrato meu. Fiquei a conversar com as crianças — e pensei, de repente, que escrever era a minha verdadeira participação política.” (In JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, n.º 135, 5 a 11 de Fevereiro, 1985.)

Obras: Poesia: POESIA, DIA DO MAR, CORAL, NO TEMPO DIVIDIDO, MAR NOVO, O CRISTO CIGANO, LIVRO SEXTO, GEOGRAFIA, ANTOLOGIA, GRADES , 11 POEMAS, POEMAS DE UM LIVRO DESTRUÍDO, DUAL, O NOME DAS COISAS, NAVEGAÇÕES, ILHAS, SINGRADURAS, MUSA, O BÚZIO DE CÓS E OUTROS POEMAS, MAR e ORPHEU E EURYDICE.

Prosa: CONTOS EXEMPLARES, OS TRÊS REIS DO ORIENTE, A CASA DO MAR, HISTÓRIAS DA TERRA E DO MAR, ERA UMA VEZ UMA PRAIA ATLÂNTICA, O ANJO DE TIMOR e QUATRO CONTOS DISPERSOS. Infantil: A MENINA DO MAR, A FADA ORIANA, A NOITE DE NATAL, O CAVALEIRO DA DINAMARCA, O RAPAZ DE BRONZE, A FLORESTA, A ÁRVORE e OS CIGANOS.

Além destes, Sophia também escreveu peças de teatro, ensaios, artigos, organizou antologias e fez algumas traduções.

Recebeu inúmeros prêmios, eis alguns:

1981 Grau de Grã Oficial da Ordem de Sant'iago da Espada; 1990 Grande Prémio de Poesia Inasset / Inapa; 1992 Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças; 1995 Placa de Honra do Prémio Francesco Petrarca, Pádua, Itália; 1998 Grã Cruz da Ordem de Sant'iago da Espada; 1999 Prémio Camões 2001 Prémio Max Jacob Étranger; 2003 Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana.

É preciso destacar que foi a primeira mulher portuguesa a receber o Prêmio Camões, em 1999, o maior prêmio literário da língua portuguesa.

23414204_1449075838521904_819357458_n.jpg via: Lusografias

Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu no dia 2 de julho de 2004, em Lisboa. Seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional precisamente a 2 de julho de 2014.

Meu intuito com este artigo foi fazer um breve apanhado sobre a vida de Sophia e mesclar com algumas de suas poesias. Poeta a qual admiro, que deve ser lembrada a cada dia por seu papel na sociedade portuguesa do seculo XX, por sua subversão ao patriarcalismo e, principalmente, que nos convida a uma viagem, seja por terra ou mar, em cada um de seus versos.

revol.jpg Sophia de Mello Breyner Andresen. In: O Nome das Coisas, 1977

Referências:

Documentário O Nome das Coisas, 2007. Produzido pela Panavídeo. Maravilhoso! Possui testemunhos de familiares, amigos e também estudiosos da poeta.

Curta-metragem lindíssimo e muito delicado chamado Sophia de Mello Breyner Andresen, produzido em 1969 por João César Monteiro, cineasta português. Retrata a obra poética da autora e ainda mostra um pouco de suas intimidades com seus familiares.

Biblioteca Nacional de Portugal - Seleção, conteúdos e organizado por Maria Andresen Sousa Tavares.


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
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