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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Emiliano Zapata e a Revolução Mexicana

"Se não há justiça para o povo, que não haja paz para o governo."
Zapata desempenhou importante papel na Revolução Mexicana e serviu de inspiração para os camponeses que lutavam a seu lado tornando-se símbolo da luta por justiça social e reforma agrária na América Latina.


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A Revolução Mexicana, iniciada em 1910, foi cenário de grandes conflitos e reivindicações por direitos contra a elite agrária que, apesar de uma crescente industrialização, predominava no México. Havia nesse período uma pequena burguesia, liderada por Francisco Ignacio Madero, que buscava impedir a reeleição do General Porfírio Díaz (que ficou no poder de 1876 a 1880 e de 1884 a 1911) e assumir o governo. Como Madero possuía fortes chances de vitória, Porfirio Díaz recorreu a fraude eleitoral, o que gerou a ira das grandes massas e impulsionou a Revolução Mexicana. Após a fraude eleitoral, em outubro Madero lançou o Plano de San Lui de Potosí, “que convoca o povo a pegar em armas ‘em 20 de novembro, a partir das seis da tarde’. (MEDINA, 2008, p.78). Contudo, no campo já ocorriam muitas insurreições indígenas e de camponeses por motivos agrários.

Caracterizada por ser um movimento armado, possuía entre seus líderes diversas correntes ideológicas, mas independentes, e a grande batalha desta foi em prol do movimento agrário que se deu graças ao exército do Sul, liderado por Emiliano Zapata.

migeneralzapata.jpg Arquivo fotográfico Casasola. Título original: "El jefe revolucionario Emiliano Zapata", 1916

Emiliano Zapata nasceu em 08 de agosto de 1879 na cidade San Miguel de Anenecuilco, no estado mexicano de Morelos. Filho de Gabriel Zapata e de Cleofas Salazar. Era um camponês diferente do habitual. Ele possuía instrução primária, já havia sido soldado, contra sua vontade, foi também tratador de cavalos no período em que viveu na cidade do México, portanto mesmo sendo um mestiço do campo teve muito contato com as tradições urbanas. Assim, pôde mesclar seu poder de discernimento e utilizar em sua posição política. Além disso, Otílio Montaño, que era um professor rural, foi também conselheiro de Zapata e lhe expôs as ideias anarquistas do russo Piotr Kropotkin e dos irmãos Magón.

O exército do Sul era predominantemente camponês, composto por habitantes do Estado de Morelos e seus arredores, sendo isto um fator decisivo na Revolução, pois esta cidade mesmo no século XX, ainda possuía características feudais, graças ao governo usurpador de Porfirio Díaz.

Haviam as haciendas (grandes fazendas) que se sobrepunham aos pueblos (organização política descentralizada) fazendo com que os indígenas, para conseguirem pagar seus os impostos governamentais, se tornassem peões que trabalhavam nas haciendas. Tudo para manter a máquina estatal porfirista. Assim, se concentrou uma vasta mão de obra, o que propiciou a criação de engenhos de açúcar, já que a terra assegurava esse desenvolvimento. Com o avanço das haciendas sobre as terras comunais, muitas tensões ocorriam e como não havia o conhecimento sobre greves, os indígenas partiam para as rebeliões rurais, forma de luta que conheciam.

O exército tinha como programa revolucionário o Plano Ayala, que visava a restituição das terras comunais dos pueblos, expropriados durante o governo de Díaz. Os pontos de defesa deste Plano eram: “a) os pueblos ou cidadãos que possuíssem os documentos de terras expropriadas pelos fazendeiros tomariam imediatamente a posse delas e as manteriam de armas em punho até o final da revolução; b) expropriação de um terço das terras e propriedades dos grandes latifúndios, mediante pagamento de indenização, a fim de que os povos e cidadãos do México pudessem trabalhar nelas; c) nacionalização da totalidade dos bens dos grandes fazendeiros, científicos ou caciques políticos que se opunham direta ou indiretamente ao plano.” (BARBOSA, 2010, p.65-66). O Plano tratava enfim, da questão da terra usurpada que estavam sob domínio do capitalismo mexicano.

O exército zapatista possuía vinculação com a tradição camponesa regional, pois o objetivo era o mesmo, recuperação de terras roubadas. Assim obtiveram apoio comunitário. É de grande importância destacar que havia outra ala camponesa, situada ao Norte, liderada por Francisco “Pancho” Villa, que dentre seus objetivos pretendiam colocar em prática a reforma agrária e confiscar as terras dos grandes fazendeiros, mas estes não construíram um movimento uniforme como no Sul. “O movimento de “Pancho” Villa não possuía formas de mobilização e bandeiras políticas tão claras como o do Sul, o que dificultou a elaboração de um programa político de reformas sociais mais claras. Ainda no Norte formaram-se outros movimentos revolucionários advindos de forças heterogêneas, que no futuro dariam origem a uma nova elite revolucionária.” (BARBOSA, 2010, p.66)

FT_2006_01_004_05.jpg Arquivo fotográfico Casasola. Titulo original : "Francisco Villa y Emiliano Zapata en el Palacio Nacional, México D.F.", 1914

É importante destacar que: "a luta na Revolução Mexicana enveredou para uma guerra camponesa e os operários não se uniram aos camponeses. Zapata chegou a convidar a Junta Organizadora do PLM para ir a Morelos, mas Ricardo Flores Magón não aceitou." (BARBOSA, 2010, p.64)

Em 1911, o exército federal foi derrotado, Porfírio Díaz renunciou, graças as intervenções dos exércitos zapatista, villistas e outros revolucionários. Assim, o povo elege Francisco Madero como novo presidente. No entanto, Madero não cumpriu com os desejos dos revolucionários e suas causas, e foi atacado fortemente pela esquerda zapatista, pelos magonistas e também sofreu oposição de grupos remanescentes do porfirismo.

"Yo estoy resuelto a luchar contra todo y contra todos sin más baluarte que la confianza y el apoyo de mi pueblo" - Emiliano Zapata, em 6 de dezembro de 1911 em carta ao Coronel Gildardo Magaña.

Isso fez com que Madero sofresse um golpe de Estado e, por fim, foi assassinado pelo general Victoriano Huerta, que instalou novamente a ditadura no México. Com isso, novos movimentos revolucionários foram organizados contra Huerta, que renunciou em 1914.

O período mais radical da revolução foi entre agosto de 1914 e 1916, onde ocorreu a fragmentação das forças revolucionárias e havia também, uma intensa disputa pela escolha do regime que deveriam adotar, que só foi concluído com a realização da Constituinte no final de 1916. Neste contexto, Venustiano Carranza foi eleito presidente (1917-1920). Assim, a Constituição de 1917 foi aprovada no dia 31 de janeiro de 1917. Dentre seus artigos buscava-se a reforma agrária, liberdades individuais, direitos trabalhistas, eliminação da participação religiosa na educação, desmercantilização do trabalho, entre outros. Porém, Carranza não colocou em prática a Constituição e mostrou todo seu conservadorismo. Com isso, não teve apoio dos revolucionários que se mantiveram, apesar do desgaste, em situação de luta.

Em 10 de abril de 1919 Zapata caiu em uma emboscada, armada por Pablo González (oficial que foi vencido pelos zapatistas em batalha), e foi morto alvejado por tiros de rifles. “O corpo de Zapata foi exposto em Cuautla, para que todos os moradores ficassem convencidos de sua morte; apesar disso, os camponeses de Morelos mantiveram seu líder vivo: morta a pessoa real, começou a lenda.” (MEDINA,2008, p.142)

1482199810_385787_1482203816_sumario_normal.jpg Arquivo fotográfico Casasola. Título original: "El cadáver de Emiliano Zapata es exhibido en Cuautla", 1919

Após sua morte, a ala zapatista, encabeçada por Gildardo Magaña, se impõe, mas era bem mais moderada e em novembro assina a rendição com Carranza. Zapata desempenhou importante papel na Revolução Mexicana e serviu de inspiração para os camponeses que lutavam a seu lado tornando-se símbolo da luta por justiça social e reforma agrária na América Latina. “Deve-se aos camponeses indígenas e mestiços de (Emiliano) Zapata, mais do que a qualquer grupo revolucionário, a orientação fundamentalmente agrária da Revolução Mexicana” (BARBOSA: 2010, p.79)

Para concluir, sabemos que no início do século XX no plano mundial, ao longo dos primeiros anos da década de 1910, enquanto os demais movimentos revolucionários se inclinavam à política, no México temos o marco efervescente do povo pelo povo, uma revolução social, com base agrária. Porém, não podemos esquecer que a Revolução também se deu pelo monopólio político e econômico da oligarquia comandada por Porfírio Díaz.

Referências Bibliográficas:

BARBOSA, Carlos Alberto Sampaio. A Revolução Mexicana. São Paulo: Editora UNESP, 2010.

MEDINA, Rafael Alarcón. Desenvolvimento.In: BUSTOS, Rodolfo Bórquez; LOZA, Marco Antonio Basílio (Orgs). Revolução Mexicana: Antecedentes, desenvolvimento e consequências. São Paulo: Expressão Popular, 2008

Acervo Casasola


Adriana Caló

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