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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Jeanne Duval: A Vênus Negra de Charles Baudelaire

Poemas de Charles Baudelaire, um dos maiores poetas francês do século XIX, dedicados à “amante das amantes”, sua Vênus Negra - Jeanne Duval.


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Autor: Charles Baudelaire

Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867) um dos maiores poetas francês do século XIX, tradutor, ensaísta e crítico de arte, teve uma vida agitada entre a boemia e a “subversão” ao ideal de moral e os bons costumes de sua época. Além disso, teve muitos amores, mas um em especial que o acompanhou, entre rompimentos e reconciliações, por vinte anos a qual dedicou uma série de poemas, a que ele considerava a “amante das amantes”, sua "Vênus Negra", chamava-se Jeanne Duval.

Em 1842, na primavera desse ano, Baudelaire se apaixona por “Jeanne Lemmer, dita Jeanne Prosper, dita afinal Jeanne Duval, mulata bem apessoada que o poeta conheceu em companhia de Félix Tournachon, dito Nadar, durante uma récita no Théâtre du Panthéon. Essa paixão, que não foi apenas de caráter carnal, durou toda a vida do poeta e a ela se devem alguns dos mais belos versos de amor de As flores do mal.” (JUNQUEIRA, 2012)

Sobre a biografia de Jeanne existem muitas controvérsias, sabe-se que é caribenha, não é constatada a data exata de sua chegada à Paris, por tempos foi dito que ela era uma atriz, depois que era na realidade uma prostituta, seu sobrenome pode ter sido outros e até sobre sua morte existem dúvidas, mas o que é constatado que a "Vênus Negra" foi o grande amor de Baudelaire, apesar da busca constante do poeta em preencher seu vazio existencial.

“Jeanne Duval era uma mulata que trabalhava como figurante num pequeno teatro. A “Vénus noire” exerceu um poder tirânico sobre os sentidos do poeta. No plano intelectual, no entanto, a Vênus não parece ter se afastado muito daquele rebanho de estúpidas que a misoginia do poeta tanto desprezava (ou temia). Jeanne Duval representa o polo carnal do poeta. Entre rupturas e reencontros, tempestades e êxtases, o poeta nunca se afastou dela.” (KUNZ, 1997)

Não há registros fotográficos de Jeanne, apenas desenhos, como o que Baudelaire fez de sua musa, dentre eles o que abre esse artigo, e pinturas:

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Édouard Manet “Lady with a Fan”, 1862 - Museum of Fine Arts Budapest

Jeanne Duval também aparece no famoso quadro “O Ateliê do Artista” (1854-1855), do pintor Gustave Courbet.

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No canto à nossa direita, Coubert retratou Baudelaire lendo um livro e ao lado, olhando-se no espelho está Jeanne. Não é possível de identifica-la facilmente, pois Baudelaire, entre uma separação e outra da amante, havia pedido para Coubert apagar seu retrato da pintura.

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Alguns poemas de Baudelaire inspirados em Jeanne, presentes no livro “As Flores do Mal”:

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“Os poemas de inspiração amorosa constituem um conjunto coerente e numeroso na obra do poeta, mais da metade do capítulo intitulado Spleen et Ideal. É nesses versos que a vida íntima do poeta manifesta melhor a sua presença. (...) Os ciclos geralmente identificados pelos estudiosos organizam-se da maneira seguinte: O ciclo de Jeanne Duval (de Parfum Exotique a Je te donne ces vers... - XXII a XXXIX)” (KUNZ, 1997)

No periódico “Andorinha”, da cidade de Campinas –SP, encontramos um poema que foi traduzido em 1929 para o mesmo, dedicado à Duval:

“Que admirável dia! / O vasto parque desmaia ante o olhar abrasador do sol, como a juventude sob o domínio do Amor... / O êxtase universal das coisas não se expressa por ruído algum. As mesmas águas estão como que adormecidas. Muito diferente das festas humanas, esta é uma orgia silenciosa... / Dir-se-ia que uma luz, sempre em aumento, dá ás coisas uma cintilação cada vez maior; que as flores, excitadas, ardem em desejos de rivalizar com o azul do céu pelo vivo de suas cores, e que o calor, tornando visíveis os perfumes, os levanta até; ao sol como sinuosa fumarada. / E entre o gozo universal eu entrevejo um ente aflito./ Aos pés duma Vénus gigante, um louco artificial, um desses truões voluntários que se encarregam de fazer rir aos reis quando o remorso ou o fastio os aferrolha, adornado com um traje brilhante e ridículo, com toucado de cornos e cascavéis, acocorado junto ao pedestal, levanta os olhos rasos de lágrimas à imortal deusa./ E dizem seus olhos: - Sou o último, o mais solitário dos seres humanos, privado de amor e de amizade. Sou inferior em muito ao animal mais imperfeito ... E apesar de tudo, feito está o meu coração, como os demais corações, para compreender e sentir a imortal beleza ... Tende piedade, pois , oh deusa, da minha tristeza... do meu delírio !... / Mas a Vénus, implacável, olha não sei o que ao longe com seus olhos de mármore branco, muito branco ...” (Tradução: JULIO MARIANO)

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Periódico “Andorinha”,1929

Em 1859 Jeanne Duval foi internada na Clínica Dubois e sofre uma paralisia, devido a sífilis que ela havia contraído. Há registros que apontam que sua morte foi em 1862, mas não há nada comprovado. Além disso, foi nesta época que um suposto irmão de Jeanne Duval passou a viver à custas deles e, neste mesmo ano, o poeta “descobre um “fato monstruoso” que o deixa ainda mais doente (talvez a constatação de que o pretenso irmão de Jeanne Duval nada mais fosse do que um de seus antigos amantes).” (JUNQUEIRA) Ainda, segundo Junqueira, em 1870 “Nadar avista Jeanne Duval nas ruas de Paris. Ela se arrasta apoiada em muletas.”

Pode haver muitas histórias por trás da verdadeira biografia da "Vênus Negra", mas o que de fato quis trazer neste artigo foi um pouco de sua história, de seu papel inspirador na vida do grande poeta, bem como alguns brilhantes e apaixonados poemas que Baudelaire dedicou à sua “amante das amantes”.

"O passado é interessante não somente pela beleza que dele souberam extrair os artistas para quem ele era o presente, mas também como passado, pelo seu valor histórico. O mesmo ocorre com o presente. O prazer que obtemos com a representação do presente deve-se não apenas à beleza de que ele pode estar revestido, mas também à sua qualidade essencial de presente." (Charles Baudelaire)

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Autor: Charles Baudelaire

Referências Bibliográficas

ANDORINHA. Campinas, SP: [s.n.], [1929]. il. col. papel couché ; 28 x 21. Disponível em: . Acesso em: 27 abr. 2018. Disponível em: . Acesso em: 27 abr. 2018.

Baudelaire, Charles. “As flores do mal”. Trad. Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

KUNZ, Martine. “Baudelaire, La Femme et L´Amour”. Revista de Letras V.1, n.19. 1997


Adriana Caló

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