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Devaneios e reflexões com um leve toque de poesia

Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística!

Oblómov de Ivan Gontcharóv - Frases marcantes

Oblómov é um livro excelente! Escrito no século XIX, mas que ainda retrata a situação de pessoas que tem falta de espírito prático, que esquecem de si, de seus sonhos, desejos, de lutar por seus ideais, pelo simples fato de procrastinar.

Por gostar muito desta obra, resolvi fazer esse artigo e compartilhar com vocês algumas frases que foram marcantes em minha leitura.


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O livro de Ivan Gontcharóv, escrito em um longo período, foi publicado em 1859, dois anos antes da abolição da servidão na Rússia, mas dez anos antes o autor já havia divulgado um fragmento, em 1849, “O sonho de Oblómov” em uma revista.

Oblómov é um livro excelente, completo e apesar de algumas páginas de marasmo, tem lá suas reviravoltas. Ele retrata o cotidiano da sociedade russa em meio à modernidade, porém com um protagonista procrastinador e que não acompanha a agitação deste momento.

Não é minha intenção fazer uma resenha, mesmo porque esse livro merece ser lido por inteiro, não é daqueles à ser subjugado por resumos. Irei explanar brevemente o enredo da obra, sem maiores detalhes para não dar spoiler, a fim de destacar as frases mais marcantes que servem para reflexão. Li a edição de 2012 , da editora Cosac Naify, traduzida direto do russo por Rubens Figueiredo.

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O protagonista Iliá Ilitch Oblómov, que inicia o livro por volta dos 32 anos, é um aristocrata herdeiro de uma grande propriedade e vive das rendas desta. Não tinha nenhuma pretensão de ascensão e com o passar do tempo tornou-se cada vez mais preguiçoso, tinha uma imaginação admirável, fazia inúmeros planos, mas não coloca nenhum em prática. Era “estatura mediana, aspecto simpático, olhos cinzentos e escuros, mas com o rosto privado de qualquer ideia definida e sem nenhum traço de concentração. O pensamento, como um pássaro solto, vagava pelo rosto, voava sobre os olhos, pousava nos lábios entreabertos, escondia-se nas rugas da testa, depois desaparecia por completo, e então em todo seu rosto cintilava a luz neutra da indiferença." (p.17)

Oblómov mal saia do quarto, vivia de roupão e revezava entre deitar na cama e na poltrona. Recebia visitas, sempre no quarto, a partir daí conhecemos outras personagens e são essas visitas que levam um pouco de vida ao protagonista, que o faz refletir e nos instigar. Dentre as visitas que recebia a de Andrei Stolz, seu amigo de descendência alemã e russa, que tinha uma vida muito agitada, cheia de novidades e aventuras, totalmente seu oposto, modificou a rotina de Oblomóv ao retirá-lo daquela vida que levava e apresenta-lo para sua amiga Olga Ilínskaia. Ai surge um romance, cheio de emoções e descobertas para ambos, porém a procrastinação e o medo ocupam mais espaço que o amor. Essa passagem é essencial para o enredo do livro. São nesses ínterins que podemos fazer as maiores reflexões psicológicas sobre sentimentos e existencialismo presentes na obra.

Os anos passam e Oblomóv vai do auge a decadência, em diversos aspectos. Muda de casa, conhece outras pessoas, entre elas a viúva Agáfia Matviévna, que cuidará dele e da situação em que se submeteu, devido aos seus planos nunca cumpridos. Até que mais uma vez é salvo pelo amigo Stolz, mas somente no quesito financeiro, pois de resto Oblomóv estava entregue à sua condição do “oblomovismo”.

Dos temas reflexivos encontrados no livro: procrastinação (claro!), desigualdades sociais, medos, amor, negação ao amor, inseguranças, existencialismo e, um tema criado a partir deste romance, oblomovismo. Quero destacar também o papel da mulher neste livro. Como existem diversas camadas sociais, não dá para fazer um comparativo simplório entre elas, porém é necessário salientar Olga. Essa personagem tem um destaque especial, entre as outras mulheres que surgem no romance, porque ela cresce na história e devido a sua curiosidade, sua vontade em aprender e viver, sai um pouco do parâmetro idealizado na época de esposa-mãe-dona de casa, apesar de ser, ela não se torna submissa à essa condição.

No meu ponto de vista, é um livro maravilhoso, li há algum tempo e é inesquecível com mais de setecentas páginas repletas de reflexões. Escrito no século XIX, mas que ainda retrata a situação de pessoas que tem falta de espírito prático, que esquecem de si, de seus sonhos, desejos, de lutar por seus ideais, pelo simples fato de procrastinar.

Por gostar muito desta obra, resolvi fazer esse artigo e compartilhar com vocês algumas frases que foram marcantes em minha leitura.

Frases:

"O senhor acha que, para os pensamentos, não é necessário o coração? Não, a vida frutifica com o amor. Estenda a mão para a pessoa caída, para que ela se levante, ou chore amargamente por ela, se pereceu, mas não zombe. Ame, lembre que ela é como o senhor, trate essa pessoa como se ela fosse a si mesmo." (p.48)

“Oblomóv leu em algum lugar que só os vapores da manhã eram benéficos e que os do início da noite eram nocivos, e assim passou a temer a umidade. (...) Além de tudo isso, com os anos, voltou a Oblómov certa timidez infantil, uma expectativa de perigo e maldade em tudo aquilo que não pertencia à esfera da sua existência cotidiana – consequência do afastamento dos variados acontecimentos exteriores.” (p.92)

“No meio de uma multidão, sentia falta de ar; num barco, ficava na expectativa nervosa de chegar logo e a salvo à outra margem; numa carruagem, achava que os cavalos iam disparar e tombar o veículo. De tempos em tempos tinha um ataque nervoso: apavorava-se com o silencio à sua volta, ou simplesmente, nem sabia por quê, arrepios percorriam seu corpo.” (p.93)

“Tendo deixado para trás o serviço público e a vida social, ele começou a resolver a questão da existência de outra forma, refletia sobre seu papel na vida e, por fim, descobriu que seu horizonte de atividade e de existência tinha se encontrado dentro dele mesmo.” (p.97)

“Como era terrível para ele quando surgia de repente em seu espírito a imagem viva e clara do destino humano e de seu significado, e quando entrevia num lampejo um paralelo entre aquele significado e sua própria vida, quando dentro de sua cabeça se derramavam, umas sobre as outras, várias questões vitais, e rodavam, em desordem, de modo atemorizante, como pássaros despertados por um raio repentino de sol, numa ruína adormecida." (p.142-143)

“Só Deus sabe se a natureza desse recanto de paz agradaria a um poeta ou a um sonhador. Esses senhores, como se sabe, amam contemplar a lua e escutar o canto dos rouxinóis. Amam a lua sedutora, que se oculta por trás de uma nuvem cor de palha e que transparece misteriosamente através dos ramos das árvores, ou que crava feixes de raios prateados nos olhos de seus adoradores.” (p.150)

“O homem fraco se desnorteava, olhava a vida em volta com horror e procurava na sua imaginação a chave do mistério que o rodeava e de sua própria natureza. Talvez o sono, a eterna pasmaceira de uma vida apática, a ausência de movimento, de quaisquer temores reais, de aventura e de perigo obrigassem o homem a criar, no meio do mundo natural, um outro mundo quimérico, e a procurar nesse mundo orgias e diversões para a imaginação ociosa, ou explicações para as cadeias de circunstâncias rotineiras, ou então causa dos fenômenos fora dos próprios fenômenos.” (p.172)

“A alfabetização é prejudicial ao mujique: com instrução, ele na certa não vai querer mais puxar o arado...” (p.244)

“ – Então que é isso, para você? - Isso...( Stolz refletiu um pouco e procurou um modo de classificar aquela vida). É uma espécie de... oblomovismo – disse, afinal. (...) Fitou Stolz de modo estranho e fixo. - Então, o que é a vida ideal, na sua opinião? Por que não é um oblomovismo? – perguntou ele timidamente, sem entusiasmo. – Por acaso todos não procuram alcançar aquilo que eu sonho? Queira me perdoar! – acrescentou com mais coragem. – Mas o o objetivo de todas as correrias, paixões, guerras, negócios e políticas por acaso não é a obtenção da tranquilidade? O motivo não é a aspiração desse ideal perdido?” (p.263)

“ O que ia fazer agora? Ir em frente ou ficar? Aquela pergunta oblomoviana era para ele mais profunda do que a de Hamlet. Ir em frente – isso significava retirar subitamente o roupão folgado não só dos ombros, mas da própria alma e da mente; tirar o pó e as teias de aranha não só das paredes, mas também dos olhos, e voltar a enxergar!" (p.271)

"Paixão! Tudo isso é bonito nos versos e no palco, onde atores perambulam em capas, com punhais, e depois assassinos e assassinados vão juntos jantar... Seria bom se as paixões também terminassem assim, mas depois delas restam a fumaça, o mau cheiro - mas não a felicidade! As recordações só dão motivo para vergonha e para puxar os cabelos. Enfim, se a paixão é igual a uma infelicidade, então é o mesmo que se ver de repente numa estrada precária, montanhosa, inóspita, na qual até os cavalos caem e o cavaleiro desanima, mas de onde já se avista o povoado nativo: não se deve perdê-lo de vista e é preciso deixar para trás, o mais depressa possível, o trecho perigoso..." (p.296)

“Para aquela mulher, antes de tudo vinha a capacidade de viver, de ser senhora de si, de manter em equilíbrio o pensamento e a intenção, a intenção e a execução.” (p.319)

“ – Quando não sabemos para que vivemos, vivemos de qualquer jeito, um dia depois do outro; ficamos contentes porque o dia terminou, porque a noite terminou, a até no sono sou engolido pela maçante questão de saber para que vivi aquele dia e para que vou viver o dia seguinte.” (p.338)

“A flor da vida murchou, só restaram os espinhos.” (p.339)

“A vida de Olga se enchera de modo muito discreto e imperceptível para todos, ela vivia em sua nova esfera sem despertar atenção, sem arroubos e sem preocupações. Fazia o mesmo que antes, para todos os outros, mas fazia tudo de outro modo. Ela ia ao teatro francês, mas o conteúdo da peça tinha alguma relação com sua vida; lia um livro, e no livro havia necessariamente linhas com faíscas de sua inteligência, aqui e ali cintilava o fogo de seus sentimentos, estavam registradas palavras que Olga dissera no dia anterior, como se o autor escutasse como agora batia seu coração.” (p.341)

“Eles não mentiam para si mesmos, nem um para o outro; exprimiam o que o coração dizia, e sua voz passava através da imaginação.” (p.355)

“Adeus anjo, voe para longe e bem depressa, como um passarinho assustado voa de um ramo onde pousou por engano, voa tão leve, audaz e alegre como ele, desse ramo em que a senhora pousou acidentalmente.” (p.365)

“ – Você duvida de meu amor? – exclamou Oblómov com veemência – Pensa que eu me demoro por medo, por mim mesmo, e não por você? Então eu não protejo seu nome como uma muralha, não velo, como uma mãe, para que nenhum mexerico se atreva a tocar em você? (...) - Você não sabe o que essas paixões e preocupações custaram à minha saúde! – prosseguiu ele – Não tenho outro pensamento desde que conheci você... Sim, e agora repito você é meu propósito, você e só você.” (p.506)

“Escute, Iliá – disse ela - , acredito no seu amor e em meu poder sobre você. Para que você me assusta com a sua indecisão e me provoca dúvidas? Eu sou o seu propósito na vida, você diz, mas você caminha nessa direção com muita timidez e lentidão; e ainda tem um longo trajeto para percorrer; precisa subir mais alto do que eu. É isso que eu espero de você.” (p.507)

“Aos poucos, com as agruras dos caminhos, ou a pessoa se esgota e se torna submissa ao destino – e então o organismo, lentamente e de forma gradual, retoma todas as suas funções; ou o desgosto esmaga a pessoa e ela não se ergue mais; depende do desgosto, e também da pessoa.” (p.536)

“É o preço do fogo de Prometeu! Não basta sofrer, é preciso também amar essa tristeza e respeitar as dúvidas e as perguntas: elas são um excedente, um luxo da vida e surgem sobretudo no auge da felicidade, quando não existem mais desejos vulgares; elas não nascem na vida cotidiana: onde há penúrias e sofrimentos, as multidões passam e ignoram essa névoa de dúvidas, essa angústia de questionamentos... Mas para quem as encontra no momento oportuno, elas não são um tormento, mas visitantes cordiais.” (p.662)

“Eis a filosofia elaborada pelo Platão de Oblómovka e que o acalentava em meio às questões e às rigorosas exigências do dever e da posição social! Ele não nascera e nem fora criado como um gladiador para lutar na arena, mas como um pacífico espectador do combate; sua alma tímida e preguiçosa não suportaria nem as inquietações da felicidade, nem os golpes da vida – por conseguinte ele exprimia em si mesmo só uma pequena parte dela, e tentar obter ou mudar alguma coisa, ou arrepender-se, não fazia nenhum sentido.” (p.681)

“(...) tinha uma alma pura e clara, como cristal; nobre, gentil...e desperdiçou a vida!” (p.707)

Ivan_Goncharov.jpg Sobre o autor: Ivan Gontcharóv nasceu no ano de 1812 em Simbirsk (hoje Uliánovsk), em uma família de comerciantes abastados. Estudou em Moscou e se tornou funcionário público, exerceu a profissão por 32 anos. Não era muito sociável, não se casou. Morreu em São Petersburgo em 1891. Obras publicadas: Obiknoviénnaia istória (Uma História Comum), em 1847; Obriv (O Precipício), em 1869; Fregat Pallada (A fragata Pallas), em 1858, além de artigos de crítica e de memórias para jornais. Anos antes de sua morte, queimou obras inéditas.


Adriana Caló

Reflexiva sobre a vida e as ações cotidianas. Curiosa e intuitiva, rabisca poesias, brinca com pincéis e tintas. Amadora por natureza com uma marcante característica: Liberdade Artística! .
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