complexo de morfeu

Arte como morfina

Jéssica Carvalho

O chamado selvagem de Eddie Vedder

Um timbre telúrico. Um uivo. A voz de Eddie Vedder é aquele som de oco de árvore ou eco de cachoeira.
Ouvi-lo cantar não é apenas música de fundo ou animação de festa. É aquele chamado para (retornarmos) a nossa natureza.


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Ao assistir o filme "Na natureza selvagem" ou "Into the wild", não conseguimos imaginar trilha sonora mais compatível que uma confeccionada inteiramente por Eddie Vedder.

O filme é uma adaptação de uma história real em que o personagem principal, Christopher McCandless, exaurido pela monotonia de uma vida cheia de paradigmas pré fabricados, resolve ir em busca de uma jornada.

Essa jornada embute a ideia de conectar-se a natureza e, consequentemente, a si mesmo. Trata-se de resgatar aquele "eu" perdido entre tantas opiniões e palpites alheios.

O filme é permeado pela sonoridade inebriante das músicas de Eddie Vedder, que incita a liberdade e que ecoa a imensidão do mundo e a nossa pequenez. Somos levados a uma sublimação mental e - por que não?- espiritual.

O mundo fica diferente após as lentes que este filme nos incute e pelo balanço das notas suaves e alegres que Eddie Vedder costurou em cada paisagem do longa.

Destaco especial atenção a música "Society". Ela frisa o ritmo insano da sociedade de querer sempre mais o que se tem e o músico pede desculpas por não concordar com esse ritmo. Ressalte-se, ainda, que o cantor chega a criticar quem também tenta impor que "menos é mais", porque, neste caso, ele aponta a soberba de quem acredita "pontuar" mais que o outro em algum tipo de "escala universal de felicidade".

Sendo assim, o filme destaca importantes questões: Por que você consome o que você consome? Quem dita o que é necessário para sua vida ser feliz? Você é feliz? O quanto você precisa para ser feliz? Que vazios estamos tentando preencher?

A verdade é que, em meio a tantas opções de coisas materiais, estilos de vida, profissões e etc. nos vemos perdidos no meio do caminho, com várias curvas e bifurcações, na busca de se definir ou se assemelhar com uma dessas inúmeras escolhas. Mas, se pararmos para perceber, todos nós, quando podemos, investimos em viagens ou retiros. Essa é a necessidade intrínseca do ser humano. Esse contato, mesmo que fulgaz com a natureza e com a sua própria natureza.

Quando se lava o rosto em uma cachoeira ou se doira no sol, não existe melhor maquiagem. Quando andamos na areia não existe sapatos de salto alto chique o suficiente. Quanto se sente o vento acariciando os cabelos, não existe o mais potente secador de cabelo.

Nada obsta amar o conforto que nós conquistamos. Mas o amor precisa ser real. É necessário estar realizado e saber apreciar a nossa solitária e única jornada. Saber que aquilo que temos é o que precisamos, nem mais, nem menos. E isso também não significa deixar de querer conquistar novas coisas, ou até mudar de ideia!

Desta forma, "Into the wild" e a voz (e conteúdo!!) de sábio conselheiro de Eddie Vedder nos ensina e nos "salva" de nossa própria confusão e embaraço. Nessa "raça louca" que é a sociedade, somos muitos para sermos o mesmo. Somos todos, mas somos únicos. Temos nosso próprio chamado. E nossa própria natureza. O uivo, o miado, o mugir, o pio. O chamado da nossa própria e intransmissível natureza selvagem.


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