Tico Menezes

A Melhor História Que Não Li

Sabe aquelas conversas que nos fazem questionar até onde os livros são ficção?


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“Eu tô aqui na livraria toda terça e quinta, rapaz. Tô aqui toda terça e quinta porque eram os dias em que eu e ela nos encontrávamos para almoçar ali no Bar do Tito e, logo depois, corríamos pra cá e ficávamos folheando diversos livros, tentando escolher dois para comprar no começo do mês, quando o salário caísse na conta, sabe? E quando a gente comprava os livros, levávamos o mês inteiro para lê-los. Trabalhamos muito, sabe? Ela com a floricultura, escrevendo pra revista nos fins de semana. Eu tocando nos barzinhos e fazendo umas corridinhas com o táxi. Mas olha como funcionava bem: Ela lia um e eu lia o outro, aí trocávamos e, quando os dois já tinham terminado, fazíamos um café da tarde com os restos dos potes de bolacha e os pacotinhos de chá que sobraram no fim do mês. Ela sempre começava pelo que tinha mais páginas e, quando trocávamos, eu tinha que correr contra o tempo para terminar o que ela já tinha lido. Tem sido assim desde que nos conhecemos na hora do almoço, numa tarde de quinta-feira em 1955. Eu de suspensório, ela de laço na cabeça e saia florida. Era a mais bonita do bairro, mas a rapaziada se intimidava porque ela tava sempre com um livro na mão.”

O senhor riu, arrumou a boina e tossiu umas três vezes. Pousou a mão no meu ombro e esticou o pescoço para ver o livro que eu carregava.

“Alexandre Dumas, hehehe. Um por todos e todos por um. Seria bom se as pessoas tivessem a disposição de ajudar o próximo e valorizassem as amizades como faziam os Três Mosqueteiros, né não?”

Assenti sorrindo.

“Eu e a véia éramos melhores amigos. Contávamos tudo um pro outro. Dos sonhos impossíveis, passando pelos medos mais profundos e até os detalhes nojentos de intimidade. Não era nojento coisa nenhuma, era lindo porque era nosso, sabe? Mas ela ficava tímida de falar, às vezes. Era engraçada minha esposa. Tão mulher, mas tão menina ao mesmo tempo, mesmo depois dos pés-de-galinha. Lia livros infantis e se emocionava, cantarolava marchinhas de carnaval enquanto temperava o bife, usava bobes no cabelo durante o dia inteiro porque queria estar bonita na hora de dormir, vê se pode...”

Ele coçou o pescoço de barba recém-feita, cheio de pequenos machucados, colocou um livro que estava fora da prateleira junto aos outros e me olhou como quem procura alguém que concorde em reprovar a falta de cuidado de alguns clientes que tiravam os livros dali e não os devolviam ao lugar certo.

“As coisas que escrevemos são pessoais demais, não são? As que a gente fala também, mas, vixe... Escrever é coisa de quem é muito do seguro de si mesmo. Digo, conseguir colocar em palavras o que pensa, o que foi vivido, o que sonha, o que se quer... Coisa que exige uma concentração enorme. Ser um contador de histórias não é fácil, as pessoas não se comovem do mesmo jeito. Cada um tem seu tempo de ler, não dá pra agradar moleques e véios, não. Demorei a entender que minha véia e eu éramos muito diferentes, apesar de sermos iguaizinhos em outros aspectos. Ela era uma contadora de histórias, eu sou só um tagarela. Ainda bem que aposentei a cachaça, senão você já tinha ido embora.”

Riu novamente. Meu sorriso foi silencioso, acompanhava seu raciocínio e seu entusiasmo. Ele olhou do relógio em seu pulso para mim.

“Sinto falta dela.”

O senhor ficou em silêncio e passou os dedos trêmulos por alguns livros na prateleira mais baixa.

“Me conta mais”, pedi. Seu olhar se iluminou, se encheu d’água e ele abriu um sorriso tímido.

“Você tem whatsapp?”, ele perguntou. Foi a pergunta que mais me surpreendeu naquela primeira semana de agosto. Não consegui não demonstrar surpresa. Ri e passei meu número para ele. Bigode branco, boina, gravata azul, suspensório segurando a calça xadrez, um smartphone simples no bolso e uma fala mansa e convidativa. Que combinação fascinante.

“Vou ter o maior prazer em te contar a história de como o amor pela literatura uniu duas pessoas simples e as apresentou a uma vida extraordinária. Mas agora, rapaz, me perdoe, preciso comprar dois livros para ler no mês e, pela primeira vez, vou ler o maior primeiro.”

E riu uma risada rouca de quem vê o lado bom até nos momentos mais difíceis. Ele caminhou pela livraria e eu o perdi de vista entre as prateleiras. Ele levava meu número de whatsapp e me deixava com a sensação de que, de vez em quando, as melhores histórias da livraria não estão à venda. Não comprei nenhum livro naquele dia.


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