Tico Menezes

Ainda Bem Que Eu Tô Perdido

Uma luz no fim do túnel das críticas diárias que recebemos de pessoas que pensam que sabem do que somos capazes.


Eu tô cansada de pensar com a cabeça dos outros, ou de aproveitar o pensamento das outras pessoas porque o pensamento já tava pronto, sabe?” (“Eu não Faço a Menor Ideia do que eu tô Fazendo com a Minha Vida”, filme sensacional de Matheus Souza)

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Há de se reconhecer que a cada nova geração, a vida em sociedade tem desenvolvido um pensamento mais comunitário em busca de comodidade e praticidade, encurtando a distância entre pessoas que se identificam, mas moram longe, entre sonhos que precisam de ajuda para se tornar realidade, entre alguns que pensam ser minoria e acabam descobrindo a felicidade de não estar sozinho. Aplicativos para se hospedar na casa de alguém, para alugar um carro sem precisar devolvê-lo a uma garagem, pedir comida para um grupo de pessoas, dividir livros, cinema, televisão e até roupas têm se popularizado, dando uma perspectiva de como esses negócios até então consolidados e enraizados na cultura da cidade grande, de uma hora para outra deixaram de ser a primeira opção.

A rodinha de cerveja para falar sobre futebol e a janta para falar de novela têm ficado para trás e isso é tão maravilhoso quanto assustador. Assustador porque o medo do desconhecido é inerente ao ser racional – estranho mesmo é não temer algo novo – e desafiar o que já é comum e “tem funcionado” por gerações exige coragem e ousadia. Maravilhoso porque cada vez mais temos visto discussões sem ofensa pessoal, sem banalização da vida humana, sem discursos repetidos, sem parâmetros ridículos de comparação, seja no facebook, no twitter, na mesa de almoço de domingo, no happy hour da sexta-feira, na cama do quarto após assistir um filme ou no banho, quando substituímos a cantoria por longos minutos de reflexão encarando o azulejo. Temos visto diálogo, não ofensa nem citações fora de contexto, apenas diálogo. Claro que ainda há muita besteira sendo dita, ainda há muita gente defendendo pontos de vista que nem são delas, não percebendo que elas são apenas massa de manobra de alguém muito mais babaca e com plena noção do quão fácil é manipular através de argumentos cômodos, simplesmente reiterando máximas imbecis do tipo “homem não chora.”, “você é menina, se comporte!”, “vai lavar uma louça.”, “quem é bonzinho só se fode!” e “vai trabalhar que passa”. Essas pessoas existem, esses pensamentos são reais e inibem muitos outros que poderiam ser grandiosos. Mas até então, tudo isso era verdade para nós também, jamais desafiaríamos a autoridade dos nossos pais ou avós, mas aqui estamos, escrevendo artigos sobre a felicidade de fazer parte de uma geração que pensa no próximo ao pensar por si mesma.

É bom que haja a discordância, é bom que haja a discussão e que todos se sintam livres para opinar em qualquer que seja o meio, isso se chama democracia. É na democracia que é permitido ouvir uma opinião diferente e refletir sobre ela, repensar o que te fez defender seu ponto de vista, reformular argumentos, renovar conceitos, redefinir prioridades, revolucionar sua própria vida.

Tudo bem não saber o que quer ser quando crescer, tudo bem ter crescido e ainda estar sem perspectivas, tudo bem chorar, tudo bem rir demais, tudo bem gostar mais de desenhos animados do que documentários, tudo bem ainda chorar assistindo Titanic, tudo bem sentir medo. O mundo é grande mesmo, mas cada vez que dividimos nossas opiniões, que permitimos que alguém se identifique conosco, ele fica menor, menos assustador e passamos a ver coisas que nos fazem sorrir quando saímos de casa. O número de ONGs só faz aumentar, movimentos organizados por minorias recebem cada vez mais pessoas dispostas a ajudar, nunca o feminismo foi tão bem compreendido, nunca o movimento LGBT esteve tão bem representado, nunca o jovem pareceu tão orgulhoso da história de seu país, nunca o cara que gosta de quadrinhos e livros foi tão procurado para explicar e apresentar essa arte para pessoas que viram a adaptação no cinema. Rodas de violão, apresentações de teatro na rua, flash-mobs, fotógrafos nos parques, avenidas fechadas aos domingos para a família passear, ciclismo e caminhada têm cada vez mais adeptos, livrarias cheias, Star Wars de volta, e ainda há tanto para chegar, há muito mais para se ver, fazer, criar, conhecer e viver.

Essa é a nossa geração, aliás, é apenas o início do nosso movimento. Nossa geração, nossa vida, nossas descobertas, nossas lutas, nossos aprendizados, nossas confusões, nosso caminho, nossa forma de pensar. Singulares num plural.

Se você se identificou, bom, acho que ficou bem claro que você não está sozinho. Aliás, você é parte de um grupo imenso que vai mudar o mundo em pouquíssimo tempo.


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