Tico Menezes

Carta Aos Amores

A complexidade do mais simples sentimento.


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Cada amor é único e, quando plurais, salvam o mundo. A intensidade do sentimento reverbera nas almas que o conhecem. É o fenômeno que acontece quando amigos dizem que ainda acreditam no amor por causa de determinado casal de seu círculo social. E não é tão difícil amar, não quando se compreende a profundidade do simples e o quão poético pode ser um mero lembrete no meio da tarde de que há alguém feliz por você existir e ser quem é. Somos dignos de descobrir a pérola-amor nesse mundo de ostras acomodadas no fundo do mar. Cada um sabe do potencial que tem e do quanto deseja encontrar o que ainda não foi vivido.

Há de se apaixonar pelos olhares raiados, as vozes anoitecidas, os olás calorosos, os tchaus lacrimejados, as rosas-supresa recebidas no trabalho, os poemas beijados na noite de sábado, as mágoas turistas, as chances únicas, o frenesi quente, as redundâncias gaguejadas no nervosismo, as pequenas mentiras de autoafirmação, os violinos que só tocam na mente de quem está olhando, os eternos 23 anos, o hoje que nunca chega, o saudoso ontem, o amanhã que não será igual ao que idealizamos, os zíperes abertos sem querer, a língua queimada de café, o vocabulário incompreensível criado pelo casal, a cultura da família do outro, as concessões do amar, a honestidade do “não quero”, a surpresa de ser lembrado, o “vamos marcar”, as costas arrepiadas, as bochechas avermelhadas, os cachecóis de crochê feitos pela avó, o pacto de amizade após um chá, os amores-fênix, as epifanias tardias, o “ainda dá tempo”, a vida sem glamour, o azulejo quebrado, o domingo deitado, as viagens sem planejamento, o não se importar com o que vão pensar, o desbravar dos dedos na nuca, as meias coloridas, os presentes sem razão específica, as citações aleatórias, os cafés levados na cama, o sorriso ao ver que os amigos gostaram de quem foi escolhido, a implicância com as manias chatas que todos temos, o pedido de desculpas, a lista interminável de filmes do coração, os fones de ouvido compartilhados, os jantares cheios de risadas, a lágrima de orgulho pela conquista de quem se ama, a massagem no ombro nos dias difíceis, o sorriso ao olhar para trás, as noites sem dormir, o viver uno e plural, o ser simplesmente porque é.

Aos que amam – seja a si mesmo, ao melhor amigo, ao parceiro do outro lado do mundo, ao que mora do seu lado, a amiga de infância, a bibliotecária, ao poeta, a canção que conta sua história ou a vida que cresce em quem você chama de vida – e se permite o deslumbre de tão complexa simplicidade, a vocês, todo o mundo que há nesses amores.


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