Tico Menezes

Como abraçar o passado? – Um dia azul para o Homem-Aranha

Um olhar esperançoso, mesmo que melancólico, sobre um dia azul na vida do Homem-Aranha. #saudadesGwen


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O termo “blue”, em inglês, significa estar pra baixo, triste, num estado quase depressivo. O termo “Homem-Aranha”, em qualquer idioma, significa ser esperançoso e seguir em frente apesar das adversidades, da aparente superioridade dos nossos inimigos – lê-se problemas financeiros, emocionais ou até mesmo uma competição numa vaga na faculdade ou por um emprego melhor –, não deixar de ser honesto e fazer o bem. O que há de mais verdadeiro e emocionante na jornada de um herói é que, não importa o quão super ele é, no fim, a emoção concretiza as atitudes, sejam elas para o bem ou para o mal. Nessa hora somos iguais aos seres superpoderosos que protegem a Terra de ameaças impossíveis, nessa hora somos todos humanos, guiados por nossas emoções, procurando não ceder às fraquezas que caminham ao nosso lado durante toda a vida, desejando, sem nunca ter certeza, sermos bons o suficiente para que o bem prevaleça no fim da história.

Em 2002, o roteirista Jeph Loeb se uniu ao artista Tim Sale num trabalho sensível, nostálgico, inteligente e desafiador que viria a se tornar um dos arcos clássicos da história do Homem-Aranha. Em “Homem-Aranha Azul” encontramos Peter Parker sentado no chão de seu quarto, no dia de São Valentim – quando é comemorado o Dia dos Namorados nos EUA – com um gravador, narrando lembranças de sua trajetória como o Amigão da Vizinhança, os ensinamentos de Tio Ben, os vilões que encontraram justiça por causa de sua intervenção, as mudanças em seu círculo social, o aconchego sempre bem-vindo de Tia May e, por fim, sua breve e trágica história de amor com Gwen Stacy, que é para quem essas lembranças estão sendo contadas. Com um tom nostálgico e melancólico, Peter revisita arcos clássicos que, em sua simplicidade e facilidade de identificação com o jovem que começa a lidar com as responsabilidades do mundo adulto, o tornaram o símbolo de esperança e persistência que une o mundo todo num aceno emocionado que diz: Estamos juntos nessa, cara.

A dor de Peter ao se permitir lembrar de tudo que o trouxe até o presente momento jamais será apaziguada, jamais diminuirá, jamais será esquecida. Ele se casou com Mary Jane Watson, uma mulher forte, decidida, carinhosa, que o apoia em sua difícil rotina super-heróica e o faz porque conheceu o Peter Parker menino, que antes de terminar a faculdade lidou com a perda do tio, da namorada, com diversas ameaças à sua vida, com o bullying de seus colegas de classe, com a dificuldade em aceitar que ainda é um herói em construção e que nem sempre poderá salvar todas as pessoas, com um chefe abusivo e a falta de dinheiro para manter a estabilidade em sua vida pessoal – fazer um agrado para a namorada, pagar o aluguel de casa, ajudar a Tia May nas compras do mês, etc. Peter é grato por Mary Jane, uma das poucas felicidades que escolheram ficar em sua vida, o que não significa que amenize a dor de ter perdido tantas outras e a cumplicidade do casal é algo admirável, algo que os mantém juntos, unidos por um laço de amizade antes do amor. A presença de Gwen é sentida da primeira à última página, numa sincronia rara entre o roteiro sensível de Loeb e a arte respeitosa aos traços originais do Aranha – Steve Ditko e John Romita Sr. ficariam orgulhosos – de Tim Sale, que aproximam ainda mais o leitor veterano e apresenta os principais elementos do personagem ao leitor iniciante.

O mais belo da estória, porém, é a mensagem que nunca é dita. Há passagens lindas, de uma sensibilidade pouco explorada nos quadrinhos de super-heróis, o que elevou esta obra rapidamente ao status de cult, sendo hoje, quatorze anos depois, consideravelmente difícil de ser encontrada na íntegra em formato físico. “Homem-Aranha Azul” nos diz que não precisamos temer, lamentar ou tentar esconder nosso passado, afinal, ele nos trouxe até aqui, tornou possível tudo o que conquistamos e nos apresentou a novos lugares, pessoas e sonhos. Somos resultados do nosso passado, logo, não há porquê negá-lo, é parte vital do viver.

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Gwen se foi, mas Peter salvou o mundo tantas vezes desde então, salvou Tia May de uma viuvez solitária, salvou Mary Jane de não ter um melhor amigo compreensivo e um marido esforçado, salvou o Homem-Aranha de se tornar um anti-herói amargurado e pessimista, salvou a si mesmo de desistir. Gwen se foi, mas continua com Peter.

O passado vive. Não daremos adeus à infância, porque, no fundo, desejamos ser super-heróis com a mesma intensidade que o fizemos aos oito anos de idade. E quer saber? Se aceitarmos com paz tudo o que já vivemos, salvaremos o mundo mais vezes do que é possível imaginar.


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