Tico Menezes

Declaração de Insegurança

Sobre discordar de rótulos, abraçar a imperfeição e ser orgulhoso de si mesmo.


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- Você lê Jane Austen, não bebe cerveja e chora com filmes de romance, cara. Você é bem feminino!

Como é comum de mim, escolhi essa frase dentre algumas que me foram dirigidas ao longo da semana e decidi sentar para matutar sobre ela. Durou uma madrugada, mas cheguei a uma conclusão. Porém, essa conclusão não trouxe nenhuma mudança significante, não descobri nada que já não sabia, apenas percebi que, ao menos nesse diálogo, me encaixei no grupo de pessoas que só pensam em algo bom para dizer depois que o momento já passou. Poxa. Valeu a pena, afinal, resultou numa resposta muito mais abrangente e bem estruturada do que se eu tivesse respondido na hora.

Feminilidade tem a ver com cuidado, reflexão e precisão. Adjetivos assim são mais frequentes em mulheres, que me desculpem os meus amigos homens. O cuidado em lidar com os sentimentos por não querer se machucar demais, a reflexão que leva a uma visão muito mais ampla das situações e a precisão na hora de agir, o que faz com que a força certa seja aplicada num golpe ou numa palavra, nada aqui é aceitável com a desculpa de “ser instintivo”.

Agora, por que um homem se sentiria ofendido ao ser chamado de feminino? E a mesma pergunta faço às mulheres. Afinal, a masculinidade também vem com adjetivos fortes, também traz algo a somar nesse jogo bobo de egos que são as mesas de bar. Mulheres arrotam, homens choram, ponto. Mas daí vêm outras perguntas – curioso como a tendência da união do feminino com o masculino é o surgimento de algo novo, não?

O ser humano só pode ser definido com conceitos antiquados? Nada se renova na raça humana? Nossas histórias, nossas atitudes, nossos erros, tudo será atribuído à nossa feminilidade ou masculinidade?

Somos cheios de virtudes e defeitos. Somos altruístas e egoístas. Somos fortes e fracos. Somos atentos e desatentos. Amáveis e odiosos. Fogo e gelo. Sólidos. Líquidos. Até gasosos, somos. Portanto, se a ofensa vem de um adjetivo que realmente faz parte de você, abrace-o, use-o como um escudo, pois não nos restringimos a uma única parte nossa, temos apenas que reconhecê-la dentro do que sabemos sobre nossa forma de existir no mundo. Somos tão complexos que para nos xingar e nos ofender há toda uma jornada de emoções que deixamos passar desapercebida. A ofensa, para os não iniciados é uma quebra no comportamento escolhido para aquele dia – sim, há milhares de pessoas que escolhem seu comportamento, direta ou indiretamente – e isso é perigoso, tanto física quanto emocionalmente. A resposta está em ser ciente de quem é, do que representa e a razão de fazê-lo. É natural? É falso? Por quê?

Se a resposta não vem naturalmente, abraçamos o véu – ou lençol – da ignorância por medo. Medo de não ser tudo o que queríamos ser, mesmo que tenhamos conhecimento de que precisamos lutar para chegar aonde queremos, e a negação se torna um hábito que nos consumirá e nos levará ao túmulo mais cedo e com muito mais arrependimentos. Pessoas completamente seguras de si são assustadoras, mas ficam pequenas quando nos lembramos que elas também são seres humanos, também estão propensas a errar.

A insegurança é um sentimento tão humano quanto qualquer outro, talvez o mais humano dos sentimentos. O primeiro passo para combatê-la é aceitá-la. Assim como a seus defeitos mais visíveis – aqueles que o mundo não vai esquecer de apontar assim que você colocar o rosto fora de casa. Eu não sei o que esperar do mundo, deve ser por isso que me surpreendo positivamente quase que diariamente.

Eu leio Jane Austen. Sou romântico e gosto de me identificar com os românticos que me precedem. Eu não bebo cerveja, o gosto é ruim e eu não vejo razão em beber álcool. Isso de acordo com quem sou, longe de mim querer afastar alguém de algo que lhe faz bem ou consola.

Me emociono com filmes românticos, nunca pensei em esnobar alguém ou dizer que demonstrações de carinho, amizade e amor não me tocam. Vergonha é uma emoção desperdiçada, então, aproveitando que hoje vai passar “Titanic” na TV, deixo aqui o convite a quem sentir que precisa demonstrar mais sentimentos ou gritar para o mundo que é inseguro e, pela primeira vez na vida, não ver problema nisso.


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