Tico Menezes

Desencaixado, Assimétrico e Feliz

Que vida você espera encontrar no horário comercial?


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Damos voltas, vemos lindas paisagens, escapamos por alguns momentos e abraçamos a vida livre, soltos, libertos de uma rotina entediante que dita o que precisamos fazer se quisermos sorrir, mas eventualmente voltaremos para o lugar seguro. Será mesmo?

O sistema. Sabe quando seus pais te perguntam sobre seus estudos e suas perspectivas de carreira? Esse é o sistema falando. Um sistema que não permite pontos fora da curva. Um sistema que, sob o pretexto de “te encaixar na sociedade”, exige que você tenha horários, prazos, faça um esforço que não te dá prazer – seja durante ou posteriormente – e te coloca em posição de devedor para pessoas que pensam que ofensas, cobranças indevidas e gritos não machucam. Há uma comparação um tanto injusta a tempos em que a liberdade não era tão discutida, em que todos eram criados para ser peões e somente aspirar ser livre, o que acaba por fazer com que você, que quer trabalhar fazendo o que ama, se sinta fraco e incapaz. Essa mentalidade está diminuindo, mas a atual geração ainda sofre tal cobrança e o número de desistências numa faculdade, pedidos de demissão em empregos administrativos e suicídios de jovens é um alarmante indício de que os discursos pré-concebidos de “Você tem que...” e “Você não será bem-sucedido se...” precisam acabar antes que outras vidas e sonhos acabem. Querer ser feliz nada tem a ver com diplomas e salários, nada tem a ver com gravatas e ternos risca-de-giz, nada tem a ver com ser recatado ou ter o cabelo arrumadinho. Querer ser feliz é acreditar no potencial de bondade e grandeza que existe em nós mesmos, é saber que fazendo o bem aos outros, fazemos bem a nós mesmos, é poder descansar o corpo num parque às duas horas da tarde numa terça-feira sem se sentir devedor a ninguém. Há tantos dançarinos, atores, cantores, músicos, escritores, fotógrafos, professores, botânicos, pintores, artistas circenses, até mesmo advogados, médicos ou engenheiros que não o serão porque as oportunidades não são as mesmas, mas as exigências são.

Uma vez que você se encaixou nesse plano tão bem pensado pela sociedade para te receber de braços abertos, seus olhos piscam com mais frequência, você começa a dizer que tem saudades de dormir uma noite inteira, começa a perceber que sua infância te deu vários sinais e você não os percebeu, começa a desejar tardes de sol ao invés de dias chuvosos e aconchegantes. Você cresce como “Clube dos Cinco” e “O Apanhador no Campo de Centeio” disseram que todos crescem, do jeito castrador que confia cegamente que viver no piloto-automático é a resposta certa. Somos todos humanos, mas precisamos querer ser. Para quem segue as regras, os sonhos não morrem, apenas tornam-se mais difíceis de se alcançar.

E não, este não é um texto sobre abraçar a síndrome de Peter Pan que chega para todos nós ou te incentivando a deixar de se importar com o futuro. Ignorar responsabilidades é andar para trás e crescer é necessário, sim. A proposta aqui é que, através da reflexão, encontremos uma forma mais livre de crescer, livre de pensamento, de corpo, de voz e de alma. A vida vai cobrar, não dá pra fugir disso, mas dá para conversar com ela, fazer as pazes, tentar encontrar o momento em que vocês brigaram e rever tudo o que foi dito e feito à partir dali. Assim, quando os problemas chegarem, serão aqueles que você mesmo causou, aqueles que você não hesita em resolver, porque sabe que é capaz, sabe de onde veio e para onde vai.

Então se permita aquela reflexão no chuveiro, abrace os domingos de filmes de comédia, deixe as lágrimas correrem com aquele turbilhão de pensamentos enquanto você caminha sem rumo pela cidade, grite e exploda. Seja o ponto fora da curva, dê um passo para o lado e deixe os afobados passarem, a sua hora vai chegar quando você perceber que a volta dos ponteiros no relógio não serve para nada além de te encaixar onde você não cabe. Você pode parar, pode olhar para o céu, pode gostar do que gosta, pode fazer o que quiser, mas é aí que está a questão: Você vai fazer ou vai deixar que o piloto-automático faça?


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