Tico Menezes

Don't let the Samba Morrer

Um guia de viagem para quem está "preso" na cidade grande. (Vem com um brinde exclusivo: Uma incrível narrativa sobre amar ser brasileiro)


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Somos uma geração de mochileiros. Mas não começamos como os mochileiros que andam com mapas no bolso de trás da calça jeans rasgada e bebem água de cantis esverdeados encaixados na mochila enorme, não. Nos apropriamos do espírito da viagem e fazemos trilha pela cidade, tendo como montanhas as ladeiras dos bairros, usando moletom de manhã e regata na hora do almoço, tomando cuidado para não pisar em nenhum ser humano venenoso, encontrando tempo para tirar uma foto da paisagem – porque, convenhamos, o pôr-do-sol entre prédios também é lindo –, vemos centopeias quilométricas com faróis ligados às seis da tarde e sentimos todos os músculos do corpo pedindo descanso conforme vamos chegando mais perto da nossa barraca – lê-se “esquina de casa”. Somos mochileiros porque viajamos, se não para fora daqui, para fora de nós. E conseguimos fazer isso mesmo apertados num vagão de trem às sete da manhã.

Durante os dias mais confusos e revoltados da adolescência, histórias como “On The Road”, livro de Kerouac, e “Na Natureza Selvagem”, filme dirigido por Sean Penn com aquela trilha sonora lindíssima do Eddie Vedder, nos disseram que viajar era a resposta. Sair de casa com o dinheiro para o metrô, para a passagem do ônibus e para o pacote de biscoitos de polvilho, aumentar o volume dos fones de ouvido no máximo e respirar uma última vez o ar poluído da cidade. Mas então caminhamos até o restaurante indiano ou mexicano, assistimos um filme sueco no centro, conversamos com um venezuelano na zona norte, nos encantamos pelo bairro japonês, aprendemos com um colega irlandês na livraria o que é rúgbi, encontramos um quadrinho iraniano e um livro paquistanês e nossa curiosidade nos leva a lê-los e descobrir uma cultura completamente diferente da nossa e, se encontramos um amigo hipster, o acompanhamos até o Starbucks e nos assustamos com o preço. A volta ao mundo em 7 horas. E quando voltamos para casa, tem arroz, feijão e bife no forno. Jantamos tomando uma bronca da mãe porque não podemos sumir assim e chegar tarde, porque amanhã tem aula e somos apenas moleques. Sabemos que amanhã ela vai perguntar que livro diferente é esse que estamos lendo.

No fim de semana que vem, estaremos num churrasco com o pessoal da escola e nos pegaremos tocando pandeiro enquanto adaptamos as aberturas de Pokémon e Cavaleiros do Zodíaco para uma versão em samba, já que o Tiago sabe tocar cavaquinho melhor que ninguém. E nossos olhos brilham quando encontram o da Lívia, que é neta de italianos. Os pães foram comprados com o Seu Quim – clichê que não nos passa batido – e foi a avó índia do Guma que ensinou a fazer aquele vinagrete sensacional. Antes dele sair de casa, a mãe do Toshio acendeu um incenso. E o Cléber ligou dizendo que já tinha chegado no Pacaembu – onde o Brasil jogaria um amistoso contra Honduras. Aquele vai ser um dia bom na casa do Gaúcho, que vai ouvir a piada do cacetinho umas sete vezes antes de ter a ideia de oferecer chimarrão a quem nunca bebeu.

E quando o avião pousar em Aracaju e o calor nos atingir como se estivéssemos sendo abraçados por um urso com febre, vamos duvidar que, apenas alguns estados abaixo está nossa São Paulo nublada e imprevisível. E lá eles vão além do samba. Eles têm o baião e noites de forró, que são tão diferentes das baladas neon da Avenida Paulista. Mas voltar pra casa será tão bom por uns dias. Os ônibus trarão surpresas como duplas de repentistas no meio da viagem, encontraremos Elvis, Sinatra e Julio Iglesias cantando na mesma avenida, no domingo vai ter Pavarotti na TV Cultura e a dúvida entre pizza e esfiha nos assolará por três minutos. Mas logo a impaciência voltará e o calor do Egito ficará para uma próxima vez, porque temos moletons velhos esperando uma vida inteira para que o usemos. Está decidido, vamos para Santa Catarina. O dinheiro dá para conhecermos o Alaska? Imaginei que não. Santa Catarina!

Tem um mundo inteiro aqui. E tem mais lá fora, cê viu? Arruma essa mochila, põe uns três livros nela, uma blusa, um guarda-chuva, uma bermuda, um par de meias, desodorante, perfume, escova de dentes, protetor solar e o carregador do celular. Então vamos sair de casa.

Pra onde?


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