Tico Menezes

Embrião Embriagado

Uma história sobre álcool, pessoas e ensinamentos de berço, mesmo que involuntários.


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Foto de 31 de Dezembro de 1999

Em 99, minha família foi passar o Reveillón à beira-mar em Ubatuba. Foi a primeira vez que vi um caranguejo. Me lembro de rir da minha tia Luana correndo de medo do bicho. Me lembro de me assustar com os estouros de champanhe nas mãos do meu pai e dos meus tios, eles gritavam em êxtase, abraçavam suas esposas e uivavam para a lua. Meu pai me colocou em seus ombros e eu pude ver as ondas se formando e se quebrando lá no fundo, via a careca do Vô Dedé e um beijo demorado entre o primo Quinho e sua namorada. Éramos iluminados pela luz da lua, dos fogos e das pequenas fogueiras que acendemos na areia, com toras de madeira que Jonas — amigo do pai — trouxe em sua caminhonete. Fiquei uns cinco minutos ali e achei tudo muito bonito, mas o pai cansou de me carregar e me pôs de pé na areia novamente. Corri em direção à mãe, que ninava Nina, minha irmã gêmea, agarrando-a com carinho e cuidado.

- Ela não dormiu à tarde, Greg. Você tá com sono também? Fiz que não. A mãe me beijou o topo da cabeça e eu voltei para a areia. Fiquei triste por Nina estar dormindo e perdendo tudo aquilo, aquelas conversas, aquelas ondas, aquelas estrelas e o caranguejo. Toda aquela vida acontecendo e Nina dormindo.

Todos bebiam, cambaleavam sem deixar cair nem uma gota sequer do copo de cerveja, se sujavam de areia, esguichavam champanhe um no outro, suas camisas brancas abertas revelavam uma liberdade invejável, os biquínis me faziam corar, mas era tudo tão belo, novamente, tão vivo. Todos se reuniram numa roda, menos a mãe e Nina, que estavam sentadas num banquinho do quiosque. O pai gritou:

Um brinde a nós, que nunca falte bebida e saúde! Todos gritaram e me foi oferecido uma taça de champanhe. O meu era de uma cor laranja, diferente da dos adultos. O primo Quinho disse que era apenas cidra de pêssego. Papai sorriu ao me ver bebendo a cidra e todos gritaram novamente, levantando suas taças.

Um novo milênio se aproximava, “temos mais é que curtir”, diziam meus tios e seus amigos na plenitude de suas formas físicas, entornando uma garrafa de um líquido transparente, passando-a de mão em mão e gritando com os braços para o alto, como se tivessem recebido uma descarga elétrica. Foi uma madrugada tão bonita e enérgica que não consegui entender o porquê de, na tarde seguinte, todos estarem com expressões fechadas, cheiro de vômito e reclamando de dor de cabeça.

Foto de 07 de Agosto de 2009

Em 2009, nosso ano de formatura, o grande assunto do segundo semestre do ano era nossa viagem para o Guarujá. Estudávamos numa escola pública e Orlando — que viera de uma vida na escola particular e cujos pais haviam falido, mas ainda se viravam vendendo os imóveis que tinham no litoral — prometeu, provavelmente para ser aceito, que não precisaríamos pagar pela viagem de formatura, pois sua casa no Guarujá sempre ficava vazia em dezembro. O dinheiro que poucos de nós tinha para pagar uma viagem de formatura seria gasto em bebidas e macarrão, alguns até comprariam roupas e penduricalhos. E pronto, a classe toda não sabia falar de outra coisa.

Greg, meu irmão gêmeo, também estava no meio desse pessoal. Era o cara mais engraçado da sala, roubava meus rascunhos antes de sair de casa, falando em voz baixa para seus amigos que a Professora Jacira era “mal comida” e por isso nunca estava sorrindo, colocando vodca na garrafa d’água antes do início da aula e contando suas viagens, fazendo todo mundo rir do dia em que João — seu melhor amigo — quase morreu afogado porque decidiu entrar em coma alcoólico no mar, mas que tinha sido um dos melhores dias de sua vida, afinal, segundo Greg, nenhuma história começa com “um dia eu bebi leite”.

Bom, o pai bebia com os amigos também e, por um breve momento da minha vida, achei que era coisa de menino, mas isso passou. Cresci sendo da mesma classe que Greg, logo, tínhamos o mesmo círculo social dentro e fora de casa. Não somos gêmeos idênticos, o que é bom porque eu não queria lidar com gente dizendo “Nossa, como vocês podem ser tão parecidos e tão diferentes ao mesmo tempo?”. Minhas amigas do Ensino Fundamental passaram a frequentar minha casa, mas não para me ver. Meus colegas do grupo de artes diziam que Greg era uma inspiração para que abraçassem a liberdade de seus espíritos jovens e eu fui na deles. Saí para a balada umas quinze vezes e em catorze delas terminei a madrugada sozinha e sóbria sentada na sarjeta vendo o sol nascer, imagem que daria uma foto inspiradora e um livro bem bosta. Se eu ganhasse um real por cada vez que disse que “a ignorância é uma bênção”, eu não estaria mais pegando livros emprestados da biblioteca. Ah, na vez em que minha noite não terminou assim, eu bebi cerveja, vodca e fumei um cigarro, aí cheirei minha jaqueta, senti meu hálito e levei algumas apalpadas na bunda porque achavam que a bebida tinha me deixado solta e isso, aparentemente, dava razão a eles. Nessa vez, voltei sozinha pra casa, colocando o capuz em ruas escuras para tentar afastar qualquer um chegasse perto de mim. Tomei um banho e fui deitar, nem Chico nem Caetano poderiam apaziguar minha alma suja e traidora naquela noite. Eventualmente, me tornei chata para os nossos amigos e eles viraram “os amigos do Greg”. E os amigos do Greg eram tão felizes.

Foto de 21 de Abril de 2011

É 2011. O Greg morreu na semana passada. O João também. Às 17h de uma quinta-feira. Eles tinham acabado de assumir o namoro. Voltavam do cinema, quando um homem que havia acabado de assinar os papéis do divórcio, afogava suas mágoas com algumas garrafinhas de aguardente enquanto dirigia seu Land Rover preto.

Meus tios e meus pais voltaram do funeral dos dois e fizeram um brinde à memória dos meninos. Eles beberam para amenizar a dor da perda de Greg, que morreu porque um homem bebeu para amenizar a dor da perda da esposa. Eles dizem “Saúde” quando levantam suas taças. Eles vieram aqui e me disseram para ter força, mas eles estão buscando refúgio no álcool, que os faz esquecer momentaneamente que o sorriso malandro e conquistador do meu irmão não vai mais contar piadas. E eu não consigo evitar pensar que nenhum deles faria diferente do cara que o matou. Eles bebem para comemorar, bebem para se lamentar, bebem para se divertir, bebem para acordar, bebem para conversar, bebem para se apaixonar, bebem para parar de beber, bebem porque precisam começar de algum lugar. Eles dão risada disso. E quando estão putos porque eu ou algum dos meus colegas de faculdade falamos sobre como é contraditório o álcool e o tabaco serem permitidos e o tráfico de maconha continuar matando crianças nas favelas porque a erva é proibida, eles bebem também, porque dizem que “não podem lidar com esse tipo de discussãozinha besta sóbrios”. O meu irmão virou estatística nesse documento que vai sair numa nota de rodapé de uma revista que vai, tão gentilmente, dedicar uma página a um estudo sobre a idade em que o jovem começa a beber, mas cuja contracapa traz uma propaganda de vodka. Não temos mais Greg, mas ainda tem cerveja na geladeira.

Foto de 19 de Dezembro de 2012

2012. O pôr-do-sol é lindo e a água é cristalina em Fernando de Noronha. Brindo com o olhar desse caranguejo que parece me cumprimentar.


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