Tico Menezes

Entre e, Por Favor, Repare a Bagunça

Pai, mãe, fiquem tranquilos que amanhã eu arrumo.


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Somos uma bagunça. Partamos daqui.

Nunca estivemos arrumados. Do momento em que a primeira lufada de ar encheu nossos pulmões, agora independentes, assustando nosso corpo e nos fazendo berrar por socorro – o que sempre emociona a mãe – começamos a nos bagunçar. A vida começa e aí é uma bagunça de gente nos pegando no colo, nos fazendo elogios incoerentes por causa da emoção de ver um novo ser humano adentrar o mundo, nos dizendo que seremos pessoas perfeitas e faremos coisas grandiosas, dizendo que parecemos a mãe ou o pai quando na verdade parecemos um joelho, nos vendo crescer e se emocionando, nos repreendendo de forma insegura, dizendo “não” sem explicar o porquê, fazendo ameaças vagas, se perdendo na própria bagunça por não querer nos bagunçar, nos bagunçando com expectativas e medos que nem são nossos. É inevitável, porém. Queremos o que queremos e, se reprimimos, fica pior, ainda mais bagunçado. Somos o que somos e tentar organizar sem entrar no quarto e pisar numa pecinha de lego – lê-se, com medo de sofrer ao encarar a realidade – a bagunça só vai aumentar.

Não sabemos do nosso amor, não sabemos das nossas carências, não sabemos dos nossos medos, não sabemos das nossas qualidades, não sabemos da nossa inteligência, não sabemos da nossa curiosidade, não sabemos nos admirar, não sabemos não nos entregar a sorrisos simpáticos, não sabemos não parecer estranhos quando o que mais queremos é soar natural, não sabemos não negativar na noite anterior àquele acontecimento decisivo, não sabemos colocar nossos sentimentos no lugar certo. Mas fingimos que sabemos. Puts, olha aí a bagunça. Quem vai arrumar? E conforme vamos assoprando velinhas com o passar dos anos, ainda que enfiar tudo no guarda-roupas pareça uma boa ideia, a porta da direita já está com um vãozinho, indicando que não cabe mais nada ali e só nos resta tomar vergonha na cara e tirar um sábado para colocar aquele quarto em ordem. Mas arrumar tudo exige coragem para enfrentar a solidão, os pensamentos negativos, a insegurança, os erros, os probleminhas irritantes, o medo de ficar sozinho, o medo de não ser quem imaginamos que seríamos, chorar as lágrimas que seguramos por puro orgulho – ou por força mesmo! – e conversar com nosso melhor amigo e pior inimigo: Nós mesmos, nus das marcas, das mentiras, das expectativas, do cheiro de limpeza improvisada. É difícil, mas já ouviu falar de faxina que não caleja a mão?

Mas, sabe, tudo bem estar bagunçado. Se for com amor, tudo bem bagunçar ainda mais o outro, é até bom. É capaz até de termos ideia de como nos arrumar ao conhecer a bagunça de outra pessoa. Estamos nos bagunçando o tempo todo e não tem prateleira, cabide, ordem de cor ou alfabética que esconda o fato de que somos apenas humanos. Logo, tudo se faz natural, sem culpa. As expectativas que colocaram em nós e que colocamos em outros, a vontade de ser perfeito e a dor ao descobrir que não existe perfeição no mundo, a linda epifania e o sorriso de descobrir que é preciso exigir a imperfeição das coisas para se apaixonar, tudo natural, tudo parte da bagunça que começou quando aquela luz nos ardeu os olhos ao sairmos da barriga quentinha da mãe.

Se você tem medo dos seus pais entrarem no quarto e gritarem para você arrumar essa bagunça, bem, enfrente esse medo, procure saber o que você pode arrumar e como lidar com a bronca. Ah, e fique tranquilo porque o quarto deles também não é dos mais arrumados. E assim será com o mundo; um monte de gente te dando bronca porque você tá bagunçado, perdido, desencontrado e parece não querer melhorar. Mas se até seus pais são bagunçados e te dão bronca porque te amam, imagina o que não tá escondido na bagunça de quem não te conhece.

Olha, achei uma moeda de um real no canto do quarto, pertinho da casca de mexerica que esqueci de jogar no lixo na semana passada.


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