Tico Menezes

Mais ou Medos

Sobreviver é fácil no comodismo. Vamos viver, Ubaldo?


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Ubaldo estava com medo de sentir medo.

Pensou em sair para correr, mas poderia desidratar, tropeçar em alta velocidade e perder o equilíbrio, ter dificuldade para recuperar o fôlego ou ficar com calos, então desconsiderou essa ideia. Desconsiderou até a ideia de andar porque vinha do medo de correr, então, para não ter medo de nada, ficou em casa.

Nas férias, queria viajar pra Itália, mas tinha medo do avião cair. Desconsiderou ir de carro para o Paraná porque isso vinha do medo da viagem original. Talvez tivessem parques de diversão na cidade, mas os brinquedos poderiam quebrar, o algodão-doce poderia estar estragado, poderia esquecer a luz de casa acesa e a conta viria caríssima. Não pegou férias. Começou a escrever a história de sua vida, mas ficou com medo do que pensariam, então parou de escrever, mas pensou que parar de escrever era algo vindo do medo de ser julgado, então voltou a escrever, mas nunca ia mostrar para ninguém seus parágrafos enormes e cheios de palavras bonitas sobre o nada. Permaneceu anônimo.

Queria casar, mas a Silvia parecia estar curtindo o tempo solteira e a Jane não ligou mais desde a última noite que passaram juntos, se ele insistisse, ela poderia continuar ignorando, caso uma delas fosse sua esposa, poderiam criticar seus medos e voltar para suas vidas sem ele. Precisava namorar antes, mas o namoro vinha da ideia do medo de um casamento ruim, mas se saísse para encontrar uma moça, talvez tivesse uma noite sem significado. Mas talvez não, e isso poderia se tornar um relacionamento sério, logo, um namoro, que levaria a um casamento, que poderia terminar com ele sozinho novamente. Abriu o site pornô.

Deu início a seu projeto de retomar contato com a galera da escola. Mas será que eles eram bem-sucedidos? Eles poderiam estar melhores do que ele e sentir pena de sua situação, mas ele não queria ser digno de pena. Ou poderiam estar piores, o que dava ainda mais medo, pois poderiam se sentir inferiores e culpá-lo por exibir o quão bem estava. Jogou fora a agenda de telefones.

Ubaldo não consertou o telhado, não recolheu os cacos de vidro do chão, não ouviu música alta, não ouviu música baixa, não assistiu o filme de terror, muito menos o filme de comédia, não adotou um cachorro, não leu mais livro nenhum, leu alguns estudos fictícios na internet, não desceu as escadas, não riu da piada, não tomou banho, não ligou o fogão, não gritou “Gol!”, não andou de bicicleta, não obedeceu as leis do trânsito, depois não andou mais de carro, não aceitou o convite para a festa, não ligou para dizer “Boa Noite” para a mãe, não usou caneta vermelha, não cortou o bife, não chupou a laranja, não varreu o chão, não elogiou o irmão, não acendeu a luz, não abriu a janela, não foi no consultório, não comprou os remédios, não chorou, não ficou em silêncio, não andou descalço, não foi viajar, não se declarou, não se cobriu, não disse que sim, não aceitou morrer.

Ubaldo sobreviveu, apenas.


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