Tico Menezes

Meios-Tempos

Correr e ficar parado não têm diferença nenhuma se você não souber seus porquês.


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Num momento estamos correndo tanto que não vemos a hora de parar para respirar e aproveitar as coisas com calma, fazer o que nos faz bem, ter a escolha de virar para o lado que bem entendermos, pedir uma pizza numa terça-feira à noite, assistir um filme ruim que gostamos, planejar como – e quando – vamos surpreender a pessoa que amamos, escrever uma carta, visitar nossos avós, fazer tudo que quisermos simplesmente porque podemos. E quando o momento da correria acaba, seja por escolha nossa ou de um poder superior – uma demissão, um fim de contrato, o recebimento do diploma, a chegada dos 18, a chegada dos 40, a constatação de que a vida tá estagnada, sem sentido e triste ao se pegar comendo Fandangos com Trakinas às 3h53 da manhã – entramos num lugar – lê-se estado de espírito – que muitos consideram difícil de sair: O Meio-Tempo.

O que é o Meio-Tempo?

Bem, eles vêm em várias formas e tamanhos, em diferentes cores e com a mais diversificada trilha sonora. Mas um meio-tempo que se preze precisa nos fazer questionar nossas escolhas, trazer alguns dias em que pensamos ser a pessoa mais incompetente do planeta, nos despertar para abraçar o “foda-se”, nos apresentar diversas escolhas, nos fechar algumas portas, nos abrir tantas outras, nos presentear com dias de liberdade e esperança assim como dias de total desespero e lágrimas solitárias. O meio-tempo, alguns diriam, é a vida. Particularmente, prefiro vê-lo como parte da vida e, aqui, proponho uma nova abordagem desse estado de espírito tão comum a nós.

Já foi dito por filósofos de diferentes épocas – e foram muitos! – que vivemos uma sucessão de meios-tempos, sempre esperando pelo dia em que nossa vida será como queremos que ela seja, sempre esperando pelo próximo relacionamento, pelo próximo emprego, pela compra do carro, pela conquista da promoção, pelas férias, pelo novo telefone, pela formação, pela próxima pintura da casa, pela aposentadoria, pelo fim do mês, pelo fim do que “não aguentamos mais” e pelo começo do que desejamos. E é uma constatação comum porque esse pensamento é comum, e não há problema nenhum estar num meio-tempo. A espera é demorada e não é fácil “viver cada dia como se fosse o último”, mas abraçar o meio-tempo também não é uma opção que vá mudar muita coisa. Os dias difíceis vão existir, nem tente impedi-los, mas não se esqueça de que os dias bons também estão inclusos nesse pacote exclusivamente seu, então cabe somente a você explorar todas as possibilidades dessa espera como se não fosse uma espera, mas sim mais um dia de vida, não rotina – pois, tecnicamente, a rotina só existe fora do meio-tempo – e sim a vida livre, onde o que vale é estar em paz com o fato de que estamos vivos e temos diversas possibilidades à nossa frente, inclusive no nosso Agora. A proposta aqui é que aceitemos e entendamos que tudo vai passar, mas temos que ir além das palavras, temos que realmente buscar exemplos, procurar por oportunidades, analisar nosso passado, nosso presente e dar um passo de cada vez rumo ao nosso futuro. Abraçar uma ideia diferente do convencional e esperado, entende?

Sejamos menos reclamações de filas de banco e pontos de ônibus e mais elogios ao pé do ouvido e madrugadas com esfihas, amendoim, refrigerante barato e amigos.

Ou manhãs de exercício no parque. Ou conversas sobre histórias de infância, abraçados na cama até tarde. Ou uma espreguiçada boa no tapete da sala. Ou a gargalhada repentina ao se lembrar de uma palhaçada de algum colega nos tempos de escola.

Ou qualquer uma dessas pérolas da vida que só o meio-tempo bem aproveitado nos proporciona.


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