Tico Menezes

O Direito Não Somente ao Pão, mas, também, à Poesia

Sobre o cenário marginal do país e as belezas que ninguém vê.


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Há um grito de manifesto entalado na garganta do país. Um grito que, se gritado, ecoará por gerações. Há uma mão fechada na ponta do braço estendido para cima que quer bater na porta de quem discrimina por raça, religião, cor e gênero. O fogo do cigarro se apagou porque temos cabeça mudando, pontas de revolução nas principais avenidas ao invés de bitucas na sarjeta. Há tentativas musicais de mudar o cenário, há paródias e dramas doloridos bem escritos e representados em alta definição, mas que passam batido porque foram mal falados previamente. Não na televisão, não, não, não. Tudo está acontecendo onde ninguém olha. A retomada está próxima. Cooperifa, rap, forró, sertanejo raiz, poesia vendida por cinquenta centavos na estação São Bento, haikai de paz tatuado na costela do moleque magrelo que chega em casa do trabalho tarde da noite, saraus e mais saraus, funk que vai além daqueles que explodem o som dos carros de quem quer ostentar, entrevistas e respostas críticas fora do Brasil, nada disso é visto, mas existe.

Nós, revolucionários, valemos tanto para nosso governo quanto valem as crianças tiradas de suas famílias para serem militarizadas no Quênia, somos manipuláveis e, na cabeça velha deles, a maior prova disso é que a arma está em nossas mãos e nós não a viramos contra eles. Mas eles simplesmente não entendem. Não matamos ninguém porque matar não é a resposta, violência nunca é e nós sabemos disso. Persistência e chatice são coisas diferentes, justiça e extremismo não caminham de mãos dadas, a graça da religião não está no dinheiro recebido no dízimo e sim no sorriso aliviado ao ver seu filho conseguindo um emprego, comunidade é plural, mas composta por singulares, coisas simples, de fácil entendimento para quem passou dificuldade. Mas é como se fôssemos ignorados por crianças birrentas que, por terem um pai com dinheiro, nos diminui e tapa os ouvidos porque não quer sair da bolha. Essa criança vai crescer, mas não pense no pior, pense que ela vai acabar ouvindo. E aí, meu irmão, aí a figura muda.

Estamos crescendo, apesar de termos perdido algumas batalhas e ainda estarmos juntos de territórios que querem sair correndo antes que algum fragmento de luta caia em seu quintal. Não somos burros, nem de carga, nem de sabedoria. Não usamos esse termo por aqui, cada um é inteligente à sua maneira, até o burro, que pode se manifestar também. Não queremos cenoura de presente, não queremos futebol, não queremos novela, não se for para nos manter no cabresto. E se não tivermos direito a alto-falante, pode crer que vamos enrolar cartolina e sair gritando pelo corredor das escolas.

Cadê a merenda?

Cadê a segurança?

Cadê a democracia?

Cadê a empatia?

Cadê a maturidade?

Cadê o Amarildo?

Estou falando de gritos, veja bem, nada a ver com esses cochichos e grunhidos esganiçados que fazem saltar a veia da testa em nome de um monte de coisas que perderam seu significado numa tradução malfeita. Nos dirigimos aos pés cascudos de andar descalço no asfalto, aos que têm enxaqueca por ficar estudando até tarde – não a história mal contada do Brasil, mas as revoluções ao redor do mundo –, aos que sangram letras, aos que entendem o significado do grito na biblioteca, aos que não querem só sobreviver, aos que se sustentam, aos que precisam falar.

Não queremos pizza, queremos mostrar a vocês do que o acarajé é feito. Isso também é Brasil!


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