Tico Menezes

O Meu, o Seu e o Nosso

Só você enxerga do seu jeito, mas relaxa que cê não tá sozinho nessa.


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Como devemos ver as pessoas especiais que conhecemos, as conversas inesquecíveis que temos, os momentos inenarráveis que vivemos? Talvez como um privilégio só nosso ou memórias que devem ser contadas em livros e narrativas, compartilhadas com o maior número possível de pessoas? Digo, às vezes parece errado que tenhamos vivido sozinhos, ou somente na nossa visão, algo espetacular, incrível, de um nível tão elevado de felicidade e que poderia mudar a perspectiva de tantas pessoas sobre tantas coisas. Parece que precisamos levar aquele momento a todos que conhecemos porque, poxa, foi tão especial, tão único!

E foi mesmo. Mas aqui vai uma verdade bela e dolorosa da vida: Ninguém nunca vai ver nada da mesma forma que você vê.

Aquela conversa de bar que foi de gravatas de garçom aos sacrifícios que as pessoas fazem para se virar no sistema capitalista, aquele fim de noite conversando sobre a relatividade do tempo e a fragilidade da vida com uma garota que gosta de aproveitar as palavras trocadas, aquela dança quente no meio da festa, aquele desabafo seguido de agradecimento por sermos tão bons ouvintes, aquele elogio carinhoso após um ato atencioso da nossa parte, aquela piada hilária que só aquele seu amigo sabe contar de forma que toda a sala exploda em gargalhadas, aquele abraço demorado com lágrimas nos olhos após um pedido de desculpas e a promessa de que tentaremos ser melhores, aquela manifestação calorosa e intensa de um jovem idealista que você admira, a confissão em sussurros de quem não quer ter a reputação manchada, mas confia em você para guardar o segredo, o vídeo engraçado que você repetiu diversas vezes e continuou rindo, mas quando mostrou para os amigos, não pareceu tão engraçado assim. Os momentos que você viu com seus olhos, ouviu com seus ouvidos, tocou com suas mãos, são exclusivamente seus, mesmo que tenham sido divididos com outras pessoas. E de tão especiais, dá vontade de dividir, o que é ótimo. Mas não espere que vejam o mundo através dos seus olhos.

Parece até errado ter algumas palavras e lembranças só para você, afinal, você já viveu tanta coisa boa. Mas pense nas coisas ruins que você já viu e ouviu, também, e em como você não desejaria que ninguém soubesse ou vivesse isso, afinal, você não deseja o mal para eles. E então tudo fica bem, porque você entende que algumas coisas – e pessoas – acontecem para que nosso sorriso se alargue e nosso coração se encha de inspiração. E, novamente, tudo bem.

Então caímos em outro pensamento: Será que eu já fiz ou disse algo especial, incrível, único e inspirador para alguém?

Bem, na semana passada um amigo me contou que recebeu duas solicitações de amizade no Facebook e, quando viu quem eram os donos dos perfis, reconheceu olhares que só existiam em suas memórias da infância. Eram dois rapazes crescidos, barbados, mas que, quando tinham 9 anos de idade, estudaram na mesma escola que meu amigo. Eles não o viam há mais de 10 anos e o reconheceram numa rede social, pediram para adicioná-lo e vão se encontrar num bar para falar sobre o que mudou, por onde cada um andou e o que fizeram nesse tempo. Eles cresceram e vão falar sobre isso, pois um não sabe da vida do outro. Isso fez com que meu amigo percebesse o tanto de histórias e memórias que tinha a compartilhar, o tanto que vivera nesses 10 anos e como aquilo tudo pareceria especial para seus colegas de infância. Seu clique para aceitar as solicitações de amizade causou aquela conversa especial e nostálgica que estava por vir.

Outro amigo meu me disse que reencontrou sua ex dos tempos de adolescência na reunião de pais e alunos da sua escola. Ele é professor de História da quinta série e tinha que falar sobre um garoto que só tirava 10 porque adorava História. Esse garoto é filho da ex do meu amigo. Imagina o quão especial foi esse reencontro?

Minha amiga foi abraçada pelos pais ao contar a eles que é gay, minha colega de trabalho aceitou uma proposta de emprego na área em que ela se formou, minha mãe vai se aposentar, minha irmã tirou mais uma nota boa na escola, meu avô segurou minhas mãos e me disse para ser esforçado em tudo o que eu me comprometer a fazer, o Nilton disse que nunca foi tão feliz como é com sua barraca de hot dog, a Priscila decidiu aprender inglês, eu ensinei o irmãozinho de um amigo como fazer tapioca, meu irmão recebeu uma mensagem de seu melhor amigo dizendo que não havia ninguém tão bondoso no mundo quanto ele, esse amigo contagiou diversas festas com sua dança e agora estuda para ser DJ.

Histórias dignas de um livro que deveria ser lido pelo mundo inteiro. Histórias inspiradoras que podem mudar o rumo de uma vida. Histórias que nunca se repetirão, são únicas. Histórias especiais que nos tocam, mas que só quem viveu saberá sua real intensidade.

Somos todos protagonistas, causamos e reagimos, vencemos e perdemos, sabemos a dor e a delícia de sermos quem somos. E vivemos nos corações de quem nem imaginamos, assim como pensamos se aquela pessoa sabe de nossa existência.

Então sim, respondendo à pergunta anterior, já causamos momentos únicos para várias pessoas. Somos especiais e só nós sabemos o quanto.


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