Tico Menezes

O Outrora é Saudoso, o Agora é Maravilhoso

Não tente ser como os heróis do passado. Seja o herói do hoje!


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“A nossa geração era tão melhor, né? Digo, não tínhamos tablets, a internet era um luxo e não tinha nem um quarto dos recursos que tem hoje, tudo era mais barato, não tínhamos tanta má influência na televisão, não se via tanto escândalo político, conquistávamos as pessoas olhando no olho delas, cruzar o salão de festas para pedir o telefone daquela pessoa bonita e interessante exigia coragem, só entendíamos as coisas depois de vivê-las, as músicas eram melhores, os filmes eram mais profundos, a dificuldade nos ensinava a valorizar as coisas, trabalhávamos muito mais e tínhamos menos tempo para distrações, alcançávamos os objetivos e caminhávamos rumo a uma vida que nossos pais não puderam nos dar, não existia isso de “bullying”, as escolas eram mais organizadas, só se formavam na faculdade pessoas de raça e caráter, os grandes ídolos eram realmente inspiradores, as mensagens realmente tinham significado, hoje é tudo jogado, tudo dispensável, todo mundo muda de ideia a todo momento. Nunca seremos tão bons quanto éramos na época em que cresci!”

Do canto da sala, questiono: Sério? Não teve nenhum avanço? Nenhuma causa de hoje é legítima? A atual geração de jovens está realmente perdida? Nada vale a pena? Nas gerações passadas não tinha música ruim ou programas apelativos? Hoje todo mundo é igual? Todo mundo era igual na geração a qual você se refere?

Saudosismo é uma coisa meio bosta, convenhamos. Definir uma época como “A Melhor” ou “A Pior”, limitar as pessoas ao período no qual elas cresceram, disputar quem teve a melhor criação, continuar a procurar forças no ontem, se ater ao que já passou e esnobar tudo o que está acontecendo? Não me parece uma boa ideia a ser desenvolvida. Qual o caminho de quem não sai do lugar? Nenhuma vida é igual, logo, nenhuma lembrança ou sentimento vai ser compreendido e aceito da forma que você deseja, não importa o quanto você ressalte que privilégio é ter o que você um dia teve.

Saudosismo e nostalgia são coisas completamente diferentes. Sentir saudades é bom, nos enriquece porque nos faz revisitar nossas raízes, conhecermos mais da base que nos mantém sãos no presente, nos emociona porque percebemos que o tempo é implacável e que se arrepender é a coisa mais fácil do mundo. A nostalgia nos pede aos berros que vivamos, que não deixemos os pensamentos negativos ou que os medos disfarçados de conselhos nos privem de aproveitar o momento, de mergulharmos no que se apresenta e não nos limitarmos a um ou outro prazer, mas sim à experiência completa. A nostalgia não conhece o involuntário, só a conhece quem quer. Quem não quer abraçar a felicidade do agora fica preso nas sensações de outrora e nem percebe o tanto de vida e emoções que continuarão se fazendo presente independente de tempos verbais. De repente seguir o fluxo do tempo não parece uma ideia tão má, né?

É claro que vamos ter opiniões sobre tudo e faremos comparações entre o que vivemos e o que vemos os outros viverem. É natural e saudável que façamos isso. O erro está justamente em não permitir que outros sejam só porque você tem a sua palavra como verdade absoluta ou porque o seu medo do desconhecido é tão grande que te priva de emoções novas. O que é um tanto contraditório já que as emoções do passado que você tanto ama e defende só foram vividas porque – pasme! – você se permitiu viver o que não conhecia. Percebe como o saudosismo é raso e ilógico?

Os velhos e bons tempos podem ser agora. As lembranças que te trarão sorrisos cheios de saudade podem ser construídas assim que você sair de casa para o trabalho amanhã. Seja uma viagem, uma tarde no parque, um reencontro de colegas numa mesa de bar, o futebol de domingo, o show de rock que você sempre quis ir, passar noites abraçado com quem você ama, escrever uma carta para você mesmo, passar as férias na casa dos seus avós, adotar um cachorro e dar um nome esquisito a ele, apresentar Star Wars para o seu sobrinho, mudar de emprego, começar um curso novo, assistir um filme de algum gênero que nunca te atraiu, usar cachecol, trocar a marca do amaciante, promover um churrasco na laje da sua casa, visitar um novo país ou decidir ser pai. Lembre das coisas com carinho e deseje voltar no tempo, não reprima isso, mas lembre-se que só se sente saudade do que foi vivido. As emoções transcendem linhas temporais, permita-se emocionar para rever sua vida como uma fita de VHS de alguma animação da infância: Com a possibilidade de rebobinar e assistir de novo, mas sempre esperando ansiosamente pela continuação daquela história.


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