Tico Menezes

Os Cara é Foda

Licença poética para não usar o plural e inspirar a revolução.


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Os cara é foda.

Dizem que não existe cultura marginal, que rap é apologia ao crime, que reggae é apologia às drogas, que o samba exclui o branco, que poesia com palavrão é vandalismo cultural. Dizem que não dá para ler um soneto do século XIX num Sarau, porque nós aqui não vamos entender. Dizem que a escravidão foi um absurdo, mas pagam um salário mínimo pra moça negra que cuida dos filhos deles, faz comida, passa a roupa, lava a louça, alimenta o gato e ainda evita sentar na privada cara deles.

Os cara é foda.

Aprovam leis excludentes e elegem sensacionalistas e pastores que abusam da fé alheia para nos representar na casa que devia nos acolher. Beijam a cabeça de uma criança da favela uma vez a cada quatro anos. Falam de como o país tá produzindo remédio, comida e moradia, mas estão tão chafurdados no sistema capitalista que nem percebem que nada disso chega aqui. Falam do pobre no singular para que pese menos a culpa — se é que a sentem. Como os caras dormem à noite?

Os cara é foda.

Gritam e batem nos moleques e dizem que é pro bem, ensinando eles a confundir amor com agressividade. Isso nos que têm sorte, porque o resto fica à mercê de um pai corrupto que se autoproclama Justiça.

Os cara é foda.

Não incentivam neguinho à cultura, fecham as fábricas, cortam verba da educação, não deixam a câmera do jornal da noite chegar nos Saraus, não permitem que outra realidade se mantenha por muito tempo e quando fazem os “filmes de favela” ou dão à quebrada um núcleo na novela das nove, dizem que é pro povão se sentir representado, mesmo ali só tendo felicidade, cerveja e fogos, e quando tem problema, é por causa de bunda. Os cara é foda.

Nunca que um texto com um título que toma a liberdade poética de não usar o plural vai ser lido até o final. E o rapaz saindo às três da manhã pra pegar ônibus lotado, a mina se destacando na escola técnica, o pai correndo atrás de emprego, a mãe recebendo mixaria pra sustentar os quatro moleques, o funkeiro que cita James Brown, o “ex-moleque problema” que voltou pra dar aula de História na escola onde estudou, ah, esses não fazem mais do que a obrigação.

Pois é, os cara é foda.

Mas releia o texto. Os cara é foda?

Nóis é mais.


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