Tico Menezes

Queda Livre

Sobre a felicidade de poder voar, mas nunca esquecer que precisamos deixar pegadas no chão.


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Somos paraquedistas de primeira viagem.

Quer dizer, aqueles de nós que fomos loucos ou corajosos o bastante para pular do avião acreditando na proposta do instrutor que disse, depois de instruções que não ouvimos direito por causa do medo, “Depois que você pula é só curtir a vista, a sensação, a adrenalina, a liberdade, a vida!”. Assim, tomamos aquele impulso demorado, respiramos fundo e pulamos. Amalucados, sem nem saber direito o que diabos deu na nossa cabeça para subir tão alto só para descermos novamente, mas já estamos no ar, em queda livre, se curtimos, sorrimos, vivemos ou morremos, só depende de nós.

O vento atinge nosso rosto com uma força que nunca pensamos ser possível, nossas bochechas vão para trás, quase que forçando um sorriso amedrontado, as roupas colam em nosso corpo, dizendo que não tem como disfarçar aquela barriguinha e que não tem problema, o vento gosta do nosso corpo do jeito que ele é, nossos cabelos voam livres e, para que servem as pernas e os braços mesmo? E assim, tendo como único ato de verdadeiro esforço o pulo inicial, percebemos que não parece ter um chão nos aguardando. Tudo é tão rápido segundo a lógica, mas se tivermos que narrar para alguém qual a sensação, diremos que dá tempo de perceber cada pequeno detalhe, que temos tempo para apreciar a paisagem, que temos todo o tempo do mundo. Nos apaixonamos por nuvens até encontrarmos uma montanha no horizonte e aquela se torna a maior e principal paixão do salto. Nos preocupamos em estar indo rápido demais ou se vamos saber tomar a decisão certa na hora certa. Nos desesperamos e sorrimos quando o desespero passa. Voltamos a ver o chão e desejamos ser mais realistas, parar de andar com a cabeça nas nuvens, cheios de sonhos utópicos, lembramos que a vida deve ser difícil, suada… ou será que não? E aí nos perguntamos por que é que não curtimos a NOSSA vida do NOSSO jeito? O que nos impede de gostar do que gostamos? Quem determina que ele ou ela ou aquele grupo de pessoas é mais importante ou melhor do que nós? Estamos no mesmo céu, poxa vida, todos nós em queda livre, esperando para puxar o paraquedas.

O avião vai ficando pequeno lá em cima, nem acreditamos que estávamos ali há alguns segundos. Começamos a nos acostumar com o sentimento bom de ter tomado a decisão de pular, com o vento, com a paixão pela montanha, com a sensação de vitória. Mas logo o frio na barriga volta, nos lembramos que a hora de abrir o paraquedas está chegando. Meu Deus, como será quando puxarmos? O tranco será forte demais? Saberemos nos guiar até o local de pouso? Terá alguém conosco lá embaixo? E, curiosamente, percebemos que nada disso importa tanto porque não adianta conjecturar demais, só saberemos na hora de viver tal momento. Isso acabou de acontecer, não é mesmo? E quando estivermos de braços abertos, guiando o paraquedas, quem garante que o planar lento e contemplativo não será tão bom e cheio de descobertas como a queda livre e rápida?

Ainda tem muita gente no avião. Tem muita gente que não vai pular. Tem pessoas que amamos que vão ficar por lá, outros chegarão primeiro, alguns, muito tempo depois de nós. Tudo é válido, os gritos, o medo, a ansiedade, a insegurança, o prazer, os questionamentos — do tipo “Quem é o instrutor e como ele sabe tanto disso?” ou “Como vai ser depois que eu pousar?” — e cada descoberta.

Se for cair, caia sorrindo, com coragem, porque não tem poço, não tem fundo, não tem fim, o que tem é um enorme campo verde e a possibilidade de começar tudo de novo.


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