Tico Menezes

Quem É Que É Quem Diz Que É?

Sobre muita confusão e pouca certeza. Mas nunca tão certos do quão confusos somos.


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Só por Deus, qualquer que seja o seu. Mas sério, só por Deus, como é fácil culparmos nosso coração pelo que nos acontece. Me dirijo aos que não pensam que o mundo gira ao seu redor e se culpam por ser sensíveis, desejam ser amados e compreendidos, buscam experiências felizes e criam expectativas em cima de passeios comuns a todos os outros, mas principalmente, sofrem antes, durante e depois de algo que não correu de acordo com o esperado. A estes, digo: Fiquem calmos, vocês não são problemáticos. Digo, nós. Nós não somos problemáticos. Nós só queremos sorrir sem medo de que nos repreendam.

É aquela velha história que só faz sentido pra quem não teve o sorriso mais bonito da sala no colegial: Garoto não sabe como flertar, garota não sabe qual a linha entre o “dizer o que pensa” e o “dizer o que os outros querem ouvir”, garoto passou a noite se revirando na cama imaginando como seria se aquele domingo fosse passado ao lado daquela garota ao som de sua música preferida, piadas internas e Netflix, garota se arrumou e, mesmo sabendo que deve se arrumar para se sentir bem consigo mesma, não conseguiu deixar de pensar se aquela boina ou aquele lápis de olho eram detalhes que seriam notados, garoto e garota não sabem o jeito certo de se apaixonar, muito menos se consideram remotamente bons na arte do flerte. Nós queremos nos apresentar de forma natural, mas há um bicho dentro de nossa barriga que parece nos socar a cada palavra dita ou sorriso dado. Nós confirmamos presença sem nem pensar como faremos para voltar para casa de madrugada. Nós lembramos de nossa adolescência e dá uma saudade gostosa, mas vislumbramos um futuro de descobertas e desafios que também parecem empolgantes. Nós nos questionamos sobre absolutamente tudo umas dez vezes por minuto.

Somos os amigos perfeitos, os genros e noras que todo pai e mãe querem, os irmãos de coração, as companhias perfeitas para uma tarde maratonando séries ou assistindo listas infinitas de filmes, o amigo que faz café, a amiga que faz chá, o cara que entende tudo sobre todo mundo, mas não faz ideia do que ocorre em sua própria cabeça, a moça que nunca deu certo num romance, mas resolve com tanta facilidade as inseguranças das amigas. Mas somos legais conosco também, mesmo nos tremendo diante de uma mínima possibilidade de aquela esperança antiga se concretizar. Gostamos de nossos momentos sozinhos, de leituras compenetradas, de contemplação do quanto ainda somos crianças, de procurar música triste para chorarmos e, ao fim do choro, nos sentirmos mais leves e prontos para mais uma semana de situações embaraçosas que a vida colocar em nosso caminho. Eita, Caetano realmente sabe das coisas, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Mas até quando? E quando isso tudo passar e for nossa vez de ter a atenção que sempre desejamos, mas nunca pedimos?

E eles ainda têm a pachorra de nos dizer: Seja você.

Vê se pode? Humpf, onde já se viu? Ser eu. Pfff, eu sou a maior bagunça. Mas eu sou legal. Não sou? Não somos? Talvez, mas apenas talvez, eu possa falar sobre isso. Sobre o que eu gosto, sobre o que esteve em meus pensamentos quando fui dormir às oito horas da noite na sexta-feira. As pessoas estão rindo, mas não daquele jeito hostil, como se eu fosse um bicho estranho. Não, elas estão rindo com as sobrancelhas baixas e os sorrisos largos, como se me compreendessem, como se soubessem o que é ter todas essas inseguranças. Estão dizendo que sou engraçado. Caramba, é como se eu sempre soubesse muito sobre todos, mas dessa vez eu nem estou me esforçando, eu só estou falando sobre... mim. Ué.

Então é essa a resposta? Ter coragem de dizer que não somos tão corajosos como queríamos ser? Mas toda a reflexão, toda a angústia, todo o medo, digo, tudo o que sou é apenas humano? Então somos normais? Entendi.

Normais à nossa própria forma. Normais como ninguém no mundo é. Cada um extraordinário em seu normal. Cada um absurdamente diferente por se questionar, mas com tanto em comum. Então junta aqui, galera. Vamos ensinar que estamos nesse mundo, mas não pertencemos a esse lugar. Existe um universo imenso de souvenires, histórias, manias, idiossincrasias, músicas, frases de efeito, frases bobas, desejos, sonhos, esperança, raiares e chuvaradas, criancices, responsabilidades, aprendizado e verdades dentro de nossos corações e, talvez por isso seja tão difícil dizer que somos normais ou parte de algo, porque somos únicos e não queremos soar arrogantes. Os mundos são distintos, somos planetas não descobertos em galáxias pouco exploradas. Somos muito parecidos, mas é mais fácil ver onde somos diferentes.

Só por Deus, qualquer que seja o seu. Mas sério, só por Deus, como tudo está em perfeita harmonia quando visto de longe. Só que ver de longe não tem graça. Talvez seja hora de se abraçar, em todos os defeitos e qualidades, e assumir que tentamos nos ver de longe esse tempo todo. Mas agora estamos pertinho, pertinho...


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