Tico Menezes

Sobre Crianças e Tartarugas

O que a criança que você era diria para o pseudo-crítico de cinema que você é?


Você enrola os braços do seu bonequinho do Comandos em Ação num saco plástico do mercado do seu Nivaldo, sobe na cama de cima do beliche e o joga lá do alto – no caso, o que é considerado alto por um moleque de 8 anos. Pronto, tem início a grande saga dos Comandos em Ação contra os malignos Animais de Pelúcia Parmalat que usam um Darth Vader sem o braço esquerdo contra seus adversários. Um intrépido herói cai do céu num campo de guerra macio – o tapete do quarto – onde soldados lutam com suas próprias mãos, e une forças com seus amigos do passado – de diferentes tamanhos e cores, variando de caminhões-robôs a bonecos três vezes maiores do que os Comandos em Ação – para evitar que o mundo seja dominado por uma raça de animais gigantes que odeiam seres humanos sem razão aparente. Uma história repleta de ação, aventura e emoção, com um final que te deixará sem fôlego, aguardando pelo próximo episódio. E você pode viver essa história no chão do seu quarto às duas da tarde numa terça-feira. Bem-vindo à infância!

Todo mundo é um gênio. Mas, se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em uma árvore, ele passará toda a vida acreditando que é estúpido.

(Albert Einstein me dando uma força pra acordar esses pseudo-críticos de cinema que exigem explicações detalhadas e científicas sobre cada anomalia e criatura fictícia apresentada nos filmes voltados ao público infanto-juvenil.)

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Rapazes que cresceram nos anos 90 como este que vos escreve, me respondam: Vocês questionavam de onde vinham aqueles monstros de collant cinza que lutavam com os Power Rangers? Se perguntavam o porquê de os elefantes de Babar falarem – ainda mais em português? Se importavam com a ideia de camundongos chamados Emily e Alexander se casarem e saírem pelo mundo resolvendo mistérios? Fazia diferença os personagens do mundo de Doug Funnie serem verdes, azuis ou alaranjados? Desgostavam de Caverna do Dragão porque não fazia sentido uma montanha-russa ser um portal para outra dimensão?

Lhes pergunto isso porque venho lendo umas críticas sobre filmes de ficção e aventura voltados ao público infanto-juvenil tratando-os como obras sérias e que devem uma razão científica plausível de acordo com os padrões estabelecidos por sabe-se lá quem para tais filmes terem animais falantes, universos cheios de criaturas que compreendem o espírito humano e objetos inanimados que guiam um protagonista para seu destino heroico. Filmes como o reboot de “Tartarugas Ninja” e “Goosebumps – Monstros e Arrepios” sendo execrados por críticos formados em Cinema por serem considerados “difíceis de crer” ou “infantis demais para o elenco que tem” me fazem pensar que a infância está sendo negada ou há um saudosismo um tanto babaca que considera as gerações mais novas indignas de se divertir com obras contemporâneas.

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Me lembro de sentar na frente da televisão após esperar o que pareciam horas da novela chata reprisada no “Vale a Pena Ver de Novo”, ansioso pela Sessão da Tarde que traria Raphael, Leonardo, Michelangelo e Donatello usando os ensinamentos de Mestre Splinter para derrotar o Destruidor, fazendo parceria com um jogador de hóquei alucinado, se tornando melhores amigos de uma repórter corajosa e lutando contra ninjas malvados ao som de “Go Ninja Go” do Vanilla Ice e, cara, aquilo era demais! Hoje, já adulto – porém, mais criança do que nunca! –, com estudo e uma considerável bagagem de obras audiovisuais, percebo que a trilogia das “Tartarugas Ninja” que eu amava quando criança são produções fracas, com pouca relevância para a história do Cinema, contando com figurinos no máximo inventivos e um apelo claríssimo ao público adolescente da época. Mas até onde isso deve importar? Eu amava as Tartarugas, amava a trilha sonora, amava os golpes, as coreografias de luta, as lições de moral, o vício deles em pizza, as brincadeiras imaturas de adolescentes, o clima descontraído e a diversão que aquele universo me proporcionava. Era descompromissado, feito para entreter e empolgar, aguçar o imaginário já fértil das crianças que criavam um carinho ainda maior por animais diferentes e os colocavam como os heróis de suas histórias pueris. Essa piração divertida fez da minha infância uma época ainda mais legal e nem por isso eu deixei de desenvolver um senso crítico, de conseguir discernir filmes que se levam a sério dos blockbusters voltados unicamente para o entretenimento descompromissado, de estudar os primórdios do cinema, de aprender sobre os movimentos culturais que tornaram possíveis filmes que abrangem tantos públicos, de ser um cara que sabe analisar uma obra e discorrer sobre ela com humildade e seriedade. E é exatamente a piração infantil, o incentivo a dar asas à imaginação que tornou esse artigo possível.

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Não se exige de uma criança um comportamento adulto, é preciso praticar a alteridade – se colocar no lugar do outro, no caso, da criança – e ser grato pelo fato de haver uma indústria que produz filmes infantis que se preocupam em entreter e ensinar valores, em tornar ainda mais duradouras as brincadeiras com bonequinhos no tapete do quarto, em incentivar a infância em toda a sua inocência e puerilidade. Então, galera, não se atenham ao que está padronizado, se permitam deixar a vida adulta de lado por umas horinhas e, pelo amor do Mestre dos Magos, parem de ser chatos.

P.S: Após ler este artigo, assista novamente ao reboot das Tartarugas Ninja (2014) e se empolgue comigo ao assistir o novo trailer da sequência que estreia em Junho de 2016.


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