Tico Menezes

Velozes, Furiosos e Cheios de Cultura

É só ação boba, filme daqueles que a gente esquece tudo logo depois de assistir, não tem mensagem nenhuma e não serve para nada.
Será mesmo?
Velozes e Furiosos tem um peso muito mais significativo na história do cinema do que imaginamos. Vamos falar de cultura sem preconceitos?


Um Primeiro Plano da mão do protagonista engatando a primeira marcha. Pneus cantando, marcas de borracha na estrada. Primeiríssimo Plano no olhar dos protagonistas, que vira da estrada para seu oponente. Uma trilha sonora vibrante, cenas de ação mirabolantes que arrancam expressões revoltadas e admiradas do espectador, algumas cenas rápidas focando motores potentes e cromados, mulheres dançando com roupas curtas, homens bebendo e disputando qual ego é o maior com seus carros estacionados diagonalmente em ruas fechadas para uma corrida ilegal em Los Angeles. Seria essa a fórmula do sucesso de “Velozes e Furiosos”?

Pois eu digo que há muito mais do que o apelo popular apatetado da franquia. Aliás, ainda no campo do apelo popular, há representatividade de minorias étnicas como nunca visto antes na história do Cinema.

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Em “Velozes e Furiosos”, de 2001 e “+ Velozes + Furiosos” de 2003, vemos eventos de corridas clandestinas organizados por hispânicos, mexicanos, negros norte-americanos, japoneses e outros grupos étnicos, que participam ativamente das corridas e coexistem naquele local onde se ganha o respeito no “esporte”. No primeiro filme, é explorada a rixa entre uma equipe de motociclistas japoneses e a equipe diversa de um ítalo-americano chamado Dominic Toretto (Vin Diesel) – equipe que conta com uma mexicana, Letty Ortiz (Michelle Rodriguez), uma ítalo-brasileira, Mia Toretto (Jordana Brewster) e o deslumbrado protagonista do filme, o herói norte-americano estereotipado, loiro de olhos azuis, Brian O’Conner (interpretado por Paul Walker) – e o que move o filme é a descoberta do protagonista que, infiltrado na equipe de Toretto, descobre uma família de desajustados pertencentes a minorias desfavorecidas numa sociedade que vive sob padrões de beleza europeus.

Mas é quando o diretor taiwanês Justin Lin assume a franquia que a representatividade étnica toma o lugar das reviravoltas novelescas e clichês dos filmes anteriores. O protagonismo é levado às ruas de Tóquio e a trama foca na cultura japonesa, nos costumes e crenças desconhecidas por Sean Boswell, um garoto com problemas de disciplina que é forçado a morar com o pai – com quem não conviveu por muito tempo – e se esforçar para aprender a sobreviver num lugar tão diferente do que está acostumado. A trama de “Velozes e Furiosos – Desafio em Tóquio” também não é das mais inteligentes e desafiadores, mas são personagens como Han Lue (Sung Kang), um japonês com um passado misterioso que desafia membros de uma organização criminosa em prol da liberdade e do respeito entre jovens corredores que tornam a obra algo mais do que “só mais um filme de ação”. Em certo momento do longa, Han e Sean estão no topo de um prédio observando uma avenida da populosa capital japonesa, conversando sobre um carro que perderam quando se conheceram, quando nos deparamos com o seguinte diálogo:

Han: Quem você escolhe para ficar perto de você revela seu caráter. Um carro em troca de saber quem é a pessoa é um preço que não me importo em pagar. Olhe todas aquelas pessoas lá embaixo. Elas seguem as regras influenciadas pelo medo.

Sean: E se elas deixarem de fazer isso?

Han: A vida é simples. Você toma decisões e não olha para trás.

Diálogo que revela uma profundidade pouco explorada até então na franquia. Personagens distintos fisicamente, com passados e uma criação diferentes, mas que, por observarem o mundo de forma parecida, se ajudam, criam laços e logo não há barreira nenhuma que os impeça de se identificar. São diferentes, mas iguais.

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Pouco antes do quarto filme da franquia, Vin Diesel produziu um curta-metragem sobre o que Dominic Toretto tem feito nos anos em que não esteve nos EUA, “Los Bandoleros”, respondendo perguntas que ficaram em aberto após o primeiro filme. Assim somos apresentados à cultura porto-riquenha, à sua música e suas festas. Dominic está vivendo em Porto Rico com amigos, faz parte daquele lugar, mesmo sendo ítalo-americano, não tendo a cor ou a vestimenta dos demais, mas há um claro respeito entre todos eles, há a identificação e a cumplicidade que vimos no filme anterior e isso é o bastante para darmos início a uma história sem que as diferenças entre os personagens desviem a atenção.

Pulemos para a sequência inicial de “Velozes e Furiosos 4”, no qual vemos uma ação do time de corredores de Toretto fazendo mais um de seus clássicos assaltos a caminhões em movimento. O time, sob sua liderança, é composto por Tego Leo e Rico Santos – porto-riquenhos –, Letty – mexicana – e Han – japonês – que demonstram precisão e pontualidade no trabalho em equipe, protagonizando uma das mais eletrizantes sequências da franquia. O filme ainda apresenta a primeira integrante israelense do elenco, a estonteante Gisele Harabo (interpretada por Gal Gadot) faz a mediação entre protagonistas e antagonista, conquistando a simpatia do espectador por não forçar um romance desnecessário com Toretto, como fora esperado no decorrer do longa.

Mas é no quinto filme – “Velozes e Furiosos – Operação Rio” – que a representatividade de minorias étnicas proposta por Justin Lin atinge seu ápice. Uma vez que o foco da franquia mudou de “apresentar o universo do tunning” para “filmes de assalto à la 11 Homens e Um Segredo”, introduzir novos personagens e dividir seu tempo de tela sem arrastar a trama ficou mais fácil, mais dinâmico e arrebatou público e crítica, abraçando de vez os clichês de filme de ação oitentistas e rindo de si mesmo ao criar sequências impossíveis e mirabolantes. Com uma trama passada nas favelas do Rio de Janeiro, tendo como vilão o ator português Joaquim de Almeida no papel de Hernan Reyes, um político corrupto que controla a Polícia do estado (porta aberta pelo filme “Tropa de Elite”, de José Padilha, para que os brasileiros não se sentissem ofendidos), Toretto convoca uma equipe formada por personagens coadjuvantes dos filmes anteriores. Assim, o grupo mais diverso de protagonistas num blockbuster do século XXI deixa sua marca e desafia Hollywood a pensar além dos estereótipos. Toretto, Brian, Mia, Han, Gisele, Tego Leo, Rico Santos, Roman Pearce – representante do negro do subúrbio estadunidense apresentado no segundo filme da franquia – e Tej Parker – interpretado por Ludacris Johnson, que quebra o estereótipo dos “nerds da tecnologia”, pois o personagem também é negro e coexiste naquele universo sem disputa de egos ou ridicularização de etnias – formam a equipe que se propõe a derrubar o comando criminoso de Reyes, mas tem em seu encalço o agente samoano Luke Hobbs – interpretado por Dwayne “The Rock” Johnson – e a policial brasileira Elena Neves – interpretada pela espanhola Elsa Pataky.

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Após um primeiro ato focado em Dom, Brian e Mia sendo caçados por Hobbs, o filme introduz os outros integrantes da equipe, dividindo o protagonismo entre esses personagens tão diferentes e movendo a trama de forma ágil e inteligente, dando tempo de tela para que cada ator desenvolva seu personagem com eficiência. A partir daí, acaba-se a dominação dos heróis belos de olhos e cabelos claros – nada contra Paul Walker, apesar de ele ter representado este papel nos primeiros filmes – e abre-se espaço para que pessoas ao redor do mundo se vejam representadas num blockbuster, terem parte em produtos culturais de massa, possam falar sobre como aquele ator de seu país está no papel e o que isso significa. É um avanço gigantesco que serviu como um despertador para que outras obras subvertam ainda mais o papel do herói, o que e quem é considerado bonito e digno de finais felizes. Num ano em que “Mad Max – Estrada da Fúria”, as séries “Sense8” e “Jessica Jones” e o aguardado “Star Wars – O Despertar da Força” se fizeram entender colocando personagens femininas como protagonistas fortes e desafiadores além de outras críticas sociais e aos padrões de protagonismo, tivemos “Velozes e Furiosos 7” entregando um roteiro ainda pautado em diversidade, visitando diversos cenários ao redor do mundo, acrescentando à equipe uma mulher negra como uma das mais talentosas hackers do mundo, lutando contra um vilão britânico e um tailandês mal-encarado, atravessando dois prédios com um carro numa cena que, pasmem, é uma das mais belas da franquia devido a sua fotografia cuidadosa e, por fim, montando – com direito à quebra da quarta parede – uma emocionante despedida a Paul Walker que, ironicamente, faleceu num acidente de carro em 2013.

Pode passar despercebido pela maioria, mas o multiculturalismo na franquia “Velozes e Furiosos” é uma injeção de confiança nos desacreditados, um lembrete cheio de adrenalina de que todos importamos, de que com todas as nossas diferenças, somos iguais. E um breve diálogo entre Toretto e seu grupo de amigos, a quem chama de família, resume a franquia e todos os porquês de continuarem sua saga exagerada e voluntariamente apatetada:

Dom: Dinheiro vem e vai, todos sabemos disso. A coisa mais importante na vida sempre será as pessoas nessa sala. Aqui e agora. Salute, mi familia!


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