Tico Menezes

Vence aquele que sabe perder - O vazio existencial de Kraven, O Caçador

A história mais sombria e poética do Homem-Aranha representa a maturidade de seus leitores. O auge e a queda do vilão Kraven, O Caçador, além de magistralmente escrito, é uma lição sobre humildade, força e autocrítica. É literatura de classe para os apaixonados pela nona arte.

SPOILERS ABAIXO.


Após a vitória, o que faz o vencedor?

O Homem-Aranha, personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko, é um dos super-heróis mais aclamados por público e crítica na história da nona arte, levando esperança, bom-humor, mensagens de confiança e o valor do esforço para leitores de todas as idades desde a década de 1960. Com uma galeria de vilões coloridos, frases de efeito, piadas hilárias em momentos inoportunos, a superação da morte do tio e da namorada se fazendo presente ao fim de cada estória e uma vida de jovem comum, aprendendo a lidar com um mundo cão, onde o capitalismo não se importa com bondade, o amor traz questionamentos constantes, a insegurança é presente em cada nova oportunidade e pessoas tiram prazer da difamação do nome dos altruístas, temos em Peter Parker a representação da criança que tem medo de crescer, mas o faz por necessidade, tentando desesperadamente não perder o sorriso no rosto. O Homem-Aranha é um personagem que, se não sabe o que é a felicidade plena, tenta viver alegre cada dia de sua complicada vida.

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Por este motivo, em 1987, o mundo dos quadrinhos se deparou com uma das mais chocantes surpresas – e estamos falando de uma indústria em que nenhuma atitude brusca dura muito tempo – nas edições 31 e 32 de “Web of Spider-Man”, 293 e 294 de “Amazing Spider-Man” e 131 e 132 de “Spectacular Spider-Man” com o arco “A Última Caçada de Kraven”, escrito por J.M. DeMatteis. Um arco em que Kraven, O Caçador – personagem obsessivo por caçar criaturas consideradas superiores ao homem, com aparições recorrentes nas histórias do Cabeça de Teia – finalmente derrota o Homem-Aranha, o coloca num caixão e o enterra num cemitério com direito a uma lápide aterrorizante na qual se lê “Aqui jaz Homem-Aranha, derrotado pelo Caçador”, e, não suficiente, veste o traje do herói e toma sua identidade, combatendo o crime com ódio e brutalidade.

Sergei Kravinoff – O Caçador – é conhecido como o maior rastreador e caçador de animais e veste este título com orgulho. É o herdeiro de uma rica família russa, refugiada na América após a Revolução Bolchevique. Mas, tendo derrotado diversas feras selvagens e monstros com instinto assassino, Sergei não aceita o fato de que nunca foi capaz de derrotar o Homem-Aranha, o que se torna uma obsessão. Ele é um homem rico, reconhecido mundialmente, com conforto e infinitas possibilidades a seu dispor, mas nada disso importa quando há uma criatura “melhor” do que ele andando livremente pelo mundo. Assim, após um tratamento de ervas, raízes e uma viagem que beira a psicodelia em prol da compreensão da mente de seu oponente, Kraven seduz o Aranha para uma armadilha e de forma cruel, o derrota com um poderoso sedativo e o enterra, para que o mundo saiba que ele, enfim, se provou superior.

Mas é a decisão de se vestir e atuar como seu inimigo que traz a verdade sobre a obsessão de Sergei. Ao perceber que sua crueldade e ódio para lidar com os inimigos do Aranha o diferencia dele – não melhor ou pior no que diz respeito à eficiência de parar o crime –, Sergei começa a questionar sua existência e a razão de suas atitudes. Assim voltamos à pergunta que iniciou este artigo: Após a vitória, o que faz o vencedor?

Em toda sua pompa, raiva, foco, competitividade e persistência, Sergei Kravinoff percebe que é um homem de argumentos rasos para justificar um sentimento profundo de medo e insegurança para consigo mesmo, se aprofunda em sua introspecção através da mentira que contou a si mesmo tantas vezes que se tornou verdade em sua distorcida mente: Eu sou melhor do que eles. Sergei não é ninguém além do Caçador que, sem um oponente, deixa de existir. Sergei é um homem que abdicou de sua vida e de experiências pessoais, sentimentos, descobertas e aprendizado para impedir que outros o fizessem. A honra que tanto buscava restaurar inexistia, pois nunca fora sua. Diferentemente de Peter Parker com o Homem-Aranha, Sergei Kravinoff não existia sem O Caçador, provando assim que dinheiro e fama são troféus vazios quando a jornada não traz valores e descobertas. A jornada do Caçador era dele e somente dele, baseada em sua opinião, em suas perspectivas, em sua autodeclarada superioridade e, por esta razão, Sergei deixou de existir, deixou de importar para o mundo em que vivia.

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Mais tarde na trama, o efeito do sedativo passa e o Homem-Aranha escapa do caixão, numa icônica capa onde se vê o herói rastejando para longe de seu túmulo. Ao confrontar Kraven, na mansão luxuosa dos Kravinoff, percebe o vazio existencial do vilão e após um monólogo belíssimo, escrito com o cuidado de uma obra clássica da dramaturgia, se vê liberto pelo Caçador que promete nunca caçar novamente, pois o que restou de si é apenas um homem simples, e com isso Sergei não sabe lidar. O Aranha vai embora e começa a reparar os danos psicológicos que Kraven causou em outros personagens em seu tempo como “herói”. Sergei, por sua vez, abraça sua humanidade e opta pelo único caminho que vê à sua frente, conclui seu monólogo e tira a própria vida com a arma que eliminou tantas outras feras.

O que a sombria jornada de Kraven ensinou aos leitores de quadrinhos que só procuravam por sua injeção semanal de esperança e diversão? Quais as reminiscências dessa estória na longínqua jornada do Homem-Aranha? A resposta se encontra na rotina diária de cada leitor. Somos multitarefas, somos várias versões de nós mesmos, somos heróis e não precisamos sentir vergonha de pedir ajuda, somos confusos, mas somos ótimos conselheiros quando um amigo está precisando, somos Homem-Aranha, mas somos Peter Parker.

Kraven era apenas Kraven e por este motivo nunca sairá de sua cova.


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