Tico Menezes

Você 2.0

Vem cá, passado, me dá um abraço. Obrigado por me fazer quem sou.


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Lembra daquela festa? Aquela em que você gritou que a vida era louca e pedia para ser vivida ao extremo. Você dançou como se não houvesse mais ninguém no mundo, aceitou os elogios e abraçou a sua adolescência, o seu desejo incontrolável de quebrar as correntes que te prendiam aos rótulos “aprendiz”, “iniciante” que, na sua opinião do alto dos seus 16 anos, eram só uma forma educada de dizer que você era “inferior” e “imaturo”. Então você foi e, naquela pista de dança, com aquelas luzes e aquele monte de gente dançando perto de você, sentiu um poder de liberdade jamais sentido, se entregou àquelas que eram as histórias que você queria ter para contar. Lembra? Foi engraçado e, mesmo que você diga que não faria isso novamente, te fez bem.

Lembra daquela sua namorada? Aquela a quem você jurou amor eterno e até levou para viajar com a sua família? Lembra? Você tinha 18 anos e dizia que ninguém era digno do seu romantismo a não ser ela. Porque ela te entendia, porque ela era especial, porque ela queria viver como você. Por qual razão vocês terminaram mesmo? Ah, sim. As pessoas mudam e vocês não são exceção. Você chorou bastante, lembra? Mas até que a deprê pós-término passou rápido, né? Digo, você chorou mais por todas as promessas que nunca se concretizariam, mas entendeu que sentimento é sentimento independente do tempo que dure. Acho que ela te fez mais bem do que você imagina. E não, ela não destruiu o final da sua adolescência, olha o drama. Ela foi viver e amadurecer, você fez diferente? Pois então, olha que ótimo!

Lembra daquele erro enorme que você cometeu? Eu também lembro e sei que você desejaria esquecer. Mas sabe do que mais? Ainda bem que você errou. Você aprendeu uma lição, né? E se tornou uma pessoa melhor depois disso, uma pessoa que não vai mais cometer esse erro. Então tá tudo bem.

Lembra quando você pensava que ninguém te queria por causa da sua aparência? E lembra quando isso mudou e você começou a pensar que todo mundo só se aproximava porque você tava bonitão? Sabe, acho que você esteve certo e errado nas duas vezes. Nossas opiniões são como nossa aparência, não é mesmo? Mudam conforme amadurecemos e são capazes de atrair ou repelir pessoas. Não me acho melhor porque não deixo a aparência de alguém me influenciar, você também não é mais do que ninguém porque tem essa opinião. Qual é, você já se imaginou namorando a menina mais bonita da sala, não? É engraçado como tudo isso funciona, digo, essa coisa da atração e do que se valoriza no outro. Em nossos caminhos, que levam a lugares completamente diferentes, acabamos passando por lugares parecidos, aprendendo lições parecidas. Deixando a marca da sola de nossos pés, calejando os calcanhares rumo à nossa identidade. Patinhos feios e lindos gansos, todos nós, mesmo que em diferentes épocas da vida.

Lembra quando você se impôs contra aquele professor que achava engraçado zoar a menina insegura da sala?

Lembra quando você disse que sabia muito sobre literatura francesa só porque leu uns três artigos na internet?

Lembra quando você faltou no trabalho para assistir “X-Men Evolution”, “As Visões da Raven” e “Eu, a Patroa e as Crianças”?

Lembra quando você foi elogiado no trabalho por assiduidade e nem ficou tão feliz porque, enquanto estava lá, queria estar estudando Artes?

Lembra aquela sua fase de só ouvir Falamansa e ir para todo lugar usando um chapéu e sandálias?

Lembra do quanto você mudou desde que começou a perceber as mudanças? Chega a ser assustadora a velocidade do tempo e a intensidade do que mudou, né? Somos uma constante revolução interna, ora uma máquina de arrependimentos, ora um poço dos desejos, ora apenas mais um no mundo, ora o ser mais especial que já caminhou pela Terra, ora apenas você em toda a complexidade da sua simplicidade. A soma de todos os seus erros e acertos, o fruto do bem que você fez e das dúvidas que já teve, a criança que foi, o jovem que é, o adulto que está quase para ser e o idoso que será, às vezes todos de uma vez, às vezes mais criança, às vezes mais idoso, mas sempre exatamente o que você é.

Lembre-se que você é a melhor versão de si mesmo neste momento. Mas que as atualizações já estarão disponíveis amanhã.


version 3/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Tico Menezes
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