Tico Menezes

Deixa os Moleque Andar de Skate, Carai

Liberdade pra dentro e fora da cabeça.


dexusmulekandadisqueitcarai.jpg

Um grupo de pessoas se reúne numa sala, sentam em roda no chão de madeira e começam a se olhar. Elas tentam sentir o cheiro umas das outras, analisam cada uma de suas características e reúnem o máximo de dados que conseguem para criar suas imagens de quem são aqueles dividindo aquele espaço com elas. São eles um funkeiro com meias até o joelho e boné de aba reta, uma garota Testemunha de Jeová, um homem engravatado exalando um perfume Armani importado, uma mulher de jeans, piercings e camisa curta mostrando o piercing no umbigo, um rapaz franzino de cabelo com franja para o lado, uma garota com um skate preso na mochila, um sambista segurando um pandeiro e vestindo uma camisa com as cores da sua escola de samba e uma senhora vestindo um avental de cozinha e chinelos humildes. Eles se olham por 25 minutos até que começam a conversar. Três dias até começarem a se fazer perguntas sobre suas rotinas. Uma semana até descobrirem algo no jeito do outro que os agrada. Um mês até perceberem que das diversas coisas em comum, há uma que engloba tudo: Cultura.

O experimento acima não existiu, ao menos não que eu saiba, mas acontece em ônibus lotados pela manhã, em escolas, nas periferias, nos prédios comerciais de classe média, nos carnavais, nos happy hours e no momento em que colocamos nossos pés para fora de casa. O exercício proposto aqui é repensar o conceito de cultura e a importância que ela tem nos mais diversos grupos que compõem a sociedade em que vivemos.

Pense em como a Dança da Motinha já foi considerada um sinal do fim dos tempos, mas movia bailes e festas nos mais diversos lugares do país. Assim como a febre das novelas das 9, tão execradas por críticos de cinema, mas são analisadas até hoje e, de uma forma ou de outra, trazem questionamentos que boa parte de seus espectadores ainda não haviam feito. E siga nomeando produtos e estilos que têm sua parcela de críticos e adoradores que, quando não ofendem ou denigrem outro grupo de pessoas, é inevitavelmente uma força que move multidões e causa real impacto em suas vidas. Nessa brincadeira de excluir minha opinião e analisar a forma com que as pessoas reagem a ideias, sons e estilos diferentes independentemente da opinião alheia, acabei descobrindo um novo significado para o ser culto. Cultura é tudo aquilo que se faz, se discute, se dissemina e se desenvolve.

Cosplayers, jogadores de RPG, Clubes do Livro Infanto-Juvenil, fãs da Nova Literatura Erótica, funkeiros, sertanejos universitários, noveleiros, torcedores aficionados por um time de futebol, skatistas de rua, fãs de K-Pop, os novos roqueiros, os grupos que estão por vir, os antigos Emos, surfistas, as chapas de Grêmio Estudantil, os coloridos, os meia na canela, os ligados na moda, os de cabelo pintado, os MCs, os poetas de Sarau, os grupos que já tiveram seu auge e hoje são apenas boas lembranças, os geeks, os memes, os nerds e todo aquele que abraça sua fase atual, seu gosto e sua vontade sem fazer vítimas merecem ser ouvidos, discutidos, disseminados e, eventualmente, vão se evoluir. Há poder nesses grupos, há acolhimento, há comunidade, há descobertas e há mudanças. É tolamente arrogante o instinto que o “cara normal” tem de se afastar do que é diferente. O descoladão e exclusivo é, na realidade, solitário e está perdendo diversas oportunidades de crescer como pessoa, como cidadão, como parte do mundo, como ser culto. E não, não estou dizendo que precisamos ser um pouco de tudo e fazer até o que não nos agrada para nos enriquecermos culturalmente, apenas não precisamos diminuir o desconhecido como faz todo aquele que teme sair da zona de conforto.

É claro que há o lado negativo, os motivos errados e a má índole nesses grupos. Não se deve negar a má influência que um discurso de ódio ou de ostentação do que é fútil pode ter sobre pessoas que consomem esses produtos e ainda estão em fase de formação psicológica. Mas algo tão forte, tão identificável, tão intenso não é composto por pessoas iguais. Elas estão reunidas em prol de um movimento, de um manifesto. E o grande segredo em aceitar essa cultura ao invés de negá-la automaticamente é encontrar o que une essa multidão, aprender novas linguagens, novas perspectivas que, quando comparadas com as que tínhamos anteriormente podem criar algo ainda mais novo, ainda mais unificado, ainda mais interessante e talvez com o poder de debater com aquele que faz o mal ali dentro. Não é assim que funcionam os países aqui na Terra?

A magia está em ter liberdade para escolher pelo sim ou pelo não, para perceber do que já não se gosta mais e do que merece um novo olhar, para ser e deixar de ser, para descobrir e apresentar, para ter suas próprias experiências e opiniões.

Há muito mais do que barulho, visual ou nomes nos lugares que escolhemos não olhar. E nosso veto, nossa negação está a um passo da censura, da opressão, do repúdio gratuito, da involução. Pense bem. Quem é que sai perdendo nessa conta? Não faz mais sentido adicionar cultura do que subtraí-la? O que isso diz do quão capazes somos de criar caminhos para as respostas que procuramos desde sempre?

Deixar as pessoas serem felizes nunca foi tão fácil e útil. Então deixe, mas se der curiosidade, seja feliz também, do jeito que você bem entender. Você e sua Cultura são bem-vindos.


version 2/s/sociedade// @obvious //Tico Menezes