Tico Menezes

Está Permitido Gostar de Porcaria

A linha tênue entre o guilty pleasure e o complexo de inferioridade.


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Na língua inglesa há o termo guilty pleasure – pronuncia-se “guilti pléjor” –, usado para se referir a um tipo de prazer culpado, algo que fazemos ou gostamos, mesmo sabendo que é considerado ruim por especialistas no assunto, algo que não confessamos com facilidade por saber que tal prática jamais passará sem críticas, bons contra-argumentos e contraindicações. Não há como fugir dos guilty pleasures, afinal, são bilhões de pessoas, com diversos gostos e desejos, mas, o primeiro passo para não se sentir mal com os seus é lembrar que vivemos numa sociedade onde muitos se sentem melhores ao inferiorizarem os outros. É natural olharmos para os lados e nos certificarmos de quem está ouvindo quando admitimos um guilty pleasure, mas, oras, também é natural tê-los.

Os exemplos vão desde comer pizza com feijão, se emocionar com músicas do Grupo Molejo e achar filmes do Steven Seagal obras inspiradoras até admirar os quadros de Romero Britto e ter fantasias sexuais com unicórnios. Mas o que escolhemos assistir, ler, consumir num modo geral ou o que, de forma inofensiva a qualquer outra vida, nos sentimos bem fazendo em nossa privacidade, realmente nos define? Por qual razão quem escolheu ler “A Divina Comédia” é melhor do que quem escolheu ler “Cinquenta Tons de Cinza”? Por qual razão é mais comum nos abrirmos para quem faz referência a “Casablanca” e nos fecharmos para quem usa “Velozes e Furiosos” como exemplo numa conversa? É justamente a escolha de ter contato com qualquer que seja a obra que torna a opinião interessante e automaticamente questionável, o que é ótimo, afinal, não sabemos das razões dos outros. Aliás, muitas vezes pouco sabemos das nossas razões, talvez por reprimirmos memórias e vontades ou por não sentirmos vontade de conhecer algo novo e diferente, o que é um tanto bobo visto que são justamente coisas como um guilty pleasure que nos torna diferentes, que prova nossa singularidade.

A crítica especializada é uma comunidade que estudou todas as minúcias da execução de uma arte, seja ela qual for, e divulga sua análise – que não deixa de ser opinião, uma vez que há divergências até mesmo em seus pares – recomendando ou não algo por meio de uma nota ou um texto em diversas mídias. São especialistas falando sobre o que consumimos, há de se levar em conta a opinião da crítica, mas deve ser tratada como opinião, apenas. Assim como um conselho que damos pode funcionar muito bem para um amigo, pode não funcionar para outro, a única opinião que importa no fim é a sua, afinal, é você quem fará a escolha de fazer ou não algo baseado nas suas sensações e impressões.

Também é frequente o pré-julgamento em forma de careta ou comentários negativos ao ouvirmos alguém falando de algo que não consideramos bom. Há duas perguntinhas e alguns comentários que podemos nos fazer antes de assumirmos uma postura negativa quando alguém falar de algo que não gostamos:

1 – Isso tem impacto na minha vida? Se sim, bem, eu deveria dar a ela a chance de dar sua opinião, assim como quero mostrar a minha.

2 – Será que essa pessoa não está procurando ter suas próprias impressões sobre algo? Talvez ela também ache ruim e possamos ser amiguinhos. Ou talvez ela encontre algo que eu não tinha percebido e me mostre sob uma nova perspectiva.

Somos ensinados a obedecer e não a questionar, logo, odiamos o que nos dizem que é odioso e amamos o que nos dizem que é digno de amor, reprimindo nossas dúvidas e gostos. Mas talvez – e isso é um grande “talvez” – o mundo não gire ao redor de nossas mentes fechadas. Talvez novos mundos se apresentem se nos abrirmos e considerarmos que podemos estar errados.

Está permitido gostar de porcaria. Sempre esteve permitido gostar do que você quiser. Seus gostos serão iguais ao de muitos, porém, serão diferentes de tantos outros e isso é maravilhosamente saudável, pois incitará o debate e lhe fará questionar tudo e todos, procurando argumentos para sustentar sua opinião e lhe ensinará a admitir, sem orgulho ferido, que você está errado, assim como a sorrir sem ilusão de superioridade quando conseguir fazer sentido em seu ponto de vista.

Procure saber por que algo te agrada e não desmereça o que faz bem aos outros. Argumente, sempre. E aproveite as porcarias maravilhosas desse mundo, só você sabe o quão bem te faz. Neste exato momento, escrevo esse texto numa cafeteria cheia, com uma expressão séria e concentrada, mas nos fones de ouvido toca Backstreet Boys e, rapaz, meus pés não conseguem parar quietos.


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