Tico Menezes

Lágrimas, Bolos e Recomeços

Se lembre com carinho de suas coleções, mas deixe-as ir embora.


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Hoje quero falar sobre a tristeza e contar uma história. Especialmente sobre a tristeza que nos muda, a que merece ser lembrada não por masoquismo ou como catalisador para uma crise emocional que precisava acontecer, mas porque fez parte da criação de quem somos agora e do quanto nos ensinou.

Somos todos colecionadores de tristezas, mas somos maus colecionadores, o que é ótimo. Tente lembrar de tudo – mas tudo mesmo – o que já te fez chorar ou fez desaparecer um sorriso do seu rosto. Vai na fé, eu espero.

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Conseguiu? Pois é, eu também não. E isso não tem que ser ruim. Porque assim como diversas tampinhas de refrigerante se perdem na nossa coleção da infância, aquelas lágrimas que esquecemos fazem parte da nossa história só o bastante para que saibamos que elas existiram e, na hora, pareceram ter o potencial de derrubar nosso mundo. Mas nos esquecemos e vivemos tantas outras tristezas que também se esmoreceram com o tempo, nos endurecendo para que não cometêssemos o mesmo erro. E seguimos em frente, cada vez mais fortes, sentindo raiva de uma ou outra lágrima, libertando tantas outras, nos entregando a algumas e, por fim, vencendo e deixando cada uma delas para trás. Algumas voltam, mas não permanecem. E isso nos torna pessoas melhores, mais espertas, mais sábias, mais maduras, mais quem nascemos para ser. No desinchar de nossos olhos percebemos que sim, temos motivos para chorar, mas temos muito mais motivos para sorrir. E logo, olhos abertos, nasce outro dia. Outros motivos, outras vitórias.

Certa vez, num dos dias repletos de emoções da minha adolescência, vivi algo intenso e negativo na companhia de alguns amigos que já não conheço mais, não saberia entrar em detalhes porque não me lembro exatamente do que aconteceu, mas sei que coloquei meus fones de ouvido no máximo e voltei andando para casa. Meus passos firmes seguravam lágrimas pesadas que imploravam para escorregar pelo meu rosto e fazer minha cabeça doer. Em minha fúria juvenil, eu me apressei e logo fechei a porta do apartamento 1033. Meu pai estava sentado corrigindo provas na mesa da sala, no radinho de pilha tocava Um Dia Frio do Djavan. Ele viu em meu olhar tudo o que eu estava sentindo e jamais conseguiria dizer. Tentei ir direto para o quarto, mas ele segurou meu ombro e me fez virar de frente para encará-lo. Não precisei nem tentar me explicar, então me vi sendo abraçado e, sem perceber, chorei por minutos no ombro dele, vendo a manga de sua camiseta velha e cinza ficar escura por causa das minhas lágrimas ininterruptas. Eu soluçava e ele só dizia “está tudo bem agora”, acariciando minha cabeça, derrubando a toca listrada que eu usava dia sim, dia não. Não sei muito bem por quanto tempo ficamos ali daquele jeito, mas uma hora ele me fez sentar no sofá e perguntou se eu queria tomar um chá e eu apenas acenei que não. Ele ficou em silêncio. Eu fungava cada vez menos até me silenciar também. Agradeci com um aceno e fui direto para o quarto, fechando a porta e me deitando com a mesma roupa que cheguei da rua. Minha cabeça doía, eu me perguntava por qual razão eu era do jeito que era e por quê as coisas pareciam nunca sorrir pra mim. Pensei no meu futuro e nas pessoas que lá residiam, prometi a mim mesmo que tudo seria melhor e eu não deixaria mais momentos como aquele acontecerem. Sem perceber, adormeci. E me esqueci de meu pai que, até onde eu sabia, voltaria a terminar a correção de suas montanhas de provas ao som de músicas brasileiras dos anos 90.

E ele terminou, como o cabra dedicado que sempre foi. Eu ouvi alguns toques na porta do meu quarto, o que me acordou, e a voz abafada de meu pai do lado de fora perguntando se podia entrar. Grunhi um “pode” e esfreguei meus olhos. Minha cabeça ainda doía um pouco. Quando ele entrou no quarto, segurava com a mão direita um prato com um bolo pequeno de laranja, daqueles de padaria, com uma vela de cera acesa no meio. Meu pai se sentou na beirada da minha cama e sorriu para mim.

- Apaga. – Disse sorrindo.

- O que é isso?

- Apaga, rapaz. – Ainda sorrindo.

Eu soprei a vela e vi a chama se apagar num instante. Olhei para o rosto barbado dele, que ainda segurava o prato com o bolo no mesmo lugar.

- Hoje comemoramos o dia que te tornou um novo rapaz, filho. Hoje comemoramos sua vitória sobre aquele ontem triste que tanto mal te fez, mas que tanto te ensinou sobre você e sobre a vida. Hoje comemoramos um novo você, um cara mais maduro, mais livre, mais sentimental, mais vivo, mais real. Hoje é o primeiro dia do resto dos seus dias de descobertas e eu quero que você saiba que eu tô orgulhoso de você.

Mesmo em meu deslumbre, não conseguia ignorar o fato de que eu não havia feito nada demais, não havia conquistado nada, só tinha chorado um bocado. Mas não aos olhos do meu pai. De alguma forma ele me via como um herói, um rapaz merecedor de aplausos.

- Bem-vindo, filho. – Ele disse, pôs o bolo de lado e me abraçou com força.

Sem mais melodrama, ele se levantou e disse que estava fazendo suco de laranja e que lavaria o banheiro no meu lugar, mas só naquele dia, porque era um dia especial. Era sábado, dia em que assistíamos Sr Brasil na TV Cultura e tomávamos suco de laranja juntos, conversando sobre tudo e qualquer coisa pela manhã. Me lembro que uma felicidade diferente me invadiu naquele dia, mesmo eu não tendo entendido completamente o que ele tinha feito e o que aquelas palavras queriam dizer. De alguma forma, eu tinha me esquecido de boa parte dos acontecimentos que me levaram às lágrimas na noite passada, mas revivia o fôlego que tomei para soprar a vela. Comemos o bolo inteiro e tomamos, cada um, dois copões de suco naquele dia.

Hoje, muitos anos depois, acho que entendo o que meu pai tentou me ensinar com o bolo, a vela e tudo o mais. Digo, comecei a pensar nos meus aniversários e percebi que não me lembro de todos eles, não me lembro com que roupa estava ou por quem eu era apaixonado quando soprei todas as velas da minha vida. Me lembro com carinho de muitas coisas que aconteceram em cada ano que vivi, me lembro de lições que aprendi com a dor e com o amor, de coisas que li e escrevi, de coisas que ouvi e disse, de momentos triviais que passei e de coisas inesquecíveis que fiz parte. E percebi que as tristezas são como aniversários, representam mudanças, são recomeços, são parcialmente lembradas, são ora intensas, ora só mais um dia, nos apresentam para a mais nova versão de nós mesmos, são barcos num rio que vai desembocar no próximo sorriso que, quando acontecer, só nós vamos entender porque estamos sorrindo tanto. Não vamos cair no clichê de dizer que todos os dias devem ser comemorados e lembrados por felicidades imensas e incessantes, porque isso não existe. Lágrimas ainda vão rolar, novas e velhas, descobriremos novas tristezas e teremos novas razões para dias tristes. Mas faremos novos aniversários, novas lembranças inesquecíveis, teremos novos bolos de padaria, novas velas de cera, novas músicas, novas surpresas simples e extraordinárias, novos motivos para evoluir.

Com certeza não entendi tudo o que meu pai fez e disse naquele dia, tudo o que ele pensou e o que conseguiu expressar, principalmente porque não me lembro de absolutamente tudo. E talvez aí esteja o grande significado da coisa toda, na lembrança do sentimento que ficou, não dos detalhes ou das palavras exatas. Assim como sabemos a idade que tínhamos no ano passado e não nos lembramos de tudo o que fizemos nas tão sonhadas férias, sabemos que houve um dia como nenhum outro que nos fez chorar como nunca, mas a lembrança mais vívida é de como voltamos a sorrir.

Pois então, a todos que ainda estão acordando, lhes digo:

- Toc, toc?


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